PODER, HERANÇA E DISPUTA: AS PEÇAS EM MOVIMENTO NAS ELEIÇÕES DE 2026 NO ACRE
- NEPOL UFJF

- 18 de jun.
- 10 min de leitura
Thales Torres Quintão¹
Nilson Euclides da Silva²
As eleições de 2026 no Acre ocorrerão em um contexto marcado por duas tendências simultâneas. A primeira é a consolidação de um ciclo político conservador iniciado, sobretudo, após o enfraquecimento da Frente Popular do Acre (FPA), coalizão regional liderada pelo PT que governou o estado entre 1999 e 2018 e que congregava partidos como o PV, PCdoB, PSB, PTdoB e o PMN. A segunda é a necessidade de reorganização das elites políticas locais diante da sucessão do governador Gladson Cameli (PP), eleito em 2018 e reeleito em 2022, em ambas as situações no primeiro turno: 53,71% e 56,75% dos votos válidos, respectivamente.
Diante disso, o cenário atual parece caracterizar-se por uma competição predominantemente interna ao campo da direita e do centro-direita. Nesse contexto, a questão central das eleições de 2026 talvez não seja quem derrotará a direita acreana, mas qual grupo político conseguirá mobilizar mais capital político e, assim, terá maior capacidade de liderar as forças políticas no estado.
O fim de um ciclo e a consolidação de outro? Um breve panorama histórico
A história política do Acre é marcada por ciclos de poder relativamente longos, nos quais grupos políticos, famílias influentes e lideranças personalistas exerceram forte controle sobre as instituições e sobre os processos eleitorais.
Embora a redemocratização brasileira tenha ampliado a competição partidária e fortalecido os mecanismos democráticos, as características tradicionais da política local permaneceram presentes, assumindo novas formas e adaptando-se aos desafios de cada período histórico. Nesse contexto, a ascensão da FPA, liderada pelo PT, representou um dos fenômenos políticos mais significativos da história recente do estado. A vitória de Jorge Viana (PT) na disputa pelo o governo estadual, em 1998, simbolizou não apenas a derrota de grupos políticos tradicionais que haviam dominado o Acre durante décadas, mas também a consolidação de um novo projeto político que combinava elementos de modernização administrativa, valorização da identidade regional e defesa de pautas sociais e ambientais.
O discurso construído naquele período buscava apresentar o Acre como uma experiência singular dentro da Amazônia brasileira. A defesa dos povos da floresta, dos seringueiros, das populações indígenas e das comunidades tradicionais passou a ocupar posição central na narrativa governamental. Ao mesmo tempo, difundia-se a ideia de que seria possível construir um modelo alternativo de desenvolvimento baseado na sustentabilidade ambiental, na inclusão social e na eficiência da gestão pública.
A força desse discurso não pode ser compreendida apenas como resultado de estratégias eleitorais. Ela estava profundamente associada tanto à trajetória dos movimentos sociais que emergiram no Acre durante as décadas de 1970 e 1980, quanto a um projeto político vinculado ao legado do movimento seringueiro, à valorização da agenda ambiental e ao desenvolvimento de políticas estaduais em torno dessas dimensões. Ou seja, tratava-se da construção de uma memória coletiva baseada na resistência, na defesa do território e na valorização de formas tradicionais de ocupação da floresta.
Contudo, a permanência de um mesmo grupo no poder por duas décadas trouxe consigo desafios que se revelariam decisivos para essa coalizão. Vale destacar que se tratava de uma coalizão ampla, que abrangia 12 dos 17 partidos existentes no estado na eleição de 1998, inclusive o PSDB, cuja parceria ocorria desde a prefeitura de Rio Branco, em 1992. A longa hegemonia política produziu mecanismos de acomodação interna, concentração de decisões e fortalecimento de lideranças individuais. A construção dessa frente foi gradativamente substituída pela centralidade de determinadas lideranças, como Jorge Viana.
Ao longo do tempo, o projeto político começou a apresentar sinais de desgaste. As vitórias eleitorais tornaram-se progressivamente mais difíceis, revelando uma redução da competitividade da Frente Popular. As eleições de 2010, com a vitória de Tião Viana (PT) no primeiro turno por menos de 1,5 ponto percentual de diferença, e as de 2014, com vitória no segundo turno por pouco mais de 2,5 pontos percentuais, já indicavam que a hegemonia construída ao longo das duas décadas anteriores enfrentava desafios crescentes.
Diante disso, as eleições de 2018 marcaram o encerramento de um ciclo. A vitória de Gladson Cameli, que havia se tornado senador nas eleições de 2014, e a derrota de Jorge Viana para o Senado, que não conseguiu uma das duas cadeiras disputadas ao ficar em terceiro lugar, simbolizaram a ruptura de uma hegemonia que havia moldado a política acreana durante vinte anos.
Mais do que uma simples alternância de poder, tratou-se de uma mudança nas preferências eleitorais e na correlação de forças políticas do estado. O resultado revelou que parcela significativa do eleitorado já não se identificava com os discursos que haviam sustentado a Frente Popular desde o final dos anos 1990. A promessa de desenvolvimento sustentável, a valorização dos povos da floresta e a defesa de um modelo alternativo de desenvolvimento deixaram de mobilizar amplos setores da sociedade com a mesma intensidade observada anteriormente. Em suma, sucessivas vitórias eleitorais não se traduziram necessariamente em mudanças ideológicas e de valores junto aos cidadãos.
Paralelamente, emergiu um novo cenário político caracterizado pelo fortalecimento de pautas conservadoras, pelo crescimento da influência de setores religiosos e pelo avanço de discursos ligados ao agronegócio e à segurança pública. O desempenho de Jair Bolsonaro no Acre durante as eleições presidenciais de 2018 e 2022 torna mais explícitas essas reconfigurações. Em 2018, no primeiro turno, o ex-presidente obteve 62,2% dos votos válidos e 77,2% no segundo turno, seu melhor desempenho proporcional entre todos os estados do país. Em 2022, esses números praticamente se repetiram: 62,5% dos votos válidos no primeiro turno e 70,3% no segundo.
Contudo, deve-se destacar que, apesar de o PT ter apresentado candidatos majoritários tanto à Presidência quanto ao governo do estado durante os 20 anos da Frente Popular no governo do estado, os votos não seguiam a mesma orientação quando em relação à eleição presidencial. Se analisarmos o período de 1998 a 2018, em apenas duas situações, 2002 e 2014, a esquerda superou os adversários na disputa para a Presidência no estado do Acre. Em outras palavras, os votos não seguiram o mesmo espectro ideológico nas eleições para o governo estadual e para o governo federal.
Percebe-se, assim, a ampliação da presença das forças conservadoras nos principais espaços político-institucionais do estado. O desempenho eleitoral da direita nas últimas eleições não é algo episódico, mas também pode ser lido como a expressão de transformações mais profundas nas preferências políticas do eleitorado acreano e, potencialmente, da construção da hegemonia de outro ciclo político.
Infografia 1 – Representação gráfica da mudança de ciclo na política acreana

Fonte: elaboração do NEPOL.
As eleições de 2026 para o governo do Acre: disputas e forças políticas
No estado do Acre, aproximadamente 605 mil eleitores estão aptos a votar em 2026. Rio Branco, maior colégio eleitoral do estado, conta com cerca de 270 mil eleitores, aproximadamente 45% do eleitorado total. É também o único dos 22 municípios acreanos que pode ter segundo turno em eleições locais. O segundo maior colégio eleitoral é Cruzeiro do Sul, com aproximadamente 62 mil eleitores.
O cenário atual das prefeituras demonstra a força dos partidos de direita no estado. O Progressistas (PP) domina atualmente 14 das 22 prefeituras, administrando inclusive Cruzeiro do Sul e Xapuri, município associado ao legado histórico de Chico Mendes e tradicional reduto petista, governado pelo partido em três pleitos consecutivos até a eleição mais recente. O PL saiu vitorioso em duas eleições: em Rio Branco, com a reeleição de Tião Bocalom, naquele momento filiado ao partido, e em Acrelândia.
Cabe destacar, entretanto, que o atual prefeito de Rio Branco é Alysson Bestene (PP), eleito vice-prefeito na chapa de Bocalom, uma vez que este é um dos pré-candidatos ao governo estadual pelo PSDB. Outras prefeituras estão distribuídas entre siglas de centro-direita, como o Republicanos, com duas prefeituras, Feijó e Acrelândia; o MDB, em Santa Rosa do Purus; o União Brasil, em Capixaba; e o PSD, em Rodrigues Alves, com uma prefeitura cada. Há ainda o PDT, único partido considerado de esquerda nesse conjunto, que administra o município de Bujari com a reeleição de “Padeiro”. Mesmo nesse caso, porém, a chapa tinha como vice-prefeita Aparecida Rocha (PL) e contava com o apoio do Progressistas, partido do então governador Gladson Cameli.
Dois elementos são cruciais para compreender o cenário eleitoral de 2026 no contexto acreano. O primeiro é a permanência da influência do bolsonarismo no estado e a forma como os atores políticos se mobilizam em torno desse movimento, seja de maneira mais direta, seja em tom mais moderado. Somada a isso, está a disputa pela sucessão de Gladson Cameli (PP), que foi governador por duas vezes e agora pleiteia uma vaga para o Senado Federal. Entretanto, a situação política de Cameli tornou-se mais incerta após sua condenação pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações, decisão que ainda produz desdobramentos jurídicos e eleitorais relevantes para a disputa de 2026.
No Acre, o bolsonarismo ganha contornos mais sólidos e se associa à chamada “cultura do gado”, pela qual parte da vida material e simbólica da sociedade passa a ser construída em torno da pecuária e, assim, do empreendedorismo rural, do trabalho duro e de uma concepção de desenvolvimento social e econômico marcada pela desconfiança em relação aos movimentos ambientalistas. Essa transformação sociocultural nos ajuda a compreender por que discursos conservadores e bolsonaristas encontram receptividade entre os eleitores acreanos.
A pesquisa de intenção de voto mais recente, publicada pela Paraná Pesquisas em junho de 2026, apontou o senador Alan Rick (Republicanos) em primeiro lugar nas intenções de voto para governador, com 41,2% na estimulada. Em segundo lugar, aparece Mailza Assis (PP), vice-governadora do estado, com 24,4% das intenções. Rick é aliado declarado de Jair Bolsonaro e constantemente tece críticas à prisão do ex-presidente determinada pelo Supremo Tribunal Federal, classificando-a como “encenação jurídica”. Em março, no ato de filiação ao Republicanos, período que possibilitou a mudança de partido devido à janela partidária, o senador liderou uma oração entre os presentes em homenagem ao ex-presidente.
Outro indício da força do bolsonarismo no estado são as sondagens de intenção de voto para presidente. Levantamento publicado pela Veritá Eleições em março deste ano demonstra que Flávio Bolsonaro (PL) aparece em primeiro lugar no estado, com 46,9% na pergunta estimulada, com Lula em segundo, com 24,5%. O atual presidente também apresenta a maior rejeição, com 46,4% das menções. Essa rejeição demonstra a dificuldade de partidos de esquerda e centro-esquerda em se aproximarem da figura política do atual presidente e mobilizarem apoio em torno dela no contexto acreano.
Em segundo lugar, há a disputa em torno de quem sucederá a administração de Gladson Cameli. O governador terminou 2025 com aprovação em torno de 60%, mas passou a enfrentar desgaste crescente de imagem em 2026, devido a fatores como a própria condenação pelo STJ e o desabamento de uma ponte no município de Sena Madureira, no começo de junho, que deixou quatro feridos. A ponte havia sido inaugurada por Cameli em dezembro de 2023. O principal desafio para o grupo próximo ao governo não parece ser a ausência de força eleitoral, mas a administração de interesses divergentes no interior da própria coalizão e de grupos anteriormente alinhados, bem como a construção de alianças políticas estratégicas.
Um exemplo disso é a candidatura do ex-prefeito Tião Bocalom, atualmente no PSDB, partido ao qual se filiou durante a janela partidária, ao governo estadual. Bocalom aparece em terceiro, com 16,1% das intenções de voto na estimulada, de acordo com a Paraná Pesquisas. Nas eleições municipais de 2024, Gladson apoiou Bocalom, então no PL, com a construção de uma coligação partidária e a indicação de Alysson Bestene (PP) a vice-prefeito. Enquanto isso, o ex-governador busca alavancar a candidatura de Mailza Assis (PP), mas a questão é até que ponto sua imagem, em processo de desidratação como “padrinho político”, pode prejudicar a candidatura de Mailza.
Em meio a esse contexto, observa-se a ausência de candidatos viáveis a governador dentro do espectro de esquerda e de centro-esquerda. O PT, por exemplo, ainda não apresentou um candidato à disputa e parece concentrar seus esforços no parlamento. Contudo, o PT deve apoiar a candidatura do médico e professor universitário Thor Dantas (PSB) ao governo estadual, em aliança com outros partidos, como PCdoB e PSOL. No último levantamento da Paraná Pesquisas, Thor estava com quase 4,0% das intenções de voto na estimulada.
Infografia 2 - Direita disputa o governo do estado e corrida pelo senado está em aberto

Fonte: elaboração do NEPOL.
No Senado, Jorge Viana mantém possibilidade de vitória por ser um nome histórico e pelo fato de haver duas vagas em disputa, mas o cenário ainda está em aberto, com presença de indecisos, além do fato de ele competir com dois atuais senadores: Márcio Bittar (PL), alinhado ao projeto bolsonarista e que, no final de maio, articulou a vinda do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ao município de Rio Branco; e Sérgio Petecão (PSD), que se destaca por ser um dos parlamentares que mais direciona emendas orçamentárias para os municípios acreanos. Há também outras figuras expressivas, como o próprio ex-governador Gladson Cameli e o deputado federal Coronel Ulysses (União Brasil), com pautas ligadas à segurança pública e atuação conjunta com a bancada ruralista. Ulysses ainda não definiu se tentará a recondução à Câmara dos Deputados ou uma vaga na Câmara Alta, decisão que também depende da situação legal de Cameli.
Em relação às emendas impositivas parlamentares, em pontos de maior circulação da capital, Rio Branco, observam-se constantemente outdoors de pré-candidatos como Márcio Bittar, Alan Rick e Sérgio Petecão sobre a destinação dessas emendas e os projetos concluídos a partir delas. Essas iniciativas envolvem projetos sociais, culturais e esportivos e a construção de equipamentos públicos, além da comunicação institucional das obras da prefeitura, como viadutos e asfaltamentos, que visam implicitamente associá-las à figura de Tião Bocalom. Trata-se de uma estratégia de construção de relevância pública e de fortalecimento da identidade representativa desses atores junto ao eleitorado.
Entre a sucessão de Cameli e a consolidação de uma nova hegemonia
Ainda é cedo para estabelecer inferências e causalidades, sendo necessário observar novas reviravoltas, oscilações e o eventual aparecimento de escândalos políticos que possam influir diretamente nas preferências do eleitorado. Todavia, as figuras que já começam na frente e com certa vantagem sobre os adversários demonstram a força do projeto bolsonarista no Acre. Associado a isso, devem ser observados os realinhamentos políticos, as alianças, as negociações e os conflitos entre grupos que, até pouco tempo atrás, orbitavam em torno da liderança política do estado. Diante disso, as eleições de 2026 não definirão apenas o sucessor de Gladson Cameli. Elas poderão indicar se a predominância conservadora observada desde 2018 constitui apenas mais um ciclo eleitoral ou se representa a consolidação de uma nova hegemonia política no Acre.
¹ Thales Torres Quintão é professor de Ciência Política na Universidade Federal do Acre (UFAC) e pós-doutor no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFMG e pesquisador do Decode/UFMG - Grupo de Pesquisa em Democracia e Comunicação Digital e membro do International Parliament Engagement Network (IPEN). Contato: thales.quintao@ufac.br Lattes: http://lattes.cnpq.br/1098096801354048.
² Nilson Euclides da Silva é doutor em Ciências Sociais - Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Contato: nilson.silva@ufac.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1152046359428217.
As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.



Comentários