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O QUE AS URNAS REVELAM SOBRE A FORÇA DE LULA E FLÁVIO NAS ELEIÇÕES DE 2026 EM JUIZ DE FORA

há 11 horas
7 min de leitura

Gustavo Paravizo¹

Guilherme Duque²


Juiz de Fora sempre foi um palco importante da política brasileira. Em 1964, partiram da cidade as tropas que deflagraram o golpe contra João Goulart. Décadas depois, um ex-prefeito, Itamar Franco, assumiu a Presidência em meio à crise do impeachment de Fernando Collor e conduziu o governo em que nasceu o Plano Real. Em 2018, o atentado contra Jair Bolsonaro, na Rua Halfeld, colocou novamente a cidade no centro das atenções do país.

O peso político de Juiz de Fora também se expressa na capacidade de formar lideranças e de participar das decisões tomadas em Belo Horizonte e em Brasília. Ao longo da redemocratização, a cidade construiu presença na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e na Câmara dos Deputados. Tarcísio Delgado, Paulo Delgado, Marcus Pestana, Margarida Salomão e Júlio Delgado são exemplos de trajetórias que, por caminhos e campos políticos distintos, ligaram as disputas locais à política nacional.

Em 2026, essa importância voltou a aparecer no roteiro das campanhas presidenciais. Flávio Bolsonaro visitou Juiz de Fora no primeiro turno; Lula, que teve a agenda cancelada pela chuva, esteve na cidade no segundo. Na disputa por Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país e um dos estados mais decisivos nas eleições presidenciais, o interesse pelo município ultrapassa suas fronteiras. Juiz de Fora é o principal polo urbano da Zona da Mata, região que reúne 142 municípios e cerca de 2,2 milhões de habitantes, segundo o Censo 2022. Fazer campanha aqui significa também ampliar a presença em uma região importante para o resultado mineiro. Além disso, desde 1998, todo presidenciável que venceu na cidade também ganhou no Brasil.

Diante do peso de Juiz de Fora em uma disputa apertada, o Núcleo de Estudos sobre Política Local da Universidade Federal de Juiz de Fora (NEPOL/UFJF), em parceria com a Tribuna de Minas, reconstrói a votação dos presidenciáveis para compreender a dinâmica eleitoral do município. Ao comparar as duas etapas da eleição e percorrer as regiões e os bairros, a análise mostra como as candidaturas ampliaram seus apoios e como a cidade reafirmou sua preferência por Lula.

Toda comparação entre 2022 e 2026 precisa começar pelo tamanho do eleitorado. Juiz de Fora tinha 419,3 mil eleitores aptos em 2022 e passou a ter 395,4 mil em 2026, 23,9 mil a menos. A queda se explica, em boa parte, pela limpeza do cadastro: em 2022, títulos cancelados por falta de biometria continuaram valendo por decisão do TSE; em 2026, quem não regularizou a situação até maio ficou de fora. O efeito sobre a votação, porém, foi pequeno. No segundo turno, o número de votantes caiu apenas 5,3 mil (de 338,2 mil no primeiro turno para 332,9 mil no segundo), e os votos válidos ficaram praticamente iguais (322,6 mil no primeiro turno e 320,8 mil no segundo). O contraste sugere que a maior parte dos títulos retirados pertencia a quem já não votava. Por isso, a comparação mais segura entre as duas eleições é a dos votos de cada candidato.


Lula x Flávio Bolsonaro: um comparativo entre 2022 e 2026

O primeiro turno de 2026 foi o pior desempenho de Lula na cidade nas duas últimas eleições. Ele terminou na frente, porém obteve menos da metade dos votos válidos: caiu de 52,6% para 49,6% e perdeu 15,4 mil votos em relação a 2022. Dos 174 locais de votação em Juiz de Fora nas duas eleições, Lula melhorou seu percentual em apenas 20 delas. Com isso, a vantagem petista no primeiro turno caiu de 45,1 mil votos, em 2022, para 24,6 mil em 2026.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, fez o caminho inverso. No primeiro turno, o candidato do PL obteve 41,5% dos votos válidos, acima dos 38,4% registrados por Jair Bolsonaro na mesma etapa de 2022, e somou cerca de 5 mil votos a mais do que o pai. Nos mesmos 174 locais de votação, Flávio superou o percentual de Jair em 164. Também terminou em primeiro lugar em 36 locais, o dobro dos 18 de 2022.

Esse quadro, no entanto, foi revertido no segundo turno em uma virada nacional histórica, a primeira registrada nesse estágio do processo eleitoral desde a redemocratização. Em Minas, único estado em que o resultado do primeiro turno se inverteu, Lula passou de 5,19 milhões para 6,35 milhões de votos, um acréscimo de 1,16 milhão (22%), enquanto Flávio foi de 5,78 milhões para 6,24 milhões (464 mil, ou 8%); a desvantagem de 589 mil votos virou vantagem de 109 mil. 

Juiz de Fora acompanhou o movimento no mesmo ritmo. Entre uma votação e outra, Lula somou 33,4 mil votos no município, 22% a mais, enquanto Flávio cresceu 8,9 mil, ou 7%. A vantagem local praticamente dobrou, de 24,6 mil para 49,1 mil votos, e Lula fechou com 57,7% dos votos válidos, acima dos 56,1% do segundo turno de 2022.

Contudo, o dado mais revelador está no contraste em relação às eleições de 2022. Naquele ano, o segundo turno favoreceu Jair Bolsonaro, que ganhou 19,7 mil votos entre os turnos, contra 13,9 mil de Lula. À época, a vantagem petista encolheu de 45,1 mil para 39,3 mil. Em 2026, Lula chegou ao segundo turno com uma margem menor e saiu dele com uma margem maior. Isso significa que a cidade começou a eleição de 2026 votando menos no atual presidente do que em 2022 e terminou o segundo turno dando a ele uma vitória mais folgada do que a de quatro anos antes.

Os resultados não explicam, por si, essa recuperação, mas o contexto da campanha oferece pistas para interpretação. A primeira é a mobilização nas redes sociais, intensificada pela campanha petista entre os turnos e amplificada por canais de apoiadores. A segunda são as manifestações de rua, que ocorreram em todo o país e, em Juiz de Fora, tiveram protagonismo dos estudantes da UFJF: a caminhada de 8 de outubro, da Ágora da UFJF ao Parque Halfeld, reuniu até 20 mil pessoas, segundo os organizadores, e a de 23 de outubro terminou com a exibição do último debate em praça pública. A terceira é a presença do próprio candidato: depois da tentativa frustrada pela chuva em 30 de setembro, Lula voltou à cidade em 16 de outubro, nove dias antes da votação de segundo turno, para um ato que reuniu milhares de juiz-foranos e eleitores de toda a região, com apelo explícito a quem não havia votado no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro cancelou a visita prevista para a véspera da eleição.

A estrutura política local do PT deve ser analisada como o quarto fator. Juiz de Fora é a terceira maior cidade do país governada pelo partido, atrás apenas de Fortaleza e Contagem. Além disso, a prefeita Margarida Salomão foi reeleita em 2024 no primeiro turno, com 54% dos votos, a primeira vitória em primeiro turno na cidade desde que existe segundo turno nas eleições municipais. Mesmo com o desgaste que o desastre de fevereiro de 2026 impôs à gestão, a prefeita e outras lideranças petistas da cidade se engajaram na campanha do segundo turno e parecem ter sido bem-sucedidas em mobilizar a base do partido, que havia se dispersado no primeiro turno.

Essas quatro frentes convergem para um quinto fator, o retorno às urnas de quem não votou no primeiro turno: a abstenção na cidade caiu de 18,4% para 15,8% entre os turnos, queda de 2,6 pontos, acima da verificada no país (1,9) e semelhante à do estado (2,5).


Vantagem local com peso no resultado mineiro 

A recuperação de Lula em Juiz de Fora acompanhou um movimento observado em Minas Gerais e em outras regiões do Brasil, porém com maior intensidade entre os eleitores juizforanos. Entre os dois turnos de 2026, o petista cresceu 8,1 pontos percentuais na cidade, diante de 7,1 no estado e 6,6 no país. O petista terminou com 57,7% dos votos válidos no município, contra 50,4% em Minas e 51,8% a nível nacional. Em um estado onde a disputa foi decidida por menos de um ponto percentual, a vantagem de 49,1 mil votos em Juiz de Fora contribuiu de forma decisiva para sustentar a vitória estadual.

O resultado de 25 de outubro tem antecedentes na história política da cidade. O PT venceu em Juiz de Fora em todos os segundos turnos presidenciais desde 2002, com a exceção de 2018. Mesmo naquela derrota, Fernando Haddad recebeu 47,6% dos votos válidos, acima dos 41,8% em Minas e dos 44,9% no Brasil. A cidade acompanhou a vitória nacional de Jair Bolsonaro, mas ofereceu menos terreno à sua candidatura do que o conjunto do eleitorado mineiro e brasileiro.

Essa trajetória, contudo, também recomenda cautela em relação à classificação da cidade como um reduto lulista. Em 2002, Lula obteve 83,4% dos votos que, com o passar dos ciclos eleitorais, ficaram distantes na memória do eleitor. Enquanto o primeiro turno de 2026 mostrou espaço para o avanço e consolidação do PL, o segundo turno revelou a capacidade de Lula de ampliar novamente uma maioria local historicamente favorável ao PT. Neste sentido, vale o exame de como essa base se recompôs, seja reforçando as áreas onde o PT já era forte ou avançando sobre o território em que o adversário vencia. A resposta está no mapa da cidade.

A vantagem distribuída no mapa

O mapa do segundo turno mostra que as duas coisas aconteceram. As maiores vantagens petistas, nos tons mais escuros, seguem concentradas nas regiões Sul e Sudeste e nas bordas da área urbana: é ali que a diferença começa a ser construída. Ao mesmo tempo, o território do adversário encolheu. Jair Bolsonaro havia vencido em 27 dos 184 locais de votação em 2022, vários deles na área central; em 2026, Flávio venceu em apenas dez dos 189 pontos de votação. Lula, por sua vez, foi o mais votado em 179 locais, contra 157 quatro anos antes.

A área central da cidade manteve-se como o espaço onde a eleição foi disputada. Ali se concentram os pontos em vermelho-claro, que indicam vitórias de Lula por margens estreitas, e os poucos pontos em azul, onde Flávio ficou à frente. Esse equilíbrio contrasta com as vantagens expressivas do petista no restante da cidade. Vale a ressalva de que os resultados estão agrupados por local de votação, que não correspondem necessariamente ao bairro de residência de todos os eleitores.

Em síntese, a preferência do eleitor juizforano pelo PT na disputa presidencial se manteve, mas o resultado foi fruto de um caminho diferente do de 2022. Lula perdeu espaço na primeira votação e ampliou sua maioria na segunda, seguindo a tendência nacional; Flávio começou acima do percentual do pai e terminou abaixo dele. A vantagem final de 49.117 votos mostra a força local do petista, enquanto as diferenças no mapa revelam que essa força está longe de ser uniforme. No próximo texto, examinaremos como o crescimento entre os turnos se distribui pelas regiões e pelos bairros, e de que modo ele se relaciona com as mudanças no comparecimento.


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¹ Doutor em Ciências Sociais pela UFJF e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) - http://lattes.cnpq.br/4023782817440703

² Doutorando em Ciência Política pelo IESP-UERJ e pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) - http://lattes.cnpq.br/5003628696259100

*Agradecemos ao bolsista Miguel Carvalho pela valiosa colaboração na coleta de dados que subsidiou a elaboração deste trabalho.

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