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BOLSONARISMO E FRAGMENTAÇÃO POLÍTICA NAS ELEIÇÕES MATO-GROSSENSES

Natacha Chabalin Ferraz¹

Leomir Lemos dos Santos²


Nas eleições de 2026 em Mato Grosso, pela primeira vez no século XXI, o campo progressista não dispõe de candidatura competitiva ao governo estadual. A direita, hegemônica nas urnas desde 2018, chega fragmentada em torno de um eixo estratégico eleitoral: a disputa pelo apoio do bolsonarismo, seja do ex-presidente Jair Bolsonaro, seja de seu filho, aliados e outros familiares. Há nomes viáveis oriundos do mesmo campo ideológico, o que configura uma disputa interna entre candidatos de direita e caracteriza o cenário eleitoral do estado neste ciclo.


Mato Grosso é, por qualquer métrica sociopolítica e econômica, um estado estruturalmente alinhado ao agronegócio e à direita. Nas eleições presidenciais de 2018, Jair Bolsonaro obteve 60,04% dos votos válidos e venceu em 126 dos 141 municípios. Em 2022, sua votação subiu para 65,08%, com vitória em 123 municípios, mesmo com a derrota nacional. Essa adesão está fundamentada em uma estrutura econômica singular. Mato Grosso concentra 29,8% da produção nacional de grãos, destacando-se como líder na produção de soja, milho e algodão, além de possuir um dos maiores rebanhos bovinos do país. Como resultado, o setor agropecuário responde por 33,6% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual, participação que corresponde a quase seis vezes a média nacional.


O agronegócio, contudo, não constitui um monolito político. Existem setores liberais e moderados, personificados em Blairo Maggi, que rompeu com Bolsonaro em 2022, mas eles operam de forma menos visível. Já entidades como a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja) e a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) possuem pauta própria, mais alinhada ao bolsonarismo, como a defesa da suspensão da Moratória da Soja. Nesse contexto, o sobrenome Bolsonaro acumula capital político local e ajuda a explicar por que, pela primeira vez, três nomes competitivos da direita e alinhados ao bolsonarismo estão na disputa pelo governo: Otaviano Pivetta (Republicanos), Wellington Fagundes (PL) e Jayme Campos (União Brasil), este último mais associado à centro-direita.


Infografia 1 — Três principais candidatos na disputa pelo governo de Mato Grosso em 2026


Fonte: elaboração do NEPOL.


A incerteza da disputa pelo governo: quem herda o graal?


A disputa pelo governo de Mato Grosso em 2026 apresenta um cenário de fragmentação partidária, com número indefinido, superior a oito, de pré-candidatos oficializados para uma eleição majoritária no estado. Essa proliferação de nomes reflete não apenas a ausência de um projeto hegemônico de poder, mas também a dificuldade de consolidação de lideranças capazes de agregar coalizões estáveis no pós-gestão Mauro Mendes. 


Em 2022, Mauro Mendes (União Brasil) foi reeleito governador com 68,45% dos votos válidos, vencendo em 141 dos 142 municípios. Ao construir uma base legislativa forte, que garantiu sucesso governamental nos últimos anos, criou condições para projetar seu vice como “sucessor” natural. O vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos) apresenta-se como candidato da continuidade administrativa, além de integrar a coalizão com o PSDB. Três vezes prefeito de Lucas do Rio Verde, Pivetta articula a herança política de Mendes, que preside o União Brasil e trabalha ativamente por sua candidatura.


A geografia eleitoral de Mato Grosso impõe uma lógica própria às campanhas estaduais. Cuiabá concentra apenas 19% do eleitorado; os outros 81% estão dispersos em 140 municípios de baixa densidade demográfica, nos quais a média de habitantes por cidade não passa de 15 mil. Vencer em Mato Grosso exige capilaridade no interior, onde prefeitos reeleitos - 81% dos que tentaram a reeleição em 2024 venceram - e famílias fundadoras do agronegócio funcionam como cabos eleitorais de grande peso. Mendes soube disso: venceu em Cuiabá com 69,27%, mas consolidou sua vitória nos demais 140 municípios. A janela partidária de 2026 fortaleceu o Republicanos, que passou a deter a maior bancada na Assembleia Legislativa, com cinco deputados. Todavia, esse rearranjo antecipa alianças sem garantir unidade estratégica. Pivetta dialoga com o conservadorismo tradicional “moderado” e, segundo pesquisa do Instituto Veritá, realizada em abril, possui 35,4% das intenções de votos.


Infografia 2 - Peso da clivagem interior/capital na corrida eleitoral mato-grossense


Fonte: elaboração do NEPOL.



Por sua vez, o senador Wellington Fagundes (PL) possui trajetória política vinculada ao ruralismo, tendo exercido sucessivos mandatos como deputado federal desde 1991. É considerado uma das principais lideranças políticas e empresariais da região Sul-Sudeste de Mato Grosso. À frente do campo bolsonarista no estado, tem recebido apoio público do senador Flávio Bolsonaro, em articulação voltada à consolidação do projeto eleitoral majoritário do PL em Mato Grosso. Integrante de uma família tradicional e influente na política estadual, Fagundes foi reeleito para o Senado Federal em 2022 com 63,54% dos votos. Apesar de sua expressiva votação e projeção nacional, ainda enfrenta dificuldades de articulação política local, pois o PL elegeu apenas dois deputados estaduais.


Nas eleições municipais de 2024, o PL conquistou 22 prefeituras (15,49%), incluindo cidades estratégicas como Cuiabá, Várzea Grande e Rondonópolis. Já os partidos de seus adversários, Republicanos e União Brasil, conquistaram 12 (8,45%) e 60 (42,25%) prefeituras, respectivamente. O resultado de Cuiabá é ilustrativo: Abílio Brunini (PL) venceu Lúdio Cabral (PT) no segundo turno com 53,80%, mostrando que o bolsonarismo domina a capital. Contudo, o interior permanece como território do governismo representado pela coalizão União Progressista (União Brasil e PP) e pelo MDB. 


A Pesquisa Veritá, publicada em março, indicou Fagundes liderando o cenário estimulado para governador com 40,5%, mas com 20,3% de rejeição. A disputa pelo apoio do clã Bolsonaro tornou-se o eixo central da sucessão entre os candidatos ao governo. Em 2025, Bolsonaro sinalizou preferência por Pivetta; em março de 2026, Fagundes afirmou que o ex-presidente endossara seu nome, sendo confirmado pelo filho. A declaração foi colocada em xeque por adversários. Esse desencontro entre lógica estadual e nacional reproduz um conflito local-nacional que pode ser identificado de maneira similar em Santa Catarina. No caso de Mato Grosso, a lógica é mais regionalizada entre grupos que se organizam no Norte em relação ao Sul do estado.


Os temas estruturais são absorvidos pela lógica produtivista dominante no estado. Mudanças climáticas tornam-se debate sobre licenciamento ambiental e segurança jurídica; nenhum candidato ao governo coloca a agenda verde como bandeira principal. A fronteira com a Bolívia, rota de narcotráfico e contrabando, configura-se como ponto cego eleitoral: os candidatos silenciam sobre o tema para não contrariar o agronegócio, que prioriza escoamento e terras produtivas. A segurança pública só emerge como pauta quando afeta diretamente os produtores rurais; do contrário, é delegada à esfera federal. Assim, a pauta saliente da retórica política é de natureza moral e econômica: defesa dos costumes, valores tradicionais ligados à família brasileira e centralidade do agronegócio para a economia do estado.


O contraste entre os governos federal e estadual é expressivo e define as estratégias de palanque. Enquanto Lula enfrenta reprovação de 69,1% em Mato Grosso, com apenas 19,8% de aprovação, segundo pesquisa do Instituto Informa, de agosto de 2025, Mauro Mendes encerra seu segundo mandato com 75,8% de aprovação, podendo chegar a 82% nos levantamentos mais recentes. Não há alinhamento político operacional entre o Palácio do Planalto e o Palácio Paiaguás; há, isso sim, uma cisão que penaliza candidatos alinhados ao governo federal. Para as eleições nacionais, Mato Grosso oferece palanque hostil a Lula e fértil a Flávio Bolsonaro, que lidera com 44,6% das intenções de voto para presidente no estado, contra 29,8% do petista, de acordo com pesquisa realizada em maio pela Percent Brasil. A estratégia estadual de Pivetta, portanto, é desvincular-se de Brasília e colar-se à figura de Mendes; a de Fagundes é colar-se ao sobrenome Bolsonaro.


O senador Jayme Campos (União Brasil) está em posição marginal, mas segue competitivo porque sua candidatura representa a centro-direita histórica, em rota de colisão com Mauro Mendes, que defende Pivetta. Sua candidatura enfrenta obstáculos significativos: Campos registra 44,9% de rejeição, o maior índice entre os pré-candidatos, o que compromete sua viabilidade eleitoral. Mesmo em cenários sem Fagundes, nos quais empata tecnicamente com Pivetta, sua trajetória política encontra-se em colapso relativo. Vale ressaltar que há um racha no União Brasil entre Campos e Mendes, pois o ex-governador não quer apoiar seu correligionário na eleição. Esse fato cria um cenário de crise interna, fissuras partidárias, troca de farpas e ameaças. Isso pode inviabilizar a composição de candidaturas competitivas no pleito e levar a um baixo rendimento eleitoral da coalizão União Progressista.


A Assembleia Legislativa e a disputa pelo Senado


A reorganização da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) após a janela partidária de 2026 oferece uma medida empírica da fragmentação que antecede o pleito. Com onze dos 24 deputados trocando de sigla, o Republicanos tornou-se a segunda maior bancada, com cinco deputados, atrás do União Brasil, com seis. O MDB aparece em seguida, com quatro deputados. O PT elegeu apenas dois representantes, mantendo sua minoria institucional. Essa fragmentação partidária espelha, no Legislativo, a incapacidade da direita de produzir uma liderança hegemônica para o Executivo. As eleições municipais de 2024 reconfiguraram esse tabuleiro: ao reeleger 81% dos prefeitos, a população sinalizou que privilegia a continuidade administrativa sobre a renovação ideológica. Isso favorece Pivetta, herdeiro de Mendes, mas também fortalece o bolsonarismo em capitais e cidades médias. 


A eleição para o Senado funciona como indicador da correlação de forças, num ano em que duas vagas serão renovadas. Segundo o Real Time Big Data, publicada em março, Mauro Mendes (União Brasil) lidera com 31%, seguido por Janaína Riva (MDB), com 23%; Carlos Fávaro (PSD), com 14%; José Medeiros (PL), com 11%; e Rosa Neide (PT), com 6%.


Nesse cenário, a deputada Janaína Riva (MDB) ocupa posição estratégica. Nora de Wellington Fagundes e herdeira do capital político do ex-deputado José Riva, figura histórica do MDB/PP e ex-presidente da ALMT, Janaína foi a mais votada para a Assembleia Legislativa em 2018 (51.546 votos) e 2022 (82.124 votos), com votação distribuída em 141 municípios. Esse desempenho mostra que, em Mato Grosso, o interior pesa mais que a capital na conta dos votos. Janaína tornou-se a primeira mulher a presidir a Casa Legislativa, em 2019, e o diretório do MDB-MT, em 2025. A candidata articula um discurso que combina pautas identitárias de gênero, como o feminismo, com apoio público ao bolsonarismo.


A reprovação ao governo Lula no estado oscila entre 57% e 69%, segundo pesquisas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Esse clima projeta custos eleitorais sobre as candidaturas alinhadas ao governo federal. Rosa Neide (PT), presidente do diretório da Federação Brasil da Esperança, alcança apenas 6%, refletindo a ausência de densidade eleitoral do campo progressista no interior agrícola. Para Rosa Neide, a alternativa é disputar uma cadeira de deputada federal, pois, na última eleição para a ALMT, sua candidatura foi a mais votada. Carlos Fávaro (PSD), ministro da Agricultura de Lula, fica com 14%; sua vinculação ao governo federal funciona como custo eleitoral em um território bolsonarista, de difícil penetração. A concentração de 31% das intenções de votos em Mauro Mendes indica capital político transferível, embora insuficiente para unificar a sucessão estadual. Para o governo federal, os números sinalizam que MDB e União Brasil terão que negociar apoios incompatíveis no plano estadual, enquanto a entrada de Fávaro e Medeiros fragmenta o voto de direita. Esse cenário beneficia Janaína Riva, que pode se apresentar como um perfil alternativo que falta ao bolsonarismo: uma mulher “empoderada”, capaz de dialogar com pautas sociais e identitárias sem abandonar a base ideológica conservadora.


Considerações finais


A eleição de 2026 em Mato Grosso aponta para uma tendência de polarização entre Wellington Fagundes (PL) e Otaviano Pivetta (Republicanos). Contudo, a viabilidade eleitoral de Jayme Campos (União Brasil) permanece em aberto, em razão da ampla capilaridade municipal de seu partido. Ainda assim, seu índice de rejeição, de 44,9%, impõe limites significativos às suas chances de êxito eleitoral. Nesse contexto, o estado apresenta um cenário marcado por incertezas, decorrentes da fragmentação da oferta partidária entre candidaturas de direita alinhadas ao bolsonarismo.


O bolsonarismo em Mato Grosso opera como um campo magnético: atrai votos, mas não consegue monopolizar prefeituras ou deputados. A direita bolsonarista, ou ultradireita, vence na capital e em cidades médias; a direita tradicional/conservadora domina o interior disperso. Sem um adversário externo competitivo, a esquerda está fora de cena e tende a concentrar seus esforços nas eleições para a ALMT, com figuras de longa carreira política, como Valdir Barranco e Lúdio Cabral. Desse modo, a direita mato-grossense tornou-se seu maior adversário. Resta saber se a fragmentação partidária será suficiente para abrir espaço a uma candidatura de centro ou se o antipetismo combinado ao conservadorismo continuará a funcionar como cola eleitoral em um estado onde o campo progressista não consegue, atualmente, oferecer alternativa competitiva na disputa pelo Palácio Paiaguás.



Natacha Chabalin Ferraz é professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Contato: natachabalin@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2225648095900945.


Leomir Lemos dos Santos é mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Contato: leomir.lemos.santos@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3425614558552414.



As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.















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