POLARIZAÇÃO NACIONAL, POLÍTICA LOCAL:O ENIGMA AMAZONENSE EM 2026
- NEPOL UFJF

- há 3 dias
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Breno Rodrigo de Messias Leite¹
Rodolfo Silva Marques²
As eleições gerais de 2026 no Amazonas tendem a ocorrer em um contexto marcado pela reconfiguração das elites políticas estaduais, pela intensificação da polarização ideológica em nível nacional e pela permanência de clivagens socioeconômicas e territoriais historicamente estruturantes do comportamento eleitoral no estado. A compreensão desse contexto requer uma abordagem que ultrapasse a conjuntura imediata, incorporando uma perspectiva histórica e estrutural capaz de explicar padrões de continuidade e dinâmicas de mudança na política amazonense.
Nesse sentido, objetiva-se analisar o cenário político-eleitoral do Amazonas à luz do pleito de 2026, articulando processos de longa duração com elementos mais recentes associados à polarização entre lulismo e bolsonarismo. Parte-se da hipótese de que a disputa eleitoral no estado resulta da interação de dimensões estruturais e conjunturais, mediadas por especificidades regionais que conferem ao Amazonas uma trajetória política singular no interior do federalismo brasileiro.
Inicialmente, examinam-se a formação e a recomposição das elites políticas estaduais no contexto da redemocratização, a partir de meados da década de 1980, identificando mecanismos de acesso, permanência e renovação no poder. Em seguida, analisa-se o grau de competição e enraizamento das principais correntes políticas nacionais no estado, destacando suas particularidades locais. Posteriormente, são abordadas as clivagens socioeconômicas e demográficas que estruturam o comportamento eleitoral, com ênfase na relação entre Manaus e o interior. Por fim, mapeia-se o cenário político às vésperas de 2026 e examinam-se padrões de sustentação e renovação eleitoral.
1. Contexto histórico: os ciclos políticos amazonenses
1.1 Primeiro ciclo: estabilidade, personalismo e circulação interna das elites
A trajetória política recente do Amazonas, desde a redemocratização, caracteriza-se pela centralidade de um conjunto relativamente restrito de lideranças que estruturaram o poder estadual e conformaram um subsistema político marcado pelo personalismo, pela baixa institucionalização partidária e pela forte centralização do Executivo. Gilberto Mestrinho, Amazonino Mendes, Eduardo Braga e Omar Aziz pertencem a distintas gerações dessa elite dirigente, mas compartilham traços estruturais comuns que moldaram a dinâmica política estadual.
Gilberto Mestrinho, falecido em 2009, foi o principal articulador da recomposição do poder político amazonense nos anos 1980. Seu retorno ao governo no pós-regime militar simbolizou a reabilitação das elites regionais e a consolidação de um padrão de governança baseado no controle da máquina administrativa e na construção de extensas redes políticas no interior. Mestrinho governou o estado em três ocasiões e manteve filiação ao PMDB/MDB por quase três décadas.
Amazonino Mendes, falecido em 2023, emergiu como herdeiro e reformulador desse legado. Seu primeiro mandato, ainda nos anos 1980, marcou a transição para um estilo mais pragmático e eleitoralmente agressivo. Com passagem por 12 partidos ao longo da carreira, Amazonino consolidou uma estratégia centrada na forte presença no interior, combinando políticas distributivas e relações diretas com lideranças locais. Governou o Amazonas em 3 mandatos completos e um incompleto, exemplificando a personalização extrema da política estadual.
A ascensão de Eduardo Braga, filiado ao MDB desde 2005, representou uma inflexão parcial. Embora oriundo do mesmo campo político e inicialmente aliado de Amazonino, Braga simbolizou uma geração mais jovem, tecnicamente qualificada e integrada ao debate nacional. Seus governos, durante o ciclo lulista, beneficiaram-se do alinhamento com o Executivo federal, da expansão das políticas sociais e do fortalecimento da Zona Franca de Manaus, sem romper, contudo, com a lógica centralizadora.
Omar Aziz surgiu como continuidade direta desse ciclo. Vice de Eduardo Braga, assumiu o governo em 2010, ainda pelo PMN, e consolidou um modelo de sucessão interna das elites políticas. Seu mandato (2011-2014) caracterizou-se mais pela manutenção dos arranjos do que por inovações substantivas. Aziz migrou para o PSD em 2011. Sua trajetória evidencia um padrão recorrente na política amazonense: a circulação do poder dentro de um mesmo grupo político, com alternância de lideranças, mas sem alterações profundas na estrutura decisória.
1.2. Segundo ciclo: crise, instabilidade e ruptura parcial
A partir da década de 2010, o arranjo político relativamente estável do Amazonas entrou em crise. A combinação entre retração econômica nacional, fragilidades estruturais do Estado e desgaste das elites tradicionais desencadeou um ciclo de instabilidade política e institucional. O governo de José Melo (2014-2017), eleito pelo MDB e herdeiro direto do grupo liderado por Eduardo Braga e Omar Aziz, enfrentou desde o início um contexto adverso, marcado por crise fiscal, queda da arrecadação e progressiva perda de apoio político.
O colapso do sistema penitenciário, simbolizado pelo massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em 2017, evidenciou de forma dramática a incapacidade estatal de exercer controle institucional e territorial. A posterior cassação do mandato de Melo pelo Tribunal Superior Eleitoral representou o esgotamento de um ciclo político assentado na reprodução das elites tradicionais.
O governo tampão de David Almeida (PSD), entre 2017 e 2018, foi relevante para assegurar um patamar mínimo de estabilidade até a realização das eleições suplementares. Nessas eleições, Amazonino Mendes retornou ao governo como liderança experiente, mas seu mandato assumiu caráter transitório e foi marcado por ajuste fiscal, desgaste social e dificuldades na recomposição de uma base parlamentar consistente.
Em 2018, a eleição de Wilson Lima, então filiado ao PSC, representou uma ruptura eleitoral significativa. Sem trajetória política tradicional, Lima capitalizou o sentimento antipolítica e o descrédito das elites históricas. A pandemia de Covid-19 impôs desafios extraordinários à sua gestão, acentuando fragilidades estruturais do sistema de saúde e gerando elevado desgaste político. Ainda assim, Lima preservou sua base e foi reeleito em 2022, pelo União Brasil, evidenciando a complexidade e a incompletude do processo de mudança em curso.
2. Lulismo e bolsonarismo no Amazonas
Nas últimas duas décadas, a política amazonense passou a ser crescentemente influenciada pela nacionalização das disputas eleitorais, ainda mais nos últimos anos, com a polarização entre lulismo e bolsonarismo. Essas duas correntes operam menos como preferências partidárias e mais como simbologias político-eleitorais, reorganizando alianças locais e influenciando padrões de voto.
O lulismo construiu no Amazonas uma base eleitoral relativamente estável desde meados dos anos 2000, especialmente entre eleitores de baixa renda, beneficiários de políticas de transferência de renda e moradores do interior. Programas como o Bolsa Família exerceram papel central na criação de vínculos políticos duradouros, operando como mecanismo de integração material e simbólica ao Estado nacional. Embora o Partido dos Trabalhadores nunca tenha governado o estado, Lula mantém boas votações em eleições presidenciais, como em 2022, mesmo em contextos de retração do PT em outras regiões.
O bolsonarismo emerge de forma abrupta a partir de 2018, capitalizando o desgaste das elites tradicionais, o antipetismo e a insatisfação com serviços públicos, especialmente nas áreas de segurança e saúde. No Amazonas, encontrou ressonância tanto entre segmentos da classe média urbana de Manaus quanto no interior, mobilizado por redes religiosas e lideranças locais. Diferentemente do lulismo, sua base é mais volátil e dependente de ciclos de mobilização moral e antipolítica.
As eleições de 2022 revelam os limites da nacionalização do voto. Enquanto Lula obteve bom desempenho no plano presidencial, Wilson Lima foi reeleito governador, indicando a coexistência de lógicas eleitorais distintas: uma ideologizada e nacionalizada para a Presidência e outra pragmática e personalista no plano estadual. Assim, lulismo e bolsonarismo estruturam o campo eleitoral, mas não substituem integralmente as dinâmicas locais.
3. Capital, interior e clivagens territoriais
O comportamento eleitoral no Amazonas é marcado pela relação assimétrica entre Manaus e o interior. Municípios interioranos, mais isolados e dependentes do Estado, apresentam menor volatilidade presidencial e maior adesão ao lulismo, com voto menos ideológico e orientado por benefícios concretos.
Manaus, por sua vez, apresenta eleitorado mais heterogêneo e volátil, influenciado por transformações urbanas e por maior exposição às redes sociais. Em Manaus, nos pleitos presidenciais de 2018 e de 2022, houve maior receptividade da capital ao bolsonarismo, especialmente entre segmentos da classe média urbana e eleitores vinculados a igrejas evangélicas. Já as periferias da capital reproduzem padrões semelhantes aos do interior, tornando Manaus um espaço de disputa interna intensa.
Em eleições estaduais, a vitória costuma depender de estratégias híbridas, capazes de combinar desempenho no interior com competitividade urbana. Essa lógica reforça o personalismo político e o papel de prefeitos e lideranças locais como mediadores entre eleitores e projetos políticos estaduais ou nacionais.
4. A disputa de 2026: o grande teste
O cenário eleitoral para a disputa pelo governo do Amazonas se apresenta, neste momento, relativamente estruturado em torno de nomes já conhecidos do eleitorado, mas ainda aberto a rearranjos relevantes à medida que o calendário eleitoral avança.
O nome que desponta como favorito é o do senador Omar Aziz. Com uma trajetória política consolidada no estado, Aziz lidera de forma consistente todos os cenários testados até o momento. Sua força decorre não apenas do reconhecimento público, mas também da capacidade de articulação política, que lhe permite dialogar com partidos de centro e centro-esquerda em torno de uma possível coalizão ampla. Todavia, tal capital político acumulado convive com um desafio relevante: o índice de rejeição relativamente elevado.
Maria do Carmo Seffair (PL) desponta como a principal alternativa no campo do bolsonarismo no Amazonas, beneficiando-se de um eleitorado ideologicamente mobilizado à direita. Empresária e professora, construiu sua trajetória política a partir do engajamento conservador, tendo passado pelo Partido Novo e ganhado projeção ao disputar, em 2024, a vice-prefeitura de Manaus na chapa de Capitão Alberto Neto (PL). Migrou para o PL e confirmou sua pré-candidatura ao governo estadual.
Outro ator relevante na disputa é David Almeida (Avante), atual prefeito de Manaus. Reeleito em 2024, Almeida chega ao cenário estadual com forte projeção urbana e uma base eleitoral expressiva na capital, onde concentra sua principal força política. Sua experiência no Executivo municipal e sua capacidade de mobilização em Manaus o tornam um candidato competitivo.
Com menor densidade eleitoral, está o vice-governador Tadeu de Souza (Avante). Sua viabilidade tende a estar condicionada a rearranjos estratégicos, como eventuais desistências de nomes mais competitivos ou acordos partidários que lhe permitam herdar capital político de maior expressão.
Apesar de favoritos no momento, o cenário eleitoral permanece incerto e aberto a novos atores. A dinâmica da campanha, alianças partidárias e desempenho dos candidatos podem alterar a disputa e gerar surpresas até a definição final do pleito nacional contemporâneo.
5. Possíveis cenários para o Senado
A renovação de duas cadeiras no Senado intensifica a competitividade, fragmenta o voto e amplia a imprevisibilidade. Eduardo Braga destaca-se como candidato consolidado, com projeção nacional, capilaridade no interior e discurso baseado na experiência e em agendas federativas estratégicas.
No campo conservador, o deputado federal Capitão Alberto Neto figura como um dos principais expoentes do bolsonarismo. Seu desempenho eleitoral dependerá da conversão da visibilidade nacional e do engajamento digital em votos efetivos, sobretudo fora de Manaus.
O governador Wilson Lima (União Brasil) também se apresenta como nome competitivo, caso confirme candidatura, com potencial condicionado à avaliação de sua gestão e à formação de alianças. À esquerda, Marcelo Ramos (PT) desponta como principal articulador, com tendência a concentrar o eleitorado progressista.
Nomes como Plínio Valério (PSDB) e Marcos Rotta (Avante) permanecem secundários, mas podem ganhar relevância diante da fragmentação do eleitorado e das articulações políticas.
Conclusões
Assim, é possível dizer que Amazonas atravessa uma transição política prolongada, caracterizada pela ausência de um novo ciclo hegemônico. O arranjo predominante desde a redemocratização – baseado na circulação de elites personalistas, na centralização do Executivo e na mediação federativa – entrou em esgotamento a partir da crise dos anos 2010. Essa ruptura resultou em um cenário de tensão entre elites tradicionais e novas dinâmicas políticas.
Nesse contexto, o lulismo mantém sólida base social, sobretudo em disputas presidenciais, sem se converter em hegemonia estadual. O bolsonarismo afirma-se como polo competitivo, especialmente em áreas urbanas, mas permanece fragmentado e dependente de mobilizações conjunturais. As elites locais seguem influentes, embora limitadas pela crescente nacionalização do debate político.
Destarte, o Amazonas assume papel estratégico para compreender os limites da nacionalização da política e os desafios estruturais da democracia brasileira no plano subnacional.
As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.
¹Breno Rodrigo de Messias Leite é mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Pará (UFPA). É professor-substituto da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: breno-rodrigo@hotmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2372515137865241.
²Rodolfo Silva Marques é doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É professor da Universidade da Amazônia (UNAMA). E-mail: rodolfo.smarques@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2354238224698969.



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