A SUCESSÃO DE FÁTIMA BEZERRA NO RIO GRANDE DO NORTE: LIMITES DA POLARIZAÇÃO NACIONAL
- NEPOL UFJF

- há 1 dia
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Alan Daniel Freire de Lacerda¹
À primeira vista, é tentador para comentaristas e formadores de opinião analisar as disputas para governador pela lente da polarização nacional. Nesse contexto, pululam no noticiário e nos comentários as categorias “lulismo” e “bolsonarismo”, que emergem como recursos úteis para simplificar a realidade na interpretação eleitoral. O impulso é ainda maior no Nordeste, região em que os candidatos do PT à Presidência têm obtido votações superlativas desde a década retrasada, acompanhadas pelo sucesso de vários aspirantes da mesma agremiação à chefia de governos estaduais. No Rio Grande do Norte, porém, essa lente é menos frutífera, pelo menos no tocante à disputa eleitoral deste ano. Para começar, há três chapas majoritárias relevantes apresentadas ao eleitorado. Esse fato, por si só, torna o esforço de encaixar todo o cenário em categorias binárias deveras arriscado.
Neste artigo, examinarei as três chapas principais, desde os nomes para governador até aqueles que disputam as vagas ao Senado. Dados quantitativos serão mencionados ao longo do texto; nos quadros a seguir, o foco é basicamente qualitativo. Não examinarei as chapas dos candidatos não competitivos ao governo, dada sua irrelevância no cenário atual.

Os candidatos a governador e seus vices
A disputa está basicamente estruturada em torno das candidaturas do ex-prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União), do ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias (PL), e do ex-secretário estadual, Cadu Xavier (PT). A ordem aqui apresentada reflete a colocação, pelo menos neste momento, desses nomes na competição. Bezerra tem variado, a depender da sondagem, entre um terço e 40% das intenções de voto, enquanto Dias vem marcando em torno de 25% e Xavier (agora com o nome Cadu de Lula na urna) fica abaixo de um quinto do eleitorado.
O Quadro 1 expõe as características essenciais do trio de postulantes. Destaca-se o fato de que o líder atual da corrida não figura nos palanques dos dois principais candidatos presidenciais - ou seja, ele nem se alinha ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nem apoia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No plano local, todavia, Allyson certamente compõe a oposição à governadora Fátima Bezerra (PT). A primeira conclusão do quadro é, portanto, que a oposição estadual está dividida em dois nomes competitivos.
Quadro 1: Padrão ideológico da disputa de governador do Rio Grande do Norte
Candidatos/partido | Eixo esquerda/direita nacional | Eixo local | Âmbito geográfico |
Allyson Bezerra (União) | Centro-direita (ambígua) | Anti-Fátima | Oeste |
Álvaro Dias (PL) | Direita (pró-Bolsonaro) | Anti-Fátima | Leste |
Cadu Xavier (PT) | Esquerda (pró-Lula) | Pró-Fátima | Difuso |
Fonte: elaboração própria.
Apesar de sua divisão, a oposição, por meio de uma de suas candidaturas, deve vencer a eleição. A governadora tem registrado, de modo consistente nos levantamentos, aprovação em torno de 30% do eleitorado; a desaprovação passa frequentemente de 60%. Na escala ruim-péssimo-regular-bom-ótimo, a gestão petista atinge 21% de avaliação positiva (a soma de bom e ótimo) na pesquisa Metadata, cujo trabalho de campo ocorreu neste mês.
O indicador de avaliação positiva é mais adequado para aferir as chances de um candidato da situação que não seja o próprio ocupante do cargo. Minha premissa é que a impopularidade da governadora se combina ao fato de ela, já tendo sido reeleita, não poder mais se candidatar e, assim, tentar melhorar sua aprovação. Ela se reelegeu em 2022, inclusive de modo espetacular (58% dos votos válidos). Isso não pode se repetir agora. Há uma mudança na candidatura situacionista em um contexto ruim, o que limita eventuais efeitos pró-PT oriundos do plano nacional. Nesse cenário, muitos eleitores do presidente Lula optarão por outros candidatos, e não por Xavier, apesar da vitória previsível, provavelmente por larga margem, de Lula sobre Flávio Bolsonaro no estado.
Por fim, o quadro também menciona na quarta coluna o âmbito geográfico dos candidatos. O dado é importante porque Natal, a capital, está situada no leste do estado, enquanto Mossoró, a segunda maior cidade, localiza-se no oeste potiguar. Um segundo turno entre Álvaro Dias e Allyson Bezerra, caso ocorra, pode se configurar como uma competição inédita entre leste e oeste pela captação de votos para governador.
O Quadro 2 exibe os candidatos a vice-governador dos três grupos, com ênfase em suas conexões e áreas de atuação. Hermano Morais (MDB), é o vice de Allyson Bezerra. O deputado já fez parte da base situacionista na Assembleia Legislativa e é um político com longa carreira em cargos legislativos locais, originalmente ligado à família Alves. Babá Pereira (PL), por sua vez, representa a tentativa de Dias se conectar aos municípios do interior, nos quais ele é menos conhecido. Por fim, Larissa Rosado, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), representa a cidade de Mossoró, o grupo político-familiar dos Rosados e o acordo nacional e estadual de sua agremiação com o PT.
Quadro 2: Perfil dos aspirantes a vice-governador
Candidatos/partido | Razão da indicação | Área principal de atuação | Conexão |
Hermano Morais (MDB) | Partidária | Deputado estadual | Difusa |
Babá Pereira (PL) | Partidária | Municipalista | Ex-presidente da federação de municípios |
Larissa Rosado (PSB) | Partidária | Cidade de Mossoró | Familiar (grupo Rosado) |
Fonte: elaboração própria.
Destaca-se no quadro o fato de que, em todos os casos, a indicação ocorreu pelos canais partidários. Pereira é um ex-prefeito do interior e ex-presidente da federação de municípios, a Femurn, mas seu nome já estava vinculado ao PL há algum tempo. Morais era do Partido Verde (PV) e ingressou no MDB por conta da eleição, mas sua indicação para vice representou o rompimento do vice-governador Walter Alves (MDB) com a governadora. Além disso, ele já havia integrado o partido. Quanto a Rosado, o grupo familiar ao qual pertence, outrora poderoso no estado, hoje se encontra enfraquecido, e seu principal ativo é o controle do próprio PSB.
O Senado: a vantagem dos titulares e conexões com o “centrão”
A senadora Zenaide Maia (PSD) e o senador Styvenson Valentim (Podemos) concorrem à reeleição. Ambos foram eleitos em 2018. No entanto, como mostra o Quadro 3, Valentim tem a vantagem de ter concorrido no pleito de governador de 2022. Isso lhe confere, presumivelmente, maior lembrança, entre os dois, junto ao eleitorado. No cenário predominante da disputa, por assim dizer, os dois parlamentares seriam reeleitos, favorecidos pela vantagem de estarem no cargo e poderem alocar emendas e articular entregas nos municípios. É importante registrar também que Maia segue na base de apoio do presidente Lula no Congresso e provavelmente continuaria nela em caso de reeleição de Lula. A chapa majoritária de Allyson Bezerra reúne, portanto, duas forças pró-Lula, o PSD e o MDB - ambos os partidos romperam apenas com Fátima no estado, não com Lula. Isso torna a coligação pró-Allyson a mais ambígua entre as três chapas, do ponto de vista nacional.
A mesma ambiguidade, porém, não atinge as outras duas coligações majoritárias relevantes. Na chapa senatorial associada a Cadu Xavier, figuram a vereadora Samanda Alves (PT), de Natal, e o ex-deputado Rafael Motta, do Partido Democrático Trabalhista (PDT). O acerto reflete o acordo nacional e estadual dos petistas com a agremiação presidida por Carlos Lupi. Todas as forças que apoiam Xavier são pró-Fátima e pró-Lula.
Na coligação majoritária de Álvaro Dias, por sua vez, figuram o senador Styvenson Valentim e o Coronel Hélio (PL), um conhecido ativista da direita radical potiguar. Embora resistente à ideia de ser associado a Bolsonaro, Valentim, um ex-capitão da Polícia Militar, tem clara afinidade com a direita radical. Por conseguinte, todas as forças nessa composição são anti-Lula e anti-Fátima.
Completa o quadro de aspirantes a senador o vereador Tércio Tinoco (União), o primeiro vereador cadeirante da Câmara Municipal de Natal, que faz dobradinha com Maia.
Quadro 3: Perfil da disputa senatorial de 2026
Candidatos | Características pertinentes | Posição nacional | Postulante a governador |
Styvenson Valentim (PODE) | Titular no cargo; concorreu a governador em 2022 | Antipetista | Álvaro Dias (PL) |
Zenaide Maia (PSD) | Titular no cargo | Pró-Lula | Allyson Bezerra (União) |
Coronel Hélio (PL) | Vinculação com a base eleitoral da direita radical | Pró-Bolsonaro | Álvaro Dias (PL) |
Tércio Tinoco (União) | Atuação vinculada à pauta das pessoas com deficiência | Ambígua | Allyson Bezerra (União) |
Rafael Motta (PDT) | Concorreu ao mesmo cargo em 2022 | Pró-Lula | Cadu Xavier (PT) |
Samanda Alves (PT) | Vereadora em Natal | Pró-Lula | Cadu Xavier (PT) |
Fonte: elaboração própria.
Dado o escopo do artigo, não caberia aqui um tratamento detalhado das suplências para o Senado. Todavia, é possível identificar a influência do chamado “centrão” nas suplências de Zenaide Maia. Dada a dificuldade de delimitar com precisão quem pertence ao centrão, emprego aqui o termo para designar o grupo que tem sido dominante na Câmara dos Deputados, inclusive na alocação de emendas parlamentares. Netinho Lins, o primeiro suplente da senadora nesta eleição, tem atuação destacada no setor de festas e eventos e mantém vínculos, na Paraíba, com o presidente da Câmara, Hugo Motta.
A conexão com o centrão é indireta no caso da segunda suplência, que ficou com o União Brasil. Netinho Lins é filiado ao Republicanos, mesmo partido de Hugo Motta, e também possui laços com o prefeito de Natal, Paulinho Freire. Freire igualmente tem atuação destacada no setor de eventos desde o início de sua carreira política como vereador. A ambiguidade característica do “centrão” ajusta-se, assim, ao próprio perfil da chapa de Allyson Bezerra. Freire, por sinal, é apoiador declarado de Álvaro Dias e foi candidato à sucessão de Dias em 2024.
O quadro potiguar deste ano se destaca por ser uma eleição que aponta para mudança no governo estadual e possível continuidade no pleito senatorial. A governadora tem avaliação negativa, o que contribuiu para o cerco político que a impediu de se candidatar ao Senado, como previa seu plano original. Por diversas razões, o MDB e o PSD optaram por fortalecer o projeto do competidor do União Brasil. Ao fazê-lo, deixaram Fátima Bezerra sem a possibilidade de contar com um aliado como governador interino enquanto concorresse ao posto de senadora, que já ocupara entre 2015 e 2019. Os sinais da eleição proporcional, cuja análise está além dos limites deste trabalho, parecem favoráveis à esquerda potiguar neste momento. O mesmo, contudo, não pode ser dito das duas disputas majoritárias.
¹ Alan Daniel Freire de Lacerda é professor titular do Instituto de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Contato: lacerda75@msn.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/4585711088362457.
As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.



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