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A PROCURA DO PALANQUE PERFEITO: CENÁRIOS E PROGNÓSTICOS POLÍTICOS PARA MINAS GERAIS NAS ELEIÇÕES DE 2026

Thiago Silame



A polarização política deverá marcar as eleições de 2026 tal como ocorreu em 2018 e 2022. Este fenômeno acontece em função da centralidade das principais lideranças à frente dos projetos em disputa. De um lado, estará Lula (PT), candidato à reeleição pelo campo progressista. Do outro lado, há uma disputa para saber quem será o representante do bolsonarismo.


Os governadores Romeu Zema (NOVO), de Minas Gerais, Ronaldo Caiado (UNIÃO), de Goiás, Ratinho Jr. (PSD), do Paraná, e Tarcísio de Freitas (REPUBLICANOS), de São Paulo, juntamente com o senador Flávio Bolsonaro (PL) e Michelle Bolsonaro (PL), pleiteiam a “unção” de Jair Bolsonaro (PL) para disputar a Presidência da República pelo campo da direita, uma vez que o ex-presidente está inelegível e condenado por tentativa de golpe de estado e abolição violenta do Estado de Direito. Contudo, é inegável a importância de Bolsonaro, enquanto líder carismático, capaz de conferir peso e lastro às candidaturas associadas ao seu nome. 


Penso que a candidatura mais viável deste campo seja a do governador paulista, mas nada impede que outras se apresentem no primeiro turno do pleito, uma vez que no segundo alianças podem ser costuradas em torno do candidato mais votado da direita. 

As eleições de 2026 podem significar a consolidação no poder de um projeto de defesa das instituições democráticas que se contrapôs à ascensão de uma agenda política de caráter autocrático, conservador e autoritário. Em 2022, a chamada Frente Ampla, representada pela candidatura de Lula (PT), ganhou por uma pequena margem de votos (0,40%). Um dos fatores centrais para esta vitória foi o desempenho em Minas Gerais, a despeito da derrota na capital do estado. Em Belo Horizonte, Bolsonaro recebeu 54,25% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,25%.


Muitos analistas apontam que vencer em Minas Gerais é fundamental para vencer no Brasil. Dois aspectos embasam esta afirmação. O primeiro deles é o tamanho do eleitorado do estado. Segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), o estado é o segundo maior colégio eleitoral do país. Os votos dos mineiros e mineiras correspondem a 10,56% do eleitorado brasileiro. O outro aspecto diz respeito à heterogeneidade do estado, que reflete, em boa medida, a diversidade do eleitorado nacional. A disputa em Minas Gerais reúne elementos que permitem caracterizá-la como uma espécie de microcosmo do Brasil. A estrutura social, demográfica e cultural do estado espelha a de outras regiões do país. Vale notar que, desde a redemocratização, todos os presidentes eleitos venceram no estado. O Gráfico 1 mostra a semelhança de comportamento entre as curvas de votação quando se considera o desempenho no Brasil e no estado.


Gráfico 1 – Votação do candidato(a) eleito (a) presidente no Brasil e em Minas Gerais (2002-2022)

 Fonte: Congresso em Foco (2025).
 Fonte: Congresso em Foco (2025).

Considerando a polarização política e a relevância histórica do estado na votação dos presidentes vitoriosos, o pleito de 2026 promete ser um dos mais acirrados, pois além do cargo presidencial em disputa, as eleições para o Senado e para o próprio governo do estado podem impactar de forma muito decisiva a correlação de forças em torno do petismo/lulismo e do bolsonarismo. O certo é que essas duas forças devem se organizar em busca do “palanque perfeito” levando em consideração essas outras duas arenas. Evidentemente, não se pode desconsiderar as eleições para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).


Tentar fazer alguns prognósticos acerca das eleições que se aproximam é tarefa necessária, entretanto muito difícil, uma vez que nomes de possíveis candidatos e candidatas aventados neste ensaio podem não se concretizar como candidaturas efetivas Ainda assim, a análise aqui apresentada se baseia em pesquisas de opinião* e de informações veiculadas pela cobertura jornalística.


Em agosto, Zema lançou sua pré-candidatura à Presidência da República. Pesquisa realizada pela Quaest mostra que entre os mineiros o governador apresenta o melhor índice de potencial de voto. Zema tem 54%, enquanto o de Lula é de 38%. Ele também lidera entre os demais candidatos da direita, como se pode ver no Gráfico 2. Ademais, segundo os entrevistados em Minas Gerais, Zema venceria Lula em um eventual segundo turno, conforme pode ser observado no Gráfico 3. 


Contudo, seu nome enfrenta dificuldade em se nacionalizar, apesar de seu bom potencial de votos para presidente no estado. Vale notar que o governador mineiro também pode ser um bom nome para vice em diferentes composições com outros nomes do flanco bolsonarista. Outra dificuldade da candidatura Zema, que se observa nos dados coletados pela Quaest, é que 49% dos entrevistados não querem ver o governador como candidato a presidente, frente a 47% que responderam positivamente à questão.



Gráfico 2 – Índice potencial de voto (ago/2025)

Fonte: Genial/Quaest (2025).
Fonte: Genial/Quaest (2025).


Gráfico 3 – Intenção de voto para presidente no segundo turno nas eleições de 2026 (ago/2025)

Fonte: Genial/Quaest (2025).
Fonte: Genial/Quaest (2025).


Eleições para governador: Zema fará o seu sucessor?


Para a disputa ao governo do estado, tudo indica que o candidato da situação será o atual vice-governador, Mateus Simões, que recentemente trocou o Partido Novo pelo PSD. A despeito da alta aprovação e da avaliação positiva do governo de Romeu Zema pelos mineiros (Gráfico 4 e 5), as eleições devem testar a capacidade de transferência de voto do governador para um político de perfil tecnocrático e pouco conhecido da maioria do eleitorado. Em agosto, Simões tinha apenas 4% das intenções de voto, conforme pode ser visto no Gráfico 6. Além disso, 48% dos entrevistados entendem que Zema não merece eleger seu sucessor, enquanto 46% acreditam que ele tem condições de fazê-lo.



Gráfico 4 – Aprovação do Governo Zema (ago/2025)

Fonte: Genial/Quaest (2025).
Fonte: Genial/Quaest (2025).


Gráfico 5 – Avaliação do Governo Zema (ago/2025).

Fonte: Genial/Quaest (2025).
Fonte: Genial/Quaest (2025).


Outro nome cogitado pelo campo da direita para o cargo de governador é do senador Cleitinho (Republicanos). Ele está melhor posicionado na pesquisa de intenção de voto, mas há uma pressão para que ele abdique da candidatura e seja o vice na chapa de Simões. Além disso, recai sobre Cleitinho o peso da proximidade política com o deputado federal mineiro Euclydes Pettersen (Republicanos), postulante ao cargo de senador, atualmente investigado no esquema de fraudes do INSS. 

 



Gráfico 6 – Intenção de voto para governador 2026 (ago/2025)

Fonte: Genial/Quaest (2025).
Fonte: Genial/Quaest (2025).

As evidências disponíveis sugerem que a estratégia da direita para a disputa do governo de Minas Gerais seria a constituição de uma chapa única em torno de um projeto vinculado ao bolsonarismo. Este movimento abriria espaço para a montagem de um palanque para o provável candidato à presidência que representará este campo.


No campo da esquerda, Lula desejava viabilizar o nome do senador Rodrigo Pacheco (PSD) na disputa pelo Executivo estadual. Pacheco priorizava a possibilidade de indicação para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), contando, inclusive, com o apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil). Apesar disso, Lula indicou para o cargo o advogado-geral da União, Jorge Messias. 


Diante deste cenário, Pacheco passou a cogitar o encerramento de sua carreira política. Isto obrigaria Lula a procurar outro candidato à esquerda para viabilizar um palanque forte em Minas Gerais. A candidatura de Pacheco contaria com dificuldades dentro do PSD, uma vez que Simões, recém-filiado ao mesmo partido, pleiteia a vaga de sucessor natural de Zema. Outra dificuldade à candidatura de Pacheco é a inclinação de Gilberto Kassab, líder do PSD, a apoiar o bolsonarismo. A candidatura de Simões é declaradamente anti-petista. Portanto, uma candidatura de Pacheco teria que ocorrer por outro partido.


Com a inviabilização de Pacheco, tudo indica que o “plano B” seja o do ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, recentemente filiado ao Partido Democrático Trabalhista (PDT). Kalil obteve boa aprovação como prefeito da capital e foi reeleito em primeiro turno nas eleições de 2020. Contudo, o ex-presidente do Atlético Mineiro não foi capaz de fazer frente a Zema na disputa ao governo do estado em 2022. O governador foi reeleito em primeiro turno com aproximadamente 59% dos votos válidos. Os dados da pesquisa Genial/Quaest mostram Kalil com 16% das intenções de voto, um bom ponto de partida.


Eleições para o Senado


A disputa para o Senado também terá grande relevância no contexto de polarização que se desenha. Na eleição de 2026, duas cadeiras estarão em disputa nos estados. Os partidos da direita, sobretudo o Partido Liberal (PL), principal partido da oposição, têm mencionado abertamente que uma das estratégias do campo é tentar eleger o maior número possível de senadores. Vale lembrar que o Senado Federal tem sido uma casa em que o governo consegue, em alguma medida, estabelecer diálogo e proteger parte de suas agendas, ao contrário do que ocorre na Câmara dos Deputados. 


Outro ponto importante que envolve a correlação de forças representadas no Senado Federal, diz respeito à relação do Poder Legislativo com o Poder Judiciário. No contexto da tentativa de golpe e da abolição do Estado de Direito, o STF se colocou como um anteparo importante para salvaguardar as instituições democráticas. Os envolvidos nos eventos que culminaram no 8 de janeiro de 2023 vêm sendo processados e julgados pelo STF. 


Os parlamentares vinculados à extrema direita, por sua vez, sustentam a narrativa de que existe um excessivo ativismo judicial e politização do STF e  de que eles são alvo dee perseguição do judiciário. A partir desta leitura, consolidou-se nesse campo político, a estratégia declarada de ampliar a sua representação no Senado Federal com o objetivo de viabilizar a abertura de processos de impeachment contra ministros do STF. 

A crise institucional, portanto, está colocada. Na semana da redação deste texto, o ministro Gilmar Mendes decidiu, de forma monocrática, que apenas o procurador-geral da República poderia dar inicío a processos de impeachment contra ministros do STF, além de estabelecer quórum qualificado para abertura do processo e para a votação. A decisão foi interpretada como uma clara tentativa de blindagem do STF diante de uma possível recomposição desfavorável no Senado após as eleições de 2026. 


Diante deste cenário, o Legislativo passou a ser pressionado a revisar a legislação vigente sobre o impeachment, regulamentada pela Lei Nº 1.079, em vigor desde 1950. Após as reações políticas e institucionais, Mendes suspendeu parcialmente a liminar e voltou a permitir que qualquer cidadão e cidadã possa protocolar pedidos de impeachment de autoridades.


Em Minas Gerais, encerram-se, em 2026, os mandatos dos senadores Rodrigo Pacheco e Carlos Viana (PODEMOS). Despontam como possíveis candidatos da direita os nomes de Carlos Viana, Eduardo Costa (CIDADANIA), Marcelo Aro (PP), Eros Biondini (PL), Domingos Sávio (PL), Cristiano Caporezzo (PL) e Euclydes Pettersen (Republicanos).

Carlos Viana, por disputar a reeleição, tende a ter algum favoritismo, sobretudo em razão de sua superexposição na mídia, decorrente de sua atuação como presidente da CPMI do INSS. Um aspecto interessante desse cenário é a multiplicidade de postulantes dentro do PL. Recentemente, o nome do deputado federal Domingos Sávio vem ganhando força. A candidatura de Euclydes Pettersen pode ter sido inviabilizada em razão das investigações relacionadas às irregularidades no INSS.


Os candidatos ao Senado que poderiam oferecer um palanque a Lula em 2026 são o atual ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), a atual prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), e a ex-deputada federal Áurea Carolina (PSOL). Chama a atenção o peso de Lula e Bolsonaro como cabos eleitorais para a disputa ao Senado, conforme pode ser observado no Gráfico 7. Entre os respondentes, 29% afirmaram que votariam em um candidato indicado por Lula tanto para a primeira quanto para a segunda vaga. Bolsonaro, ao seu turno, influencia 26% das indicações para a primeira vaga e 25% para a segunda. 


Sobram nomes à direita do espectro político enquanto, no campo da esquerda,o leque de opções é menor. Os dados disponíveis no Gráfico 8 indicam que as candidaturas de Carlos Viana e Marília Campos são as favoritas neste momento, sobretudo quando se considera a lógica de primeira e segunda vagas. Considerando o momento em que a pesquisa foi realizada, ainda há um contingente expressivo de eleitores indecisos. A definição dos nomes que efetivamente disputarão as vagas será decisiva para ampliar o grau de conhecimento do eleitorado. Uma estratégia que pode ser potencialmente exitosa é a formação das chamadas “dobradinhas” - isto é, quando dois candidatos fazem campanha de forma conjunta.



Gráfico 7 - Intenção de voto para o Senado nas eleições de 2026 (ago/2025)

Fonte: Genial/Quaest (2025).
Fonte: Genial/Quaest (2025).

Gráfico 8 – Você votaria em um candidato indicado por

Fonte: Genial/Quaest (2025).
Fonte: Genial/Quaest (2025).

A incerteza das eleições proporcionais


No que se refere às eleições proporcionais - tanto para Câmara dos Deputados quanto para as Assembleias Legislativas -, observa-se que elas foram impactadas pelo efeito de arraste das candidaturas de Bolsonaro em 2018 e 2022. Não é por acaso que o PSL, em 2018, e o PL, em 2022, elegeram as maiores bancadas na Câmara dos Deputados. Além disso, é expressiva a presença de parlamentares oriundos das forças de segurança e de grupos religiosos, sobretudo denominações evangélicas. 


Para 2026, é difícil prever se as bancadas dos partidos da direita (Centrão) e da extrema direita manterão os bons desempenhos das eleições anteriores. Ainda assim, alguns fatores indicam que esses grupos podem preservar patamares de votação semelhantes aos dos pleitos passados. Entre eles, destacam-se campanhas que seguem mobilizando a polarização política, o reforço de pautas morais e, sobretudo, o impacto das emendas parlamentares sobre as bases eleitorais dos deputados que disputarão a reeleição. Nesse sentido, a correlação de forças na Câmara dos Deputados tende a permanecer próxima à configuração atual. 


Considerando as eleições para o governo do estado e para o Senado, o palanque se mostra, neste momento, mais fácil de ser montado para a candidatura do campo do bolsonarismo, em razão da quantidade de nomes disponíveis. Contudo, a indefinição e a demora na escolha dos nomes que vão representar a direita nas urnas podem comprometer suas pretensões. À esquerda, a indefinição de uma candidatura consolidada ao governo do estado, capaz de oferecer um bom palanque à campanha de Lula, parece ser o grande desafio até o momento. 


Por ora, as elites políticas nacionais e estaduais seguem à procura do “palanque perfeito”, cientes de que vencer em Minas Gerais pode significar - até aqui - ganhar no Brasil.



*****


O autor agradece a Felipe Nunes, CEO da QUAEST Pesquisa, que gentilmente cedeu o Relatório de Pesquisa sobre Minas Gerais realizada em agosto de 2025. O presente texto fará menção a alguns dados do relatório assim como irá reproduzir alguns gráficos com a citação à devida fonte



*****


As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.





Thiago Silame é professor da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL) e do Mestrado Profissional em Administração Pública (PROFIAP). Pesquisador do Centro de Estudos Legislativos da UFMG (CEL-DCP).





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