POLARIZAÇÃO NACIONAL, POLÍTICA LOCAL:O ENIGMA AMAZONENSE EM 2026
- NEPOL UFJF

- 15 de jan.
- 8 min de leitura
Breno Rodrigo de Messias Leite¹
Rodolfo Silva Marques²
As eleições gerais de 2026 no Amazonas tendem a ocorrer em um contexto marcado pela reconfiguração das elites políticas estaduais, pela intensificação da polarização ideológica em nível nacional e pela permanência de clivagens socioeconômicas e territoriais historicamente estruturantes do comportamento eleitoral no estado. A compreensão desse contexto requer uma abordagem que ultrapasse a conjuntura imediata, incorporando uma perspectiva histórica e estrutural capaz de explicar padrões de continuidade e dinâmicas de mudança na política amazonense.
Nesse sentido, objetiva-se analisar o cenário político-eleitoral do Amazonas à luz do pleito de 2026, articulando processos de longa duração com elementos mais recentes associados à polarização entre lulismo e bolsonarismo. Parte-se da hipótese de que a disputa eleitoral no estado resulta da interação de dimensões estruturais e conjunturais, mediadas por especificidades regionais que conferem ao Amazonas uma trajetória política singular no interior do federalismo brasileiro.
Inicialmente, examinam-se a formação e a recomposição das elites políticas estaduais no contexto da redemocratização, a partir de meados da década de 1980, identificando mecanismos de acesso, permanência e renovação no poder. Em seguida, analisa-se o grau de competição e enraizamento das principais correntes políticas nacionais no estado, destacando suas particularidades locais. Posteriormente, são abordadas as clivagens socioeconômicas e demográficas que estruturam o comportamento eleitoral, com ênfase na relação entre Manaus e o interior. Por fim, mapeia-se o cenário político às vésperas de 2026 e examinam-se padrões de sustentação e renovação eleitoral.
1. Contexto histórico: os ciclos políticos amazonenses
1.1 Primeiro ciclo: estabilidade, personalismo e circulação interna das elites
A trajetória política recente do Amazonas, desde a redemocratização, caracteriza-se pela centralidade de um conjunto relativamente restrito de lideranças que estruturaram o poder estadual e conformaram um subsistema político marcado pelo personalismo, pela baixa institucionalização partidária e pela forte centralização do Executivo. Gilberto Mestrinho, Amazonino Mendes, Eduardo Braga e Omar Aziz pertencem a distintas gerações dessa elite dirigente, mas compartilham traços estruturais comuns que moldaram a dinâmica política estadual.
Gilberto Mestrinho, falecido em 2009, foi o principal articulador da recomposição do poder político amazonense nos anos 1980. Seu retorno ao governo no pós-regime militar simbolizou a reabilitação das elites regionais e a consolidação de um padrão de governança baseado no controle da máquina administrativa e na construção de extensas redes políticas no interior. Mestrinho governou o estado em três ocasiões e manteve filiação ao PMDB/MDB por quase três décadas.
Amazonino Mendes, falecido em 2023, emergiu como herdeiro e reformulador desse legado. Seu primeiro mandato, ainda nos anos 1980, marcou a transição para um estilo mais pragmático e eleitoralmente agressivo. Com passagem por 12 partidos ao longo da carreira, Amazonino consolidou uma estratégia centrada na forte presença no interior, combinando políticas distributivas e relações diretas com lideranças locais. Governou o Amazonas em 3 mandatos completos e um incompleto, exemplificando a personalização extrema da política estadual.
A ascensão de Eduardo Braga, filiado ao MDB desde 2005, representou uma inflexão parcial. Embora oriundo do mesmo campo político e inicialmente aliado de Amazonino, Braga simbolizou uma geração mais jovem, tecnicamente qualificada e integrada ao debate nacional. Seus governos, durante o ciclo lulista, beneficiaram-se do alinhamento com o Executivo federal, da expansão das políticas sociais e do fortalecimento da Zona Franca de Manaus, sem romper, contudo, com a lógica centralizadora.
Omar Aziz surgiu como continuidade direta desse ciclo. Vice de Eduardo Braga, assumiu o governo em 2010, ainda pelo PMN, e consolidou um modelo de sucessão interna das elites políticas. Seu mandato (2011-2014) caracterizou-se mais pela manutenção dos arranjos do que por inovações substantivas. Aziz migrou para o PSD em 2011. Sua trajetória evidencia um padrão recorrente na política amazonense: a circulação do poder dentro de um mesmo grupo político, com alternância de lideranças, mas sem alterações profundas na estrutura decisória.
1.2. Segundo ciclo: crise, instabilidade e ruptura parcial
A partir da década de 2010, o arranjo político relativamente estável do Amazonas entrou em crise. A combinação entre retração econômica nacional, fragilidades estruturais do Estado e desgaste das elites tradicionais desencadeou um ciclo de instabilidade política e institucional. O governo de José Melo (2014-2017), eleito pelo MDB e herdeiro direto do grupo liderado por Eduardo Braga e Omar Aziz, enfrentou desde o início um contexto adverso, marcado por crise fiscal, queda da arrecadação e progressiva perda de apoio político.
O colapso do sistema penitenciário, simbolizado pelo massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em 2017, evidenciou de forma dramática a incapacidade estatal de exercer controle institucional e territorial. A posterior cassação do mandato de Melo pelo Tribunal Superior Eleitoral representou o esgotamento de um ciclo político assentado na reprodução das elites tradicionais.
O governo tampão de David Almeida (PSD), entre 2017 e 2018, foi relevante para assegurar um patamar mínimo de estabilidade até a realização das eleições suplementares. Nessas eleições, Amazonino Mendes retornou ao governo como liderança experiente, mas seu mandato assumiu caráter transitório e foi marcado por ajuste fiscal, desgaste social e dificuldades na recomposição de uma base parlamentar consistente.
Em 2018, a eleição de Wilson Lima, então filiado ao PSC, representou uma ruptura eleitoral significativa. Sem trajetória política tradicional, Lima capitalizou o sentimento antipolítica e o descrédito das elites históricas. A pandemia de Covid-19 impôs desafios extraordinários à sua gestão, acentuando fragilidades estruturais do sistema de saúde e gerando elevado desgaste político. Ainda assim, Lima preservou sua base e foi reeleito em 2022, pelo União Brasil, evidenciando a complexidade e a incompletude do processo de mudança em curso.
2. Lulismo e bolsonarismo no Amazonas
Nas últimas duas décadas, a política amazonense passou a ser crescentemente influenciada pela nacionalização das disputas eleitorais, ainda mais nos últimos anos, com a polarização entre lulismo e bolsonarismo. Essas duas correntes operam menos como preferências partidárias e mais como simbologias político-eleitorais, reorganizando alianças locais e influenciando padrões de voto.
O lulismo construiu no Amazonas uma base eleitoral relativamente estável desde meados dos anos 2000, especialmente entre eleitores de baixa renda, beneficiários de políticas de transferência de renda e moradores do interior. Programas como o Bolsa Família exerceram papel central na criação de vínculos políticos duradouros, operando como mecanismo de integração material e simbólica ao Estado nacional. Embora o Partido dos Trabalhadores nunca tenha governado o estado, Lula mantém boas votações em eleições presidenciais, como em 2022, mesmo em contextos de retração do PT em outras regiões.
O bolsonarismo emerge de forma abrupta a partir de 2018, capitalizando o desgaste das elites tradicionais, o antipetismo e a insatisfação com serviços públicos, especialmente nas áreas de segurança e saúde. No Amazonas, encontrou ressonância tanto entre segmentos da classe média urbana de Manaus quanto no interior, mobilizado por redes religiosas e lideranças locais. Diferentemente do lulismo, sua base é mais volátil e dependente de ciclos de mobilização moral e antipolítica.
As eleições de 2022 revelam os limites da nacionalização do voto. Enquanto Lula obteve bom desempenho no plano presidencial, Wilson Lima foi reeleito governador, indicando a coexistência de lógicas eleitorais distintas: uma ideologizada e nacionalizada para a Presidência e outra pragmática e personalista no plano estadual. Assim, lulismo e bolsonarismo estruturam o campo eleitoral, mas não substituem integralmente as dinâmicas locais.
3. Capital, interior e clivagens territoriais
O comportamento eleitoral no Amazonas é marcado pela relação assimétrica entre Manaus e o interior. Municípios interioranos, mais isolados e dependentes do Estado, apresentam menor volatilidade presidencial e maior adesão ao lulismo, com voto menos ideológico e orientado por benefícios concretos.
Manaus, por sua vez, apresenta eleitorado mais heterogêneo e volátil, influenciado por transformações urbanas e por maior exposição às redes sociais. Em Manaus, nos pleitos presidenciais de 2018 e de 2022, houve maior receptividade da capital ao bolsonarismo, especialmente entre segmentos da classe média urbana e eleitores vinculados a igrejas evangélicas. Já as periferias da capital reproduzem padrões semelhantes aos do interior, tornando Manaus um espaço de disputa interna intensa.
Em eleições estaduais, a vitória costuma depender de estratégias híbridas, capazes de combinar desempenho no interior com competitividade urbana. Essa lógica reforça o personalismo político e o papel de prefeitos e lideranças locais como mediadores entre eleitores e projetos políticos estaduais ou nacionais.
4. A disputa de 2026: o grande teste
O cenário eleitoral para a disputa pelo governo do Amazonas se apresenta, neste momento, relativamente estruturado em torno de nomes já conhecidos do eleitorado, mas ainda aberto a rearranjos relevantes à medida que o calendário eleitoral avança.
O nome que desponta como favorito é o do senador Omar Aziz. Com uma trajetória política consolidada no estado, Aziz lidera de forma consistente todos os cenários testados até o momento. Sua força decorre não apenas do reconhecimento público, mas também da capacidade de articulação política, que lhe permite dialogar com partidos de centro e centro-esquerda em torno de uma possível coalizão ampla. Todavia, tal capital político acumulado convive com um desafio relevante: o índice de rejeição relativamente elevado.
Maria do Carmo Seffair (PL) desponta como a principal alternativa no campo do bolsonarismo no Amazonas, beneficiando-se de um eleitorado ideologicamente mobilizado à direita. Empresária e professora, construiu sua trajetória política a partir do engajamento conservador, tendo passado pelo Partido Novo e ganhado projeção ao disputar, em 2024, a vice-prefeitura de Manaus na chapa de Capitão Alberto Neto (PL). Migrou para o PL e confirmou sua pré-candidatura ao governo estadual.
Outro ator relevante na disputa é David Almeida (Avante), atual prefeito de Manaus. Reeleito em 2024, Almeida chega ao cenário estadual com forte projeção urbana e uma base eleitoral expressiva na capital, onde concentra sua principal força política. Sua experiência no Executivo municipal e sua capacidade de mobilização em Manaus o tornam um candidato competitivo.
Com menor densidade eleitoral, está o vice-governador Tadeu de Souza (Avante). Sua viabilidade tende a estar condicionada a rearranjos estratégicos, como eventuais desistências de nomes mais competitivos ou acordos partidários que lhe permitam herdar capital político de maior expressão.
Apesar de favoritos no momento, o cenário eleitoral permanece incerto e aberto a novos atores. A dinâmica da campanha, alianças partidárias e desempenho dos candidatos podem alterar a disputa e gerar surpresas até a definição final do pleito nacional contemporâneo.
5. Possíveis cenários para o Senado
A renovação de duas cadeiras no Senado intensifica a competitividade, fragmenta o voto e amplia a imprevisibilidade. Eduardo Braga destaca-se como candidato consolidado, com projeção nacional, capilaridade no interior e discurso baseado na experiência e em agendas federativas estratégicas.
No campo conservador, o deputado federal Capitão Alberto Neto figura como um dos principais expoentes do bolsonarismo. Seu desempenho eleitoral dependerá da conversão da visibilidade nacional e do engajamento digital em votos efetivos, sobretudo fora de Manaus.
O governador Wilson Lima (União Brasil) também se apresenta como nome competitivo, caso confirme candidatura, com potencial condicionado à avaliação de sua gestão e à formação de alianças. À esquerda, Marcelo Ramos (PT) desponta como principal articulador, com tendência a concentrar o eleitorado progressista.
Nomes como Plínio Valério (PSDB) e Marcos Rotta (Avante) permanecem secundários, mas podem ganhar relevância diante da fragmentação do eleitorado e das articulações políticas.
Conclusões
Assim, é possível dizer que Amazonas atravessa uma transição política prolongada, caracterizada pela ausência de um novo ciclo hegemônico. O arranjo predominante desde a redemocratização – baseado na circulação de elites personalistas, na centralização do Executivo e na mediação federativa – entrou em esgotamento a partir da crise dos anos 2010. Essa ruptura resultou em um cenário de tensão entre elites tradicionais e novas dinâmicas políticas.
Nesse contexto, o lulismo mantém sólida base social, sobretudo em disputas presidenciais, sem se converter em hegemonia estadual. O bolsonarismo afirma-se como polo competitivo, especialmente em áreas urbanas, mas permanece fragmentado e dependente de mobilizações conjunturais. As elites locais seguem influentes, embora limitadas pela crescente nacionalização do debate político.
Destarte, o Amazonas assume papel estratégico para compreender os limites da nacionalização da política e os desafios estruturais da democracia brasileira no plano subnacional.
As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.
¹Breno Rodrigo de Messias Leite é mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Pará (UFPA). É professor-substituto da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: breno-rodrigo@hotmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2372515137865241.
²Rodolfo Silva Marques é doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É professor da Universidade da Amazônia (UNAMA). E-mail: rodolfo.smarques@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2354238224698969.



https://keonhacai5.ws/ dạo này thấy mọi người nhắc hoài nên mình cũng bấm vào nghía thử cho biết thôi. Mình không ngồi đọc kỹ hay làm gì nhiều, chủ yếu xem giao diện có dễ nhìn không. Vừa vào là thấy trang sắp xếp khá thoáng, các khối nội dung tách bạch nên lướt xuống không bị rối. Mình thích nhất là cách họ trình bày theo kiểu bảng/cột, nhìn cái là nắm được ý chính, đỡ phải kéo qua kéo lại tìm thông tin. Menu cũng đặt ngay chỗ dễ thấy nên chuyển mục khá nhanh, không phải mò. Nói chung cảm giác dùng ổn, kiểu gọn gàng vừa đủ, đặc biệt là mấy bảng/cột được căn thẳng hàng nhìn…