ENTRE O GOVERNISMO E O BOLSONARISMO: AS DUAS PRINCIPAIS FORÇAS POLÍTICAS EM DISPUTA NAS ELEIÇÕES DE 2026 EM GOIÁS
- NEPOL UFJF

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Camila Romero Lameirão¹
Seguindo uma máxima da política brasileira, de que as bases municipais sustentam o sucesso eleitoral de uma candidatura, tanto a nível estadual como federal, o então governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), em 2024, se empenhou diretamente para promover a eleição de candidatos vinculados à sua base político-partidária para as prefeituras do estado. Neste intento, alcançou êxito, uma vez que, naquele ano, ao menos 75% dos 246 municípios goianos, incluindo a capital Goiânia, elegeram representantes declaradamente aliados ao chefe do governo estadual. O contexto recente é ainda mais favorável, considerando que se projeta um apoio de 90% dos governos municipais à candidatura do sucessor de Caiado ao governo do estado, o atual governador, e nos últimos quatro anos vice, Daniel Vilela (MDB).
Em especial, em Goiânia, a eleição de Sandro Mabel, do União Brasil (UB), representou uma dupla vitória para o então governador. Às custas de muito empenho, Caiado conseguiu o que em quase 40 anos não havia se passado na escolha para a prefeitura da capital: a eleição de um candidato apoiado diretamente pelo governador. Além disso, a vitória de Mabel para o governo local frente a uma competitiva candidatura do PL, a de Fred Rodrigues, diretamente apoiada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, conferiu um importante êxito eleitoral a Caiado em um embate local que também serviu para testar o alcance do bolsonarismo na política do estado. Quanto a isto, é importante mencionar que no município de Aparecida de Goiânia, o segundo mais populoso do estado, o resultado do 2º turno, com a eleição de Leandro Vilela do MDB frente a uma candidatura do PL, a do Professor Alcides, também representou uma conquista para o à época governador neste embate com o bolsonarismo.
A hegemonia governista e o legado de Caiado
Os resultados das eleições locais de 2024 em Goiás não devem ser compreendidos, somente, como um retrato da força política da liderança de Caiado no estado naquela conjuntura, mas como um preâmbulo do que, a princípio, se anuncia para o pleito de 2026, sobre o qual o agora ex-governador pretende exercer forte influência, o que, na prática, significa eleger o seu sucessor, Daniel Vilela, para o comando do governo goiano, a sua esposa, Gracinha Caiado (União Brasil), para o Senado Federal e, ainda, em âmbito nacional, se projetar como uma candidatura competitiva para a presidência da República, principalmente, no campo ideológico da direita.
O percurso e a influência política de Caiado em Goiás, no período atual, embora tenham traços peculiares, parecem em muito com a trajetória trilhada pelo ex-governador Marconi Perillo (PSDB), eleito para quatro mandatos à frente do Executivo estadual, iniciados, respectivamente, em 1999, 2003, 2011 e 2015. Perillo, ainda hoje, é o único político brasileiro eleito de forma direta para quatro mandatos de governador. Ao deixar o Palácio das Esmeraldas, sede do governo goiano, em 2006, no último ano do seu segundo mandato, o ex-governador conseguiu eleger o seu sucessor, Alcides Rodrigues (PP), e também obteve uma vaga no Senado Federal, conquistando à época cerca de 75% dos votos válidos no estado. Perillo é hoje um dos pré-candidatos ao governo de Goiás, após sofrer sucessivas derrotas nos pleitos para o Senado em 2018 e 2022, acumulando, segundo pesquisa eleitoral Genial/Quaest divulgada no final do mês de abril, 21% das intenções de voto, atrás de Daniel Vilela, com 33%.
Somente o futuro mostrará se Caiado conseguirá exercer o controle sobre a administração estadual por igual período a que exerceu Perillo, que elegeu o seu sucessor e ainda retornou à chefia do Executivo goiano por mais dois mandatos. Se assim for, pode-se supor que ter o controle sobre os recursos que o governo estadual, notadamente a máquina pública, oferece ao incumbente e aos seus sucessores, é uma variável central para o sucesso eleitoral do grupo à frente da governadoria, pelo menos, em Goiás. Considerando-se a aliança estadual arregimentada nos últimos anos, cujo resultado eleitoral de 2024 evidencia, que forma uma rede de sustentação a Caiado e a Daniel Vilela, o que se projeta é que este grupo seguirá exercendo influência sobre os rumos da política goiana. Não se sabe, contudo, se ao longo de quase duas décadas, como foi no caso de Perillo, ou por tempo superior.
Apesar de Marconi Perillo ter, até o momento, a segunda maior intenção de voto, de acordo com as pesquisas eleitorais, para o governo do estado, a sua taxa de rejeição é de 50%, a mais alta em comparação aos demais possíveis pré-candidatos para o pleito, o que fragiliza a competitividade de sua candidatura. Além disso, o partido do qual é filiado e presidente nacional, o PSDB, enfrenta um contínuo esvaziamento em Goiás, materializado pela diminuição no número de prefeituras – se na última eleição municipal, enquanto governava o estado, a de 2016, o partido de Perillo obteve sucesso em 75 prefeituras, este número se reduziu 970% em 2024, quando apenas 7 prefeitos foram eleitos pelo PSDB no estado – e, ainda, pela saída da legenda de uma política em ascensão em Goiás e com projeção nacional, a vereadora Aava Santiago, de Goiânia, que no início de 2026 filiou-se ao PSB.
O campo da direita: governismo, bolsonarismo e a oposição enfraquecida

Fonte: elaboração do NEPOL.
Diante deste cenário, há alguma expectativa de que se reproduza na eleição para o governo goiano deste ano o embate ocorrido no pleito municipal de Goiânia, em 2024, havendo, assim, uma disputa entre o candidato governista, no caso, o incumbente Daniel Vilela, e um representante do bolsonarismo, provavelmente, o atual senador e presidente regional do PL, Wilder Morais, que acumula 9% das intenções de voto.
Mesmo estando com uma pontuação relativamente baixa nas pesquisas a alguns meses de se iniciar a campanha eleitoral, o potencial candidato bolsonarista pode repetir o feito de seu correligionário, Fred Rodrigues, que no pleito municipal de 2024, em Goiânia, despontou dos mesmos 9% de Wilder, no início da campanha, para a dianteira da disputa no primeiro turno, recebendo um pouco mais de 31% dos votos, mas sendo derrotado por Sandro Mabel, no segundo turno. Em 2024, Jair Bolsonaro se empenhou pessoalmente para alavancar a candidatura de Rodrigues, nos dois turnos da eleição, vindo a Goiânia e verbalizando o seu apoio por diferentes meios. Este ano, é muito provável que isso não aconteça, considerando a detenção do ex-presidente e as restrições judiciais às quais está submetido.
Além disso, pode-se dizer que estrategicamente, a base governista, liderada pelo ex-governador Caiado e o atual, Daniel Vilela, arregimentou filiações de políticos egressos do PL. Calcula-se que metade dos 26 prefeitos eleitos pela sigla em 2024, tenham nos últimos anos deixado o PL e se filiado a agremiações de sustentação do governo, como o MDB, União Brasil e o PSD, reduzindo, assim, possíveis estruturas políticas locais mobilizadas para a candidatura de Wilder Morais para o Executivo estadual.
Fato é que o PL não passa por seus melhores momentos em Goiás. O desentendimento interno foi extrapolado com a recente discussão acalorada entre dois deputados estaduais da sigla, Major Araújo e Amauri Ribeiro, no plenário da Assembleia Legislativa, em que se expôs animosidades e acusações de traição ao candidato do partido ao governo estadual. Araújo revelou que Ribeiro vinha se encontrando com o grupo de Caiado, inclusive com o candidato governista Daniel Vilela, e que por isso estaria criticando publicamente Wilder Morais, como forma de enfraquecer a sua candidatura. A acusação foi rechaçada por Ribeiro, embora tenha admitido que se reuniu com o grupo governista. O deputado federal Gustavo Gayer, talvez o político do estado mais próximo a Bolsonaro nos anos recentes, também tem se manifestado publicamente de forma crítica ao seu correligionário, Wilder, afirmado que o possível candidato ao governo não tem a chancela de Bolsonaro para concorrer ao cargo pelo PL. Morais também foi acusado de não defender o ex-presidente frente às restrições judiciais e à detenção aplicadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. A suposta resistência de políticos do próprio partido em apoiar Wilder pode explicar-se pela adesão de alguns ao projeto mobilizado por Caiado de apresentar uma candidatura ao governo de Goiás que integre vários segmentos do campo ideológico da direita, entre eles o do bolsonarismo.
A despeito desta conjuntura, Wilder tem encontrado algum apoio do seu partido durante este período de pré-campanha. Neste mês de maio gravou um vídeo com o pré-candidato à presidência da República pelo PL, o senador Flávio Bolsonaro, anunciando a presença do presidenciável no evento que ocorrerá no final de junho, em Goiânia, para promover o lançamento da sua pré-candidatura ao governo do estado e buscando, também, mostrar proximidade junto à família Bolsonaro.
Uma aliança entre os dois políticos interessa a ambos. Wilder se fortalece competitivamente junto ao eleitorado por ter o apoio direto do bolsonarismo, que já se comprovou, na eleição municipal de 2024, ser um capital que atrai votos, ao passo que Flávio Bolsonaro viabiliza uma estrutura regional para promover a sua candidatura, em um estado que, ao que se indica no momento, terá uma forte concorrência no campo da direita, a de Caiado, para a corrida presidencial. Desta forma, a vitalidade da candidatura de Wilder em Goiás é um importante e estratégico trunfo para a campanha nacional à presidência do filho de Bolsonaro.
Há, portanto, incentivos para que a campanha de Wilder à governadoria possa, nos próximos meses, se fortalecer e isso significa tornar-se competitiva, mas pari passu a de Flávio Bolsonaro à presidência. Ou seja, a envergadura eleitoral de ambos estaria atrelada. Possivelmente, à medida em que o filho do ex-presidente mantenha ou amplie suas intenções de voto nas pesquisas, o que recentemente foi colocado em xeque devido à publicação de suas conexões com o banqueiro, atualmente preso, Daniel Vorcaro, o seu desempenho servirá para emprestar força política a Wilder ao menos, de forma mais direta, a partir de agosto, quando oficialmente se inicia o período eleitoral. No entanto, em uma situação adversa, o declínio de Flávio nas pesquisas, provavelmente, trará consequências para a candidatura do PL em Goiás. Este último contexto beneficia, por sua vez, a candidatura de Caiado à presidência, como representante da direita, e amplia as chances de Daniel Vilela reunir maior apoio de votos ainda no primeiro turno das eleições.

Confirmando-se as candidaturas destes dois nomes da direita para a eleição presidencial, é bem provável que o pleito no estado reproduza o embate nacional entre os dois candidatos. Assim, governistas e bolsonaristas se conformariam como as duas principais forças políticas a organizar a competição eleitoral em Goiás, seja para os cargos sob disputa a nível estadual (para o governo e a Assembleia Legislativa), como federal (para a Câmara e o Senado). Esse cenário é provável em razão da aderência da maioria do eleitorado goiano a candidaturas posicionadas à direita do espectro ideológico, considerando-se a classificação dos partidos de filiação dos candidatos (Bolognesi et al., 2025). O resultado das eleições de 2022 mostra isto: com a vitória em primeiro turno do governador em reeleição, Ronaldo Caiado, então do União Brasil, obtendo 51,8% dos votos; a eleição do candidato do PL, Wilder Morais, ao Senado, na única vaga em disputa; e a votação no candidato à presidência pelo PL, Jair Bolsonaro, que recebeu no primeiro e segundo turno, respectivamente, 52% e 58,7% de votos no estado. Nas eleições proporcionais para a Assembleia Legislativa e a Câmara dos Deputados também houve a seleção de candidaturas à direita, sendo que mais de dois terços dos eleitos para as duas instituições, em 2022, pertenciam a partidos classificados neste espectro ideológico.
Se forem considerados os resultados preliminares das pesquisas de intenção de votos para os cargos legislativos em disputa em Goiás, divulgados a alguns meses do início do período eleitoral, a projeção do êxito de candidaturas à direita se confirma. Para o Senado, quem sai na frente é a esposa do ex-governador, Gracinha Caiado (União Brasil), com 22%, seguida das pré-candidaturas de Vanderlan Cardoso (PSD), Zacharias Calil (MDB) e Gustavo Gayer (PL) que, praticamente, estão empatados, com cerca de 10% das intenções de voto (Genial/Quaest, abril de 2026).
Na Câmara dos Deputados, conforme o levantamento realizado no início de março pelo Instituto Gazeta (IGAPE) que considerou as citações espontâneas das pessoas entrevistadas, dos cinco nomes mais mencionados de pré-candidaturas, três são filiados ao União Brasil, um ao PL e outro ao PRD. Neste contexto, por outro lado, encara-se como limitada a margem para o crescimento de candidaturas competitivas do campo ideológico da esquerda, sobretudo, nas eleições majoritárias para o governo e o senado. O PT ainda não definiu oficialmente uma candidatura para concorrer ao comando do estado e isso traz repercussões para o planejamento da execução da campanha presidencial de Lula a partir de agosto em Goiás, cujo desempenho, na eleição de 2022, no primeiro e segundo turno foi, respectivamente, de 39,5% e 41,3% dos votos.
Além das alianças: temas que deveriam pautar o debate eleitoral
Neste período que antecede o início da campanha eleitoral é comum, no Brasil, que a atenção pública e as articulações políticas girem em torno, sobretudo, de alianças e definições de candidaturas competitivas. Publicamente, nesta época, políticos e pré-candidatos costumam abordar pouco os problemas e as demandas específicas de seus distritos eleitorais. Em Goiás, isso não é diferente. Embora o ex-governador Caiado venha procurando disseminar algumas marcas do estado, até como uma estratégia para se fazer conhecido nacionalmente, dado o seu intento de se lançar como candidato à presidência, entre elas, o combate à criminalidade e a melhora dos indicadores de educação (como o IDEB), há outros temas que deveriam ser objeto de atenção e de debate entre as candidaturas, neste próximo pleito. Pesquisa recente revelou queda nos níveis de avaliação positiva da população goiana nas áreas da saúde e de transporte público, por exemplo.
Além disso, dado o seu recente ingresso no debate público, convém ser alvo de um maior escrutínio neste período eleitoral as propostas dos candidatos sobre a gestão das reservas de recursos minerais (as denominadas “terras raras”) localizadas no município de Minaçu, em Goiás, atualmente sob o controle de uma empresa estrangeira. É de interesse da população e do eleitorado conhecer como o governo e as instituições estaduais estão administrando a “exploração” destes recursos, as consequências e impactos para o meio ambiente e quais benefícios gerados para a população goiana. Mais do que oferecer algum conhecimento, as candidaturas em 2026 deveriam, no mínimo, ouvir e acolher o que tem a dizer a população.
Camila Romero Lameirão é professora de Ciência Política da Universidade Federal de Goiás (UFG). Contato: camila.romero@ufg.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1401479784897625.
As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.



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