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EDUARDO RIEDEL, O PSDB FORA DO GOVERNO DO MATO GROSSO DO SUL E O FIM DA ALIANÇA COM O PT

Déborah Monte



Em 2022, Eduardo Riedel foi eleito governador de Mato Grosso do Sul pelo PSDB um dos três estados conquistados pela sigla que outrora governou o país e protagonizou a disputa pelo Executivo Federal durante duas décadas. Ascendeu na política estadual como um representante da direita moderada e ambientalmente engajado. O sucesso nas urnas em 2022 veio após seis anos como secretário estadual de Governo e Gestão Estratégica e de Estado de Infraestrutura, durante os dois mandatos do ex-tucano, recém-filiado ao PL, Reinaldo Azambuja. Além disso, Riedel cultivou boas relações com o PT estadual e com o governo federal nos primeiros anos de governo. 


Em agosto de 2025, entretanto, Riedel trocou a sigla pelo PP, deixando o PSDB sem nenhum governador. Seguindo Raquel Lyra e Eduardo Leite, que deixaram a sigla em direção ao PSD no primeiro semestre, o movimento de Riedel é mais um sinal do enfraquecimento tucano no estado e no Brasil. 


Apesar da crise nacional, a eleição de Riedel pelo PSDB em 2022 fortaleceu o partido na política sul-mato-grossense. No pleito de 2024, o PSDB elegeu 44 das 79 prefeituras, reafirmando-se assim como a maior força política no interior do estado. No entanto, espera-se que parte dos prefeitos de sua base siga os passos de Riedel e migre para o PP ou para outros partidos da direita bolsonarista, como o PL, atual partido do ex-governador e aliado de Riedel, Azambuja.



O jogo eleitoral de 2022 e a aliança com o PT


A eleição de Riedel em 2022 teve, no segundo turno, apoio do PT contra o Capitão Contar (PRTB), um bolsonarista mais vocal e inflamado. Entre 2023 e agosto de 2025, o Partido dos Trabalhadores compôs a base de Riedel na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALMS) e ocupou cargos no Executivo estadual. Apesar da pequena bancada, com apenas três deputados estaduais, essa aliança azeitou a coordenação política entre o governo do estado, o PT e o governo federal.


Para exemplificar esse elo, Riedel acompanhou Lula em visitas ao estado e elogiou o presidente em relação ao pragmatismo na destinação de recursos para o programa “Minha Casa, Minha Vida”. Chegou a ser congratulado pela ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva (Rede), pelas ações de cooperação com o governo federal para mitigar incêndios na região do Pantanal.


A conexão de Eduardo Riedel com a ministra do Planejamento e Orçamento, e ex-senadora por Mato Grosso do Sul, Simone Tebet (MDB), foi o principal elo na amistosa relação estabelecida com o governo Lula até meados de 2025. Como resultado, destacam-se as parcerias entre governo estadual e federal em obras de infraestrutura e investimentos em saúde e habitação. Contudo, o futuro eleitoral de Tebet segue incerto e há dúvidas sobre uma possível candidatura ao Senado por Mato Grosso do Sul ou pelo estado de São Paulo. Apesar das indefinições, a ministra informou que, independentemente do desfecho, estará no palanque de Lula em 2026 e tomará a decisão política que considerar mais favorável ao fortalecimento da campanha presidencial do petista.


Embora tenha havido aproximações de Riedel com Lula anteriormente, esta relação nunca foi ideológica. Foi iniciada na disputa eleitoral do segundo turno de 2022 e possibilitada pela presença de Tebet  um nome de centro-direita  no governo federal. Vale notar que Riedel buscava equilibrar sua relativa proximidade com o PT e seu vínculo com a direita bolsonarista. Como exemplo, destacam-se os acenos feitos a Bolsonaro, com críticas explícitas à prisão domiciliar do ex-presidente e pedidos de anistia para os envolvidos no episódio de 8 de janeiro de 2023.


Em resposta a tais movimentos, o deputado federal e presidente estadual do PT, Vander Loubet anunciou, em agosto de 2025, o desembarque do partido da base do governo e a entrega dos 25 cargos ocupados por aliados no Executivo estadual. Referindo-se a Riedel, Loubet explicou que a decisão foi motivada pela escolha do grupo político do governador de se aliar àqueles que o PT ajudou a derrotar nas urnas, o que impossibilitava a manutenção da aliança.


Ademais, o esposo de Tebet, Eduardo Rocha (MDB), que exercia o cargo de secretário da Casa Civil, pediu exoneração em outubro de 2025. A justificativa oficial foi de que a saída do governo ocorreu por razões eleitorais, já que Eduardo Rocha pretende se candidatar ao legislativo federal pelo MDB. Considerando a antecedência em relação aos prazos de desincompatibilização, esse movimento é mais um indício de que a aliança entre os governos estadual e federal  sustentada pela relação próxima com Tebet  chegou ao fim. Todos esses eventos compõem um cenário complexo e colocam na mesa algumas cartas para o pleito que se aproxima.



Cenários para as eleições de 2026


Eduardo Riedel é pré-candidato à reeleição e chega ao final de 2025 bem-avaliado por seu mandato. Em pesquisa de opinião realizada no estado em novembro de 2025, pela Ranking Inteligência, 63% dos entrevistados aprovam seu governo, 30% desaprovam e 7% não sabem ou não responderam (Gráfico 1). Ainda na mesma pesquisa (Gráfico 2), 50% avaliam a administração estadual como ótima ou boa, 20% como regular, 23% como ruim ou péssima e 7% não sabem ou não responderam. Apesar destas boas marcas, a série temporal mostra um pequeno recuo na aprovação do governo Riedel nos seis últimos meses.



Gráfico 1 - Aprovação de Eduardo Riedel em Mato Grosso do Sul (mar/2025 - nov/2025)

Fonte: Elaboração da autora com dados de Ranking Inteligência (2025).
Fonte: Elaboração da autora com dados de Ranking Inteligência (2025).


Gráfico 2 - Avaliação do governo de Eduardo Riedel em Mato Grosso do Sul (mar/2025 - nov/2025)

Fonte: Elaboração da autora com dados de Ranking Inteligência (2025).
Fonte: Elaboração da autora com dados de Ranking Inteligência (2025).

Pelo menos dois cenários eleitorais se desenham de acordo com as sondagens divulgadas pelo Real Time Big Data realizadas em setembro de 2025. No primeiro deles (Gráfico 3), Riedel (PP) lidera as intenções de voto, seguido por Capitão Contar (PRTB) e Fábio Trad (PT).



Gráfico 3 - Intenção de voto para governador de Mato Grosso do Sul no cenário estimulado 1 (set/2025)

Fonte: Pesquisa estimulada do Real Time Big Data (2025).
Fonte: Pesquisa estimulada do Real Time Big Data (2025).

No segundo cenário, Fábio Trad (PT) surge como o principal nome de oposição à esquerda entre os três mais bem colocados. Ex-deputado federal pelo PSD, Trad se filiou ao PT em agosto de 2025 e vem de uma família tradicional na política sul-mato-grossense, sobretudo na capital Campo Grande. Fábio é filho do ex-deputado federal trabalhista e preso político da ditadura militar, Nelson Trad. Também é irmão do senador Nelsinho Trad (PSD) e do ex-prefeito de Campo Grande, Marquinhos Trad (PDT). Fábio Trad é o mais progressista do clã e sua decisão de se filiar ao PT foi criticada por Nelsinho Trad, que afirmou que a mudança o distanciaria do campo político que o lançou.


O principal desafiante de Riedel, neste momento, é Capitão Contar (PRTB). Militar do Exército e ex-deputado estadual, ele surge como pré-candidato da direita radical e bolsonarista no estado. Em 2022, Contar ganhou notoriedade quando foi o mais votado no primeiro turno e, em seguida, perdeu no segundo turno para o atual governador por uma margem pequena. Vale destacar que durante o último debate presidencial televisionado em 2022, Bolsonaro pediu votos explicitamente para Contar. Sua ligação com o bolsonarismo à época foi evidente: questionou as vacinas, atacou o STF, criticou os movimentos indígenas no estado e a área da educação por ser – supostamente – ideologizada à esquerda.


Entretanto, a disputa também deve ser analisada levando em consideração a possível ausência do Capitão Contar no pleito. Isso pode ocorrer em função do ingresso de Riedel nos quadros do PP com a bênção da senadora e ex-ministra de Bolsonaro, Tereza Cristina (PP), para evitar dividir os votos à direita. É importante frisar que Tereza Cristina é o nome ao qual os políticos da direita no estado querem se alinhar, sobretudo devido à sua importância para o agronegócio e pelo trabalho em prol do setor durante sua atuação no Ministério da Agricultura, no governo Bolsonaro. A possível ausência de Contar nas urnas tem potencial para ampliar a vantagem de Riedel em relação a Fábio Trad. Destaca-se, também, que a rejeição de Fábio Trad é de 33%, número significativamente maior do que o de Eduardo Riedel, de 28%. Isto indica que Riedel tem mais espaço para crescer em comparação a Trad. Além disso, também tem mais aceitação que Contar, que soma 30%. 



Gráfico 4 - Intenção de voto para governador de Mato Grosso do Sul no cenário estimulado 2 (set/2025)

Fonte: Pesquisa estimulada do Real Time Big Data (2025).
Fonte: Pesquisa estimulada do Real Time Big Data (2025).

Mato Grosso do Sul segue majoritariamente conservador e crítico ao governo Lula. Prova disso é o fato de que o PT, bem como outros partidos de esquerda, não conquistou nenhuma cidade do estado em 2024. Além disso, segundo a Ranking Inteligência, o presidente é desaprovado por 51% da população do estado, de acordo com o levantamento realizado em novembro de 2025. Ainda na mesma pesquisa, 36% dos entrevistados avaliam seu governo como ruim ou péssimo, 27% como regular e 34% como ótimo ou bom.


Em suma, a entrada de Riedel no PP consolida sua posição junto à direita bolsonarista e sua parceria com a senadora Tereza Cristina. Tal movimento tem potencial para desmobilizar a candidatura do Capitão Contar (PRTB), colocando Riedel como o candidato deste campo político no estado. Além disso, fez com que PT e MDB, articulados em torno da ministra Simone Tebet, rompessem sua aliança com o governo do estado.


Por fim, também vale notar como as dinâmicas nacionais têm sido absorvidas e de que modo a busca por um presidenciável à direita movimenta a política estadual. Recentemente, Riedel lamentou, através de nota, a prisão preventiva de Bolsonaro por risco de fuga e ameaça à ordem pública. Também tem buscado aproximação com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, considerado nome forte para a disputa presidencial. De modo semelhante ao que acontece com outros governadores ligados ao flanco da direita, Riedel tenta se equilibrar entre a proximidade com Bolsonaro e a busca por um nome competitivo entre os possíveis candidatos. 




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As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.



Déborah Monte é professora da Universidade Federal da Grande Dourados, no curso de graduação em Relações Internacionais e no Programa de Pós-Graduação em Fronteiras e Direitos Humanos (PPFDH).

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