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SOBRAM PRÉ-CANDIDATOS GOVERNISTAS NA ELEIÇÃO PARA GOVERNADOR DO PARANÁ EM 2026, POR ENQUANTO

Emerson Cervi



A última eleição para o governo do Paraná sem um candidato à reeleição ocorreu em 2018, quando Beto Richa (PSDB) deixou o cargo para disputar o Senado. Naquele ano, os dois principais concorrentes à sucessão saíram do próprio governo Richa: o então secretário das Cidades, Ratinho Júnior (PSD) — eleito no primeiro turno com 59% dos votos — e a vice-governadora Cida Borgetti (PP), que ficou em segundo, com 15%. A oposição apareceu apenas em terceiro lugar com João Arruda (MDB), que obteve 13%, seguido de Doutor Rosinha (PT), com 8%.


Agora, em 2026, o cenário pré-eleitoral reproduz algumas características de 2018, com um número excessivo de pré-candidatos ‘governistas’ que querem se apresentar como continuidade da atual gestão. Mas, há também diferenças. A primeira delas é a possível presença de um ex-outsider da política tradicional: o senador Sergio Moro (União). Ele não é mais outsider, por exercer a função de senador, mas, ao mesmo tempo, não consegue se apresentar como líder de um grupo político orgânico. A segunda diferença é a chance reduzida — menor que em 2018 — de um dos pré-candidatos possuir capital eleitoral suficiente para vencer no primeiro turno. Ainda é cedo para prognósticos e o cenário pré-eleitoral é bastante volátil, mas, os pretendentes próximos ao governo atual já estão articulados em busca de apoio e, principalmente, da “benção” do atual governador. 


Entre os pretendentes oficialistas aparecem dois secretários de Estado: Guto Silva (PSD) e Rafael Greca (PSD), além do presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, deputado Alexandre Curi (PSD). Há, também, o pré-candidato independente Sergio Moro (União), que até agora não demonstrou intenção de usar o discurso anticorrupção contra o governo Ratinho. E, o principal pré-candidato de oposição, até o momento, é o deputado estadual Requião Filho (PDT), que pretende costurar uma coligação que incluirá o PT, PSB e outros partidos menores de esquerda.



O mais confiável



O primeiro pré-candidato oficialista na preferência do governador Ratinho Júnior é o atual Secretário das Cidades, Guto Silva (PSD). O problema é que Silva apresenta o menor potencial de votos para uma eleição majoritária. Sua principal vantagem, contudo, é ser o único dos três concorrentes que surgiu do próprio grupo político do governador. O problema é que ele ainda não empolgou o eleitorado, apesar de estar em uma Secretaria de Estado estratégica, responsável por políticas públicas vinculadas aos municípios e ter contato permanente com prefeitos de municípios do interior. Até aqui, não conseguiu avançar na indicação de interesse dos eleitores, quando perguntados sobre possíveis candidatos no próximo ano. 


Guto Silva começou a carreira política como vereador em 2008 pelo DEM no município de Pato Branco, sudoeste do Paraná. Foi eleito deputado estadual em 2014 pelo PSC e reeleito em 2018 pelo PSD. Em 2022 ele se apresentou como pré-candidato ao Senado, mas recuou para coordenar a campanha de reeleição de Ratinho Júnior. Logo no início do primeiro governo Ratinho foi nomeado para a chefia da Casa Civil, do governo, onde ficou até 2022, quando mudou de secretaria, para a Secretaria das Cidades do Paraná. Guto Silva foi candidato pelo PSC quando Ratinho Júnior comandava o partido no Paraná e migrou para o PSD junto com o grupo do governador. Essa trajetória o torna o pré-candidato mais próximo e de maior confiança do governador.



O estranho no ninho



O outro secretário de Estado pré-candidato a governador é o oposto do anterior: possui uma trajetória política de quase meio século e capital eleitoral independente de Ratinho Júnior. Trata-se do ex-prefeito, ex-deputado, ex-secretário de Estado e ex-ministro Rafael Greca (PSD), que assumiu a Secretaria do Desenvolvimento Sustentável no início de 2025, logo após concluir seu terceiro mandato como prefeito de Curitiba. 

Greca aproximou-se de Ratinho Júnior principalmente em sua última gestão como prefeito de Curitiba, para formar a coligação que apoiou o então vice-prefeito, Eduardo Pimentel, à sucessão na prefeitura, em 2024. Impulsionado por índices de aprovação que chegaram a 70% (Paraná Pesquisas, maio/2024), Greca passou a se apresentar como alternativa para a disputa majoritária em 2026. 


A região metropolitana de Curitiba, onde se concentra o capital eleitoral de Greca representa cerca de 20% do eleitorado estadual No entanto, até aqui Greca não recebeu manifestação explícita de apoio do governador Ratinho Júnior. O atual Secretário do Desenvolvimento Sustentável começou sua carreira política como vereador de Curitiba em 1982, pelo então PDS. Em 1986 elegeu-se deputado estadual pelo PDT. Greca começou a carreira política integrando o grupo de Jaime Lerner, que no início dos anos 1980, filiou-se ao PDT por indicação de Leonel Brizola. Em 1992, Greca foi eleito pela primeira vez prefeito de Curitiba, pelo PDT, dando continuidade à gestão de Jaime Lerner. Dois anos depois, o então ex-prefeito Lerner foi eleito governador do Paraná e Greca sonha em refazer os passos de seu padrinho político. Ao terminar a primeira gestão à frente da prefeitura, e sem possibilidade de reeleição, Greca elegeu-se deputado federal em 1998 pelo PFL, partido ao qual filiou-se junto com Lerner, um ano antes. 


Ainda pelo PFL, em 2002, ele foi eleito deputado estadual. Curiosamente, naquele ano em que Greca completava duas décadas de vida pública, Ratinho Júnior, com apenas 21 anos de idade, fora eleito pela primeira vez deputado estadual. Após esse mandato, Greca sofreu derrotas e ficou mais de uma década sem cargo eletivo. O retorno ocorreu em 2016, quando se elegeu prefeito de Curitiba pela segunda vez, pelo nanico PMN. Em 2020, com uma atuação responsável no combate à pandemia de Covid-19, conseguiu ser reeleito em primeiro turno para o terceiro mandato de prefeito, já filiado ao União. Durante a gestão migrou para o PSD a convite de Ratinho Júnior. Agora, Greca espera outro convite do governador, mas, ciente de que isso é pouco provável, busca alternativas: uma nova troca de partido pode acontecer no início de 2026.



O representante da tradição 



O atual presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Alexandre Curi (PSD), é outro pré-candidato a governador do Paraná. O perfil de Curi o coloca no meio do caminho entre os dois anteriores. Neto de Anibal Khury — uma das principais lideranças políticas regionais do final do século XX —, o deputado Alexandre carrega a tradição no seu perfil e na forma de fazer política, o que o distancia do grupo de Ratinho. 


No entanto, o atual presidente da Assembleia e o governador têm praticamente a mesma idade. Os dois estrearam na política eleitoral no mesmo ano: em 2002 ambos foram eleitos deputados estaduais, Alexandre Curi pelo então PMDB e Ratinho Júnior pelo PSB. Desde então, eles nunca deixaram de ocupar cargos eletivos. Curi sempre foi uma promessa da política tradicional do Paraná para chegar ao governo do Estado, mas, seguiu por 20 anos reelegendo-se deputado estadual. Entre 2002 e 2014 foi deputado estadual pelo então PMDB, em 2018 trocou de partido e elegeu-se pelo PSB. Na mais recente eleição, em 2022, ele já integrava o PSD, partido de Ratinho Júnior, posicionando-se como opção à sucessão pelo grupo governista. 


A demora de Curi em se lançar ao governo deve-se ao seu envolvimento no escândalo de desvio de recursos na Assembleia Legislativa, em 2010, conhecido como 'Diários Secretos'. Na época, Curi estava em seu segundo mandato e ocupava o cargo de primeiro-secretário da mesa executiva, o que o tornava responsável pelos atos de despesas do poder legislativo. O esquema, revelado pela imprensa regional, envolvia a nomeação de funcionários fantasmas e o desvio de verbas. Ao todo, o Ministério Público Estadual abriu 42 processos, resultando na condenação de servidores por desvios estimados em R$ 250 milhões à época. O caso gerou forte desgaste político para o presidente da Assembleia e para o primeiro-secretário, que, só agora, quinze anos depois, com as ações judiciais extintas, consegue articular uma pré-candidatura a governador. 


Por ser herdeiro de um capital político tradicional, Curi, faz política como seu avô: a partir de prefeitos e lideranças políticas locais. Essa forma de fazer política dá autonomia a Curi em relação ao grupo de Ratinho. Ao assumir a presidência da Assembleia Legislativa do Paraná, em fevereiro de 2025, Curi conseguiu reunir 300 prefeitos dos 399 municípios do estado na cerimônia de posse. O número impressionou até o próprio governador, que nunca tinha conseguido tal feito, embora mais da metade das prefeituras do Estado seja administrada por prefeito filiado ao PSD. A tradição política de Curi é o que sustenta sua pré-candidatura ao governo, mas, ao mesmo tempo, gera insegurança sobre o futuro do grupo político mais genuinamente ligado a Ratinho Júnior.



O ex-outsider



Outro pré-candidato ao governo do Paraná é o senador Sergio Moro (União), que lidera as pesquisas de intenção de voto até aqui. Ele é o concorrente com a carreira política mais curta: ex-juiz e ex-ministro da justiça do governo Bolsonaro (cargo que ocupou até 2020) e só disputou apenas uma eleição majoritária, a de senador em 2022. 


O problema é que Moro espera contar com, pelo menos, um apoio “branco” de Ratinho Júnior. Em política, apoio branco é quando o governador não declara apoio direto e apresenta uma candidatura pouco viável eleitoralmente para facilitar a vitória do concorrente mais forte. Essa é uma das possibilidades, que só será conhecida no curso da campanha. Moro precisa de um candidato governista fraco por dois motivos. O primeiro é que ele tem pouca preferência eleitoral em municípios pequenos, onde a influência do governo do Estado é determinante. O segundo motivo é sua dificuldade em liderar um grupo político. 


Apesar de já se aproximar da metade do mandato de senador, ele continua como um estranho para os grupos políticos locais. Não é mais um outsider para o eleitor, mas, ao mesmo tempo, não se identifica como líder de um grupo político orgânico. 


Até agora, poucos deputados e prefeitos — a maioria 'desgarrados' do grupo de Ratinho Júnior — acompanham a pré-candidatura de Moro.. Tanto é que ao anunciar sua pré-candidatura pelo União gerou um efeito de “debandada” maior do que de apoio. Um exemplo foi o do deputado estadual, Fernando Francischini, cassado pelo TSE. Antiga liderança do União no Paraná, ele trocou de legenda para presidir o Solidariedade logo após o anúncio de Moro. Ademais, outros deputados federais do União já anunciaram que mudarão de partido na janela de 2026 para apoiar o candidato indicado por Ratinho Júnior. 


O cenário de alianças também é complexo. O partido mais próximo do União é o Progressistas, com quem ensaia formar uma federação nacional. No Paraná, porém, o presidente do Progressistas, deputado Ricardo Barros, anunciou que não apoiaria Moro e lançou como pré-candidata de seu partido, a esposa, ex-vice-governadora, Cida Borghetti. Ou seja, no que depender do Paraná, não haverá federação entre União e Progressistas. Apesar de todas as dificuldades políticas e dependência de uma decisão de Ratinho Júnior que seria muito arriscada para o futuro do do atual governador, Moro tem uma vantagem: ele é o destino natural dos votos dos bolsonaristas paranaenses. Isso lhe garante um piso de votação em torno de 20%, um diferencial para o início de campanha. Esse cenário só mudará se aparecer um novo 'outsider' de fato na extrema-direita regional, capaz de atrair o núcleo mais radical — afinal, a base do bolsonarismo já demonstrou que, entre um ex-outsider e um outsider autêntico, prefere o segundo.



A oposição que resta



O principal pré-candidato de oposição ao governo Ratinho Júnior até aqui é o deputado estadual Requião Filho (PDT). Requião Filho foi eleito pela primeira vez em 2014 como deputado estadual e reeleito em 2018, pelo MDB. Ao final daquele mandato, transferiu-se para o PT, junto com o pai, ex-governador Roberto Requião, para apoiar a candidatura deste ao governo do Estado. 


Agora, em 2025, Requião Filho conseguiu autorização da justiça eleitoral para trocar o PT pelo PDT, sob a garantia de ter a vaga como candidato a governador pelo partido democrata trabalhista. Apesar da recente ruptura com o PT, Requião Filho tenta construir uma coligação que reúna todos os partidos da centro-esquerda à esquerda — incluindo o próprio PT. Para o Partido dos Trabalhadores, a aliança representa uma oportunidade de palanque regional à candidatura de reeleição do presidente Lula e assegurar a vaga de principal candidato ao Senado pela coligação. 


Ainda que conquiste o apoio das siglas de esquerda, Requião Filho terá que se reinventar. Até aqui, seu potencial de votos é baixo. Além das três eleições para deputado estadual, disputou a prefeitura de Curitiba, em 2016, quando fez apenas 5,6% de votos válidos. Embora seu potencial ainda não tenha sido testado em uma eleição majoritária estadual, Requião Filho apresenta-se como opositor genuíno ao governo Ratinho Júnior na Assembleia Legislativa. Hoje ele é a oposição que resta em um Estado onde os partidos de esquerda não souberam renovar seus quadros nas últimas décadas e, enquanto o eleitorado migrava cada vez mais para a direita .


As definições para as eleições regionais do Paraná, ao governo e ao Senado, estão vinculadas à decisão de Ratinho Júnior. Se ele for candidato a presidente — o que é pouco provável, pois dependeria de fatores, como uma queda no desempenho do governo Lula em 2026 e a desistência de Tarcísio de Freitas da disputa nacional, ele definiria uma das opções de seu grupo para o governo e outras duas para candidaturas ao Senado. 


Por outro lado, se Ratinho Júnior decidir se candidatar ao Senado para não ficar sem mandato depois de mais de um quarto de século ininterrupto exercendo cargos eletivos, ele teria que optar por um candidato a governador e outro nome para acompanhá-lo na chapa ao Senado. Isso porque os dois senadores que concluem seus mandatos já sinalizaram que não disputarão a reeleição. 


Além disso, o cenário permanece aberto não apenas pelo excesso de opções no governismo e pela necessidade de decisão do governador atual para 2026. A indefinição deve-se, principalmente, ao fato do eleitor ainda não ter começado a pensar no próximo pleito. Em pesquisa pré-eleitoral divulgada no início de novembro pelo instituto Paraná Pesquisas, a pergunta espontânea – aquela sem apresentação de nomes – revelou 77% de eleitores indecisos para governador. Os pré-candidatos continuarão na disputa até meados do primeiro semestre do próximo ano. Só então o eleitor começará a apresentar suas preferências de fato e deixará de indicar os nomes mais conhecidos como possível preferência, como acontece sempre que falta um ano para a decisão do voto.



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As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.





Emerson Cervi é cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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