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ELEIÇÕES 2026 EM SERGIPE: COALIZÕES, PALANQUES DUPLOS E REFORÇO DOS AGRUPAMENTOS DE BASE FAMILIAR

Atualizado: há 18 minutos

Fernanda Rios Petrarca¹

Wilson José F. de Oliveira²


A política brasileira vem passando por modificações consideráveis nos últimos anos. O modelo do presidencialismo de coalizão, no qual o Executivo distribui cargos e recursos em troca de apoio legislativo, está em profunda transformação, com impactos sobre as disputas eleitorais nos estados e municípios do país. Por isso, a análise das eleições em Sergipe exige a articulação de, pelo menos, dois planos: o das transformações do sistema político nacional e o de suas mediações na política sergipana. Afinal, os atores locais experimentam essas mudanças a partir das lógicas próprias da política estadual, das alianças e redes de relações estabelecidas e dos recursos políticos acumulados.


Um modelo em transformação, crise ou colapso?


Por décadas, o Brasil funcionou segundo uma lógica relativamente simples: como o presidente eleito raramente tinha maioria no Congresso, precisava montar uma coalizão multipartidária para governar. Para isso, distribuía cargos, ministérios e verbas públicas entre partidos aliados, que, em troca, garantiam votos no Congresso. O cientista político Sérgio Abranches chamou esse modelo de “presidencialismo de coalizão”.


O sistema tinha muitos problemas, mas também certa funcionalidade. Desde meados dos anos 2000, porém, ele entrou em profunda transformação. Quatro processos simultâneos e interdependentes contribuíram para isso. O primeiro foi o aumento da fragmentação partidária, com a multiplicação do número de partidos e o encarecimento da construção de maiorias parlamentares. Partidos tradicionais encolheram, e parte do espaço foi ocupado por bancadas organizadas em torno de interesses corporativos, do agronegócio, da segurança pública, de igrejas evangélicas, entre outros.


O segundo processo foi uma mudança constitucional aprovada em 2015, que retirou do Executivo uma de suas principais ferramentas de barganha: o controle sobre parte do orçamento. As chamadas emendas parlamentares, recursos que deputados e senadores destinam às suas bases, passaram a ter execução obrigatória. Até então, o presidente controlava a liberação dessas verbas, podendo acelerar recursos para quem votava com o governo e retardar a execução para quem se opunha. Com a mudança, cada parlamentar passou a dispor de um orçamento mais garantido, e a Presidência perdeu a capacidade de disciplinar sua coalizão. Com isso, mesmo governos com alianças amplas podem ser derrotados em votações importantes, já que parlamentares dependem menos do Planalto para financiar seus redutos eleitorais.


O terceiro processo foi a perda de disciplina interna nas coalizões. Partidos formalmente aliados ao governo passaram a votar contra o Executivo em matérias relevantes. No governo Lula III, mesmo o pagamento de emendas em volume recorde não garantiu fidelidade dos aliados. Por fim, a polarização política passou a pressionar parlamentares a adotar posições mais rígidas. A negociação de cargos e recursos em troca de votos, que era a base do sistema, tornou-se cada vez mais difícil.  


Essas mudanças reorganizaram a cadeia de alianças e lealdades, conduzindo a um sistema mais fragmentado e instável, no qual o Executivo, para governar, precisa agradar a um Parlamento financeiramente mais autônomo.


O que mudou nas eleições?


Um dos primeiros efeitos desse processo é o enfraquecimento do “palanque presidencial” nas eleições estaduais. Quando a base do sistema era a coalizão, a eleição presidencial puxava as demais disputas: governadores buscavam se alinhar ao candidato presidencial mais forte, e deputados seguiam o palanque do governo. 


Hoje, um partido pode apoiar candidatos opostos nos planos federal e estadual sem perder necessariamente coerência eleitoral, desde que preserve sua presença territorial. A crise no plano federal fortaleceu os governadores. Com controle da máquina administrativa, acesso às emendas da bancada federal e influência sobre as verbas municipais, o governador reúne hoje uma autonomia que o Executivo federal perdeu. Quem governa um estado posiciona-se no cruzamento de fluxos de recursos federais, estaduais e municipais, transformando essa posição em uma vantagem eleitoral difícil de contestar.


Essas mudanças operam nos estados como um amplificador dos conflitos entre elites políticas. Ao remover freios institucionais que antes continham parte dessas disputas - como disciplina partidária e lealdade de coalizão -, elas expõem a estrutura mais profunda do poder local. Nesse ambiente, os agrupamentos de base familiar e territorial levam vantagem. Eles se fortalecem justamente porque sua lógica de funcionamento nunca dependeu plenamente da modernização institucional nem da coerência programática dos partidos. 


Infografia 1 - Como as mudanças nacionais contribuem para a reorganização da disputa eleitoral de 2026 em Sergipe


Infográfico sobre as eleições de 2026 em Sergipe, destacando os efeitos da fragmentação partidária, das emendas impositivas e da polarização política na reorganização da disputa estadual. A imagem apresenta os conceitos de palanques duplos, fortalecimento do governismo, parentelas políticas, conflitos entre elites e fragmentação da oposição no contexto sergipano.

Fonte: elaboração do NEPOL.


A ampliação dos conflitos entre agrupamentos políticos nas eleições de Sergipe em 2026


Ao remover os freios institucionais que continham as disputas de elite - a disciplina partidária, a lealdade de coalizão, a identidade programática -, a política sergipana revela sua estrutura mais profunda: os agrupamentos de base familiar.


Sergipe é um caso exemplar de política estruturada por famílias. Grupos organizados em torno de sobrenomes como Franco, Alves, Valadares, Amorim, Moura, Mitidieri e Reis/Ribeiro estruturam o campo político há décadas, controlando prefeituras, mandatos legislativos e redes de lealdade territorial. Quando os partidos tinham maior coerência interna, essas famílias precisavam se inserir em estruturas que, em alguma medida, constrangiam suas práticas. Hoje, operam com quase plena autonomia.


Escolhem partidos conforme o fundo eleitoral disponível, definem candidaturas por critérios familiares e territoriais e negociam palanques presidenciais como variável instrumental.


Infografia 2 - Os dois polos da disputa em Sergipe


Fonte: elaboração do NEPOL.


Dados das eleições de 2022 mostram que seis dos oito parlamentares federais eleitos por Sergipe e ao menos metade dos 24 deputados estaduais tinham vínculos diretos com algum desses agrupamentos. A janela partidária de 2026 tornou esse processo ainda mais visível: 16 dos 32 parlamentares sergipanos trocaram de partido em 30 dias - 12 deputados estaduais e quatro federais. O movimento evidencia que o campo de disputa se deslocou para o controle das candidaturas majoritárias e dos recursos orçamentários. O partido, como unidade de lealdade, simplesmente não funciona como constrangimento real para esses atores.


Ao mesmo tempo, Sergipe apresenta alta dependência de transferências federais. O Fundo de Participação dos Estados transferiu cerca de R$ 6,1 bilhões ao estado em 2024, o que torna decisivos os atores que controlam o governo estadual e a bancada federal na distribuição de recursos. 


O campo governista: uma confederação de projetos individuais sem coesão programática


A disputa pelo governo do estado em 2026 tem se apresentado como uma das mais competitivas e menos previsíveis das últimas eleições, segundo levantamento da Real Time Big Data, divulgado em maio. O atual governador, Fábio Mitidieri (PSD), registra alta aprovação - inicialmente de 71%, chegando a 68% nas últimas pesquisas -, mas tem encontrado dificuldades para convertê-la em intenção de voto. Após uma série de oscilações nas sondagens que indicavam seu favoritismo, Mitidieri encontra-se em empate técnico com o oposicionista Valmir de Francisquinho (Republicanos) que, depois de uma série de adversidades jurídicas, tem consolidado sua candidatura.


O governador Fábio Mitidieri (PSD) chega a 2026 na posição que a ciência política denomina “incumbente com recursos”. Ele controla o Executivo estadual, coordena a maior bancada de prefeitos do estado - PSD e União Brasil somam 50 das 75 prefeituras, ou 67,5% do território eleitoral - e articula a bancada federal para a alocação de R$ 415 milhões em emendas impositivas. A lógica da política de base familiar aparece aqui de forma nítida. O grupo de André Moura (União Brasil) leva para a chapa majoritária a deputada federal mais votada da história do estado, Yandra Moura (União Brasil), sua filha, além de uma rede municipal que abrange 22 prefeituras e quase 30 vice-prefeituras.


Essa capilaridade municipal não é apenas logística: ela constitui a infraestrutura real de qualquer campanha majoritária em Sergipe, onde o voto do interior ainda é fortemente estruturado pela relação entre eleitor e poder local. Cada agrupamento conduz seus próprios candidatos, enquanto o governador ancora o conjunto sem precisar subordinar completamente nenhum grupo. Trata-se de uma confederação de projetos individuais sob um guarda-chuva comum: um arranjo típico de coalizões cujo fio condutor é o acesso a recursos, e não uma identidade programática.


A adesão de Mitidieri ao palanque de Lula, com a confirmação de Rogério Carvalho (PT) na chapa, representa uma inflexão significativa em relação ao pleito de 2022. Mas trata-se menos de conversão ideológica e mais de cálculo político. O Fundo de Participação dos Estados (FPE) transferiu cerca de R$ 6,1 bilhões para Sergipe em 2024, com alta real de 9,8%. A “jogada dupla” de Mitidieri - apoiar Lula sem subordinar seu campo ao PT sergipano - expressa de forma típica a lógica do duplo palanque. Governadores apoiam o presidente, acumulam capital político de múltiplas origens e, ao mesmo tempo, evitam prender-se a uma identidade exclusiva ou submeter completamente seu projeto local. 


O bloco oposicionista: dois agrupamentos e um palanque


O campo conservador em Sergipe vive sua maior crise desde a redemocratização. A origem é precisa: em 2025, a cúpula nacional do PL entregou o diretório estadual a Rodrigo Valadares, deputado com base urbana e digital, mas pouco enraizamento no interior. O grupo de Valmir de Francisquinho, de base conservadora e interiorana, o mais forte eleitoralmente e líder nas pesquisas para governador desde 2022, deixou o partido e migrou para o Republicanos, levando consigo Emília Corrêa, de base conservadora e aracajuana, prefeita de Aracaju eleita em 2024 com margem expressiva. Mesmo que a clivagem capital/interior não constitua, em Sergipe, uma divisão política e estrutural rígida, a presença em Aracaju, que representa quase 30% do eleitorado do estado, constitui uma vantagem estrutural importante na eleição para governador. Neste sentido, a aliança entre Valmir e Emília possibilita articular a base conservadora interiorana com a da capital.


O resultado são dois blocos oposicionistas que não se articulam. No PL, Valadares e Ricardo Marques, vice-prefeito de Aracaju, têm o aval formal da família Bolsonaro, mas capital eleitoral real limitado. No Republicanos, Valmir, Emília e Eduardo Amorim concentram o maior eleitorado conservador do estado, mas não possuem o palanque nacional bolsonarista. A direita sergipana chega a 2026 com mais votos do que candidaturas capazes de captá-los, e mais candidaturas do que coordenação capaz de organizá-las.


Essa fragmentação não resulta de diferenças ideológicas substantivas. Ela é consequência direta da crise do sistema partidário. Sem a cola nacional que o bolsonarismo oferecia entre 2018 e 2022, e sem recursos institucionais capazes de coordenar estratégias, as lideranças oposicionistas chegam a 2026 disputando entre si aquilo que deveriam disputar com o governismo. 


A corrida pelo Senado: a única arena verdadeiramente aberta


Se a disputa pelo governo estadual tem um favoritismo mais claro, a disputa pelos dois assentos no Senado é a competição mais imprevisível e a mais reveladora do estado real do sistema político sergipano. Nela estão presentes todos os fenômenos analisados: a crise partidária, com Alessandro Vieira (MDB) no quinto partido em dez anos; a autonomia das parentelas, com Moura e Yandra como projeto familiar de longo prazo; o legado governista como recurso, com Rogério Carvalho e o capital associado a Marcelo Déda (ex-deputado federal pelo PT); o reposicionamento pós-bolsonarismo, com Amorim no Republicanos e Rodrigo Valadares no PL; e a persistência de terceiras forças, com Edvaldo Nogueira (PDT) fora dos dois blocos. Quem vencer as duas vagas indicará quais dessas lógicas prevaleceram.


Até o momento, o conjunto das sondagens revela um empate técnico em praticamente todos os levantamentos, com forte oscilação dos candidatos, sem candidato favorito e um eleitorado fluido. O levantamento mais recente, da Real Time Big Data, com a maior amostra da série, com 1.600 entrevistados, trouxe o resultado mais surpreendente do ciclo pré-eleitoral. André David (Republicanos) assumiu a liderança numérica com 15%, seguido por Eduardo Amorim (Republicanos) com 13% e André Moura (União Brasil) com 13%. Rodrigo Valadares (PL) marcou 12%, Edvaldo Nogueira (PDT) 11%, Rogério Carvalho (PT) 10%, Alessandro Vieira (MDB) 8%, Coronel Rocha (PL) 6% e Iran Barbosa (PSOL) 2%. Brancos e nulos somaram 5% e 6% dos eleitores ainda não definiram o voto.


O paradoxo da crise: ela fortalece quem já é forte


A conclusão analítica mais importante desta análise é também uma das menos destacadas: as mudanças no funcionamento do presidencialismo de coalizão, no plano federal, não produzem efeitos uniformes. Elas criam incertezas sobre alinhamentos, recursos e disciplina partidária, mas diferentes atores exploram essas incertezas conforme sua posição no campo político. Em muitos casos, o resultado é o reforço da estabilidade das elites políticas estaduais.


Grupos bem posicionados no poder, como o de Mitidieri, aproveitam a crise para ampliar alianças para além das fronteiras ideológicas. Atraem o PT sem se tornarem petistas, mantêm o União Brasil sem se confundirem com o bolsonarismo e constroem coalizões amplas que só são possíveis porque a polarização federal perdeu parte de sua força como organizadora da política local. Além disso, enfrentam uma oposição fragmentada entre pelo menos dois agrupamentos e partidos sem candidato presidencial unificador. Esse desequilíbrio favorece Mitidieri na disputa ao governo, mas deixa o Senado como arena aberta, onde as parentelas e as lealdades territoriais ainda podem surpreender as projeções dos blocos nacionais.


Do mesmo modo, os agrupamentos de base familiar, que estruturam a política sergipana há décadas, saem fortalecidos da crise. Com sua lógica territorial, relacional e patrimonial, eles nunca dependeram da coerência programática dos partidos. Suas raízes estão no território e nas redes de aliança, e não nas legendas. Por isso, são os atores mais bem adaptados a esse ambiente de mudança: nunca precisaram da modernização institucional que hoje está em crise. Com o desalinhamento atual, operam com quase plena autonomia: escolhem partidos pelo fundo eleitoral, definem candidaturas por critérios familiares e negociam palanques presidenciais como variável puramente instrumental. Antes de ser uma crise da democracia, trata-se de uma crise dos instrumentos de coordenação política que tornavam o sistema, apesar de suas instabilidades, relativamente previsível.


Em última análise, Sergipe confirma que as incertezas geradas pela crise institucional beneficiam quem já controla os recursos institucionais: emendas parlamentares, máquina estadual, prefeituras e redes territoriais. Ao mesmo tempo, prejudicam quem depende de estruturas partidárias ou de palanques nacionais para construir viabilidade eleitoral. Em Sergipe, onde as redes de base familiar articulam simultaneamente os níveis municipal, estadual e federal, o governador não é apenas mais um ator do sistema político. Ele é o ponto de convergência de múltiplas cadeias de lealdade que dão coerência, ainda que precária, a um campo político profundamente fragmentado. Compreender Sergipe em 2026 é compreender, em escala menor e com mais nitidez, o que o Brasil se tornou.



¹ Fernanda Rios Petrarca é professora de Sociologia na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Contato: fernandarpetrarca@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/4454844561473539.

² Wilson José F. de Oliveira é professor de Ciência Política na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e docente dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) e em Antropologia (PPGA). Contato: etnografia.politica@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/9472797070089177.



As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.














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