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FALTA APENAS COMBINAR COM O INIMIGO: O CENÁRIO ELEITORAL DE 2026 NO ESPÍRITO SANTO

André Ricardo Valle Vasco Pereira


No Espírito Santo, a disputa eleitoral segue uma lógica própria, moldada por características territoriais e políticas específicas. Um dos elementos centrais dessa configuração está na distribuição demográfica e nas peculiaridades do eleitorado capixaba.


O estado é uma das duas unidades federativas brasileiras, além de Santa Catarina, cuja capital não é o município mais populoso. Vitória, com cerca de 343 mil habitantes, é superada por cidades do seu entorno, como Serra, Cariacica e Vila Velha, que concentram parcelas mais expressivas dos habitantes do estado.


Juntas, essas cidades formam o núcleo da Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV) e reúnem 44% dos moradores. Mesmo a RMGV formal, composta por mais três cidades - Guarapari, Viana e Fundão -, chega a apenas 49% do total.


Isso significa que o peso populacional e eleitoral do interior supera o da capital e de sua região metropolitana. No interior, o eleitorado é altamente disperso, e não há forças político-partidárias capazes de ultrapassar as fronteiras citadas, de modo que uma liderança pessoal, um partido ou um bloco de opinião consiga arregimentar voto majoritário.


No estado, a proporção de evangélicos (35,4%) é superior à média nacional (26,9%). Isso se mostra relevante na medida em que a guinada do país à direita, na atual conjuntura, teve reflexos e foi particularmente aguda no ES. Este bloco de opinião mostra alguma capacidade de superar limites os territoriais impostos pelas cidades e/ou microrregiões. Até este momento, porém, isso ocorre de forma limitada.


Ou seja, a base fundamental do modelo político capixaba deriva do formato de oligarquia competitiva. O eleitorado é bastante disperso no território. Não há concentração populacional suficientemente homogênea para se impor pelo voto. No nível municipal e/ou de microrregiões, o que predomina é a competição entre grupos oligárquicos locais, com baixo grau de diferenciação programática.


Esse cenário estimula os governadores do estado a agirem como “mediadores oligárquicos”, ou seja, a organizarem a competição entre oligarquias, por meio do uso de recursos como cargos e verbas. No funcionamento ideal de tal modelo, o governador atrai lideranças de todos os pontos do espectro político, formando uma coalizão de governo superdimensionada. A distribuição de recursos e apoios eleitorais visa alocar os atores em diferentes posições, de forma a manter o controle do processo como um todo, tanto na Assembleia Legislativa quanto junto à bancada federal capixaba e aos prefeitos. Os atores que não aceitam tal interferência tendem a ser prejudicados em termos de recursos estaduais para suas bases.


A virada à direita


Ricardo Ferraço e Renato Casagrande apertam as mãos e selam aliança na disputa pelo governo do Espírito Santo em 2026. Foto: Divulgação/Governo do ES
Ricardo Ferraço e Renato Casagrande apertam as mãos e selam aliança na disputa pelo governo do Espírito Santo em 2026. Foto: Divulgação/Governo do ES

O citado funcionamento ideal começou a ser ameaçado a partir de uma mudança conjuntural iniciada em 2013, quando se deu a virada à direita de setores que possuem alguma capacidade de superar as fronteiras tradicionais das cidades (classe média urbana, evangélicos, corporações policiais). Esse deslocamento passou a tensionar o equilíbrio do modelo político estadual, tanto que, no pleito de 2022, Renato Casagrande (PSB) obteve sua reeleição ao governo do estado apenas no segundo turno, enfrentando um candidato de extrema direita, Carlos Manato (PSL). É importante notar que a disputa pelo governo estadual não ia ao segundo turno desde 1994. Na mesma ocasião, Magno Malta (PL), seguidor fiel de Bolsonaro, conquistou a vaga única para o Senado.


A trajetória do atual governador ajuda a compreender esse processo. Casagrande cumpriu seu primeiro mandato entre 2011 e 2014. Já em seu segundo mandato, iniciado em 2019, o PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu presidente, teve um bom crescimento no estado, assim como outras lideranças de direita. Surgiu, então, a possibilidade de que tal partido aglutinasse a oposição conservadora na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (ALES) e se apresentasse como opção real de poder. Todavia, a saída de Bolsonaro da legenda, em 2019, a falta de esforço pela criação do Aliança pelo Brasil, e o pouco prestígio de Carlos Manato junto ao governo federal, enfraqueceram a unidade de um bloco de centro-direita que se apresentava como uma possibilidade.


No pleito municipal de 2020, um dos deputados estaduais do referido bloco, Lorenzo Pazolini (Republicanos), conquistou a Prefeitura da capital. A eleição chama atenção pelo fato de ele ter se apresentado como um conservador moderado. Ou seja, a extrema-direita tem certa presença no ES, mas os conservadores tradicionais, que atuam como uma espécie local de Centrão, preferem manter distância de suas posturas mais radicalizadas, atraindo o voto de sua base em momentos chave. Pazolini foi reeleito em 2024 e, hoje, é o candidato de oposição mais forte diante do nome lançado por Casagrande, o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB). Ou seja, a direita tradicional e a extrema-direita podem retomar o seu “namoro”, dificultando a tendência do modelo político a uma forte unidade ao redor do governador.


A estratégia de Casagrande


Nas fases anteriores de vigência do modelo, em uma conjuntura de baixa polarização ideológica, os governadores tendiam a criar coalizões sobredimensionadas, que se somavam a alianças políticas nas cidades. O espectro político podia ir da esquerda à direita, com os eventuais trânsfugas sendo punidos com a falta de cargos e verbas. A mudança conjuntural, contudo, deslocou o eleitor médio capixaba para a direita e deu origem aos dois blocos já mencionados. Esse processo alterou o funcionamento do modelo, pois Casagrande optou por caminhar, ele mesmo, para a direita, ao mesmo tempo em que buscava isolar a extrema-direita e a esquerda. Com isso, o tamanho da coalizão de governo e das alianças foi reduzido.


Seguindo esta linha, na eleição municipal de 2024, o governador apoiou os demais prefeitos eleitos do núcleo da Grande Vitória: Weverson Meireles (Serra), Euclério Sampaio (Cariacica), e Arnaldinho Borgo (Vila Velha). Desde o início de seu terceiro mandato, em 2023, o vice-governador também passou a ganhar destaque, sinalizando que ele seria o escolhido em 2026, com apoio dos prefeitos citados e da coalizão governista. Ora, o modelo político em discussão é baseado em acordos nos quais recursos são negociados em troca da concordância com a forma pela qual o governador organiza a disputa. O cimento de tais acordos não é programático. Isso significa que a capacidade do governador de manter a unidade depende, em grande medida, de sua disposição para punir os que desafiam o seu comando.


Foi dito acima que o PSL poderia ter hegemonizado um bloco de centro-direita de oposição a Casagrande. Alguns fatores internos à direita enfraqueceram tal possibilidade. Contudo, a emergência do prefeito de Vitória como desafiante levou o governador a recalibrar sua estratégia, passando a usar mais incentivos positivos do que mecanismos de punição. Em vez de ameaçar aliados com cortes de verbas e/ou o fortalecimento de adversários locais,  passou a priorizar a atração e a preservação de aliados por meio da distribuição de cargos e recursos. Essa opção de Casagrande se deveu à decisão de manter a extrema-direita afastada da direita moderada.


Quem não chora…


A preferência por estímulos positivos em detrimento dos negativos preservou a capacidade do prefeito da capital de realizar “entregas”, ao mesmo tempo em que os demais prefeitos receberam apoio do estado para obras em seus territórios. O plano era contar com esse conjunto de aliados para eleger Ricardo Ferraço em 2026. Ao assumir o cargo de governador, com a saída de Casagrande para disputar o Senado, Ferraço só poderia exercer o mandato entre 2027 e 2030, o que abriria espaço para a acomodação de outros aliados. 


Todavia, dentro do bloco governista, surgiram desafiantes. O mais relevante deles foi o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), que tentou se cacifar como o candidato do grupo. O governador manteve a postura de não punir o aliado, tolerando, por algum tempo, a ideia de que seus apoiadores poderiam buscar a viabilização de seus nomes. Ao final, contudo, ele confirmou a indicação de Ferraço, o que levou ao rompimento público do prefeito e à sua aproximação com a candidatura de Pazolini.


Já os setores de centro-esquerda são minoritários no ES, com maior destaque para o PT e, secundariamente, o PSOL. A virada de Casagrande à direita consolidou um processo de afastamento dele em relação ao PT. O problema, para o governador, estava no fato de que, sendo um quadro dirigente do PSB - cuja legenda indicou o vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin - o rompimento aberto não era viável. Assim, Casagrande não fez campanha para Lula em 2022 e reservou uma pasta de menor relevância para o PT em seu atual mandato. Em resumo, buscou isolar tanto a extrema-direita quanto a esquerda, com o objetivo de atrair o “centro” e fidelizá-lo por meio de incentivos positivos. O plano, contudo, foi tensionado pela emergência de um desafiante da centro-direita, Pazolini.


O isolamento do PT capixaba tem levado o partido a apostar na candidatura do deputado federal Helder Salomão ao governo. Este, porém, condiciona sua decisão ao apoio público de Lula, o que ainda não ocorreu. Assim, embora lançada, a pré-candidatura permanece indefinida, o que compromete seu desempenho nas pesquisas. Ao mesmo tempo, os demais membros da elite política capixaba também não se alinham ao governo Lula, o que amplia a distância entre a aprovação do presidente e do governador no Espírito Santo - esta última significativamente superior. Nesse contexto, o desempenho mais fraco de Lula impacta diretamente sobre a viabilidade eleitoral do PT no Espírito Santo.


Por fim, a última pesquisa publicada, pelo Paraná Pesquisas, em março de 2026, indica Pazolini com 42%, contra 36,1% de Ferraço e 9,1% de Salomão. No segundo turno, o prefeito vence o vice-governador por 47,3% a 40,8%. A rejeição do nome do PT é a mais alta (29,9%), sendo a de Pazolini a mais baixa (12,3%). Casagrande tem 57,8% para o Senado, com 77,6% de aprovação e 61,9% de “ótimo” e “bom”. Já Flávio Bolsonaro venceria Lula no segundo turno (49,5% a 39,7%). É interessante notar que, mesmo Ratinho Jr. (PSD), que tem apenas 3,3% na estimulada, empataria com Lula em simulações de segundo turno (40,3% a 41%), indicando que candidaturas de direita tendem a performar bem no estado. Lula é desaprovado por 54,1% e aprovado por 42%. Entre fevereiro de 2025 e março de 2026, Pazolini manteve-se à frente, com intenções estáveis (média de 46,2%). O quadro que se delineia, portanto, é o seguinte:


  • A extrema-direita está sob a direção do senador Magno Malta (PL). A estratégia do grupo é a de eleger a filha dele, Maguinha Malta, ao Senado. Houve negociações com Pazolini para lhe dar apoio, mas Malta exigiu um posicionamento público do prefeito em defesa de Bolsonaro, o que foi feito de forma tímida. Posteriormente, contudo, em uma reunião nacional do PL, Flávio Bolsonaro, já como pré-candidato à presidência, revelou que o partido deve fechar com Pazolini. Caso esse movimento se confirme, a estratégia de Casagrande de isolar a extrema-direita tende a se enfraquecer.


  • Parte da direita tradicional se aglutina ao redor de Pazolini. Além da possível adesão do PL, ele já conta com o apoio de Arnaldinho Borgo, prefeito de Vila Velha. O desempenho de Flávio Bolsonaro no ES é superior ao de Lula, de forma que a unificação dos palanques beneficia esse bloco. Ao mesmo tempo, cresce sua capacidade de promover fissuras na aliança governista, como já está ocorrendo. Mantida essa dinâmica, é plausível que o candidato da situação enfrente um processo gradual de abandono por parte de aliados formais.


  • A situação tem o comando de Casagrande, com governo muito bem avaliado e forte preferência ao Senado. Seu candidato fica em segundo lugar nas pesquisas, mas conta com a transferência da aprovação do governador, seu apoio na campanha, o peso da máquina do estado, a relativa coesão do bloco e mais recursos de campanha, devido ao tamanho da aliança partidária, que é maior que a de Pazolini.


  • A oposição de centro-esquerda saiu com uma pré-candidatura pelo PT, que não está confirmada. O partido tem um senador, Fabiano Contarato, e busca mantê-lo no cargo, além de ter declarado apoio a Casagrande como segundo nome. Também pretende preservar e/ou ampliar sua representação na Câmara Federal (2 de 10 vagas) e na ALES (2 vagas de 30). O PSOL deseja apoiar o nome do PT e busca reeleger sua deputada estadual. Apesar de todos os gestos na direção de Casagrande, ele se mantém afastado do partido, seguindo a estratégia de isolamento da esquerda.  Resta a esse bloco se vincular ao desempenho de Lula no estado, que até este momento parece limitado.


Em síntese, os atores sabem o que querem, porém, falta apenas combinar com o inimigo. Nesse sentido, a definição do cenário eleitoral dependerá da capacidade dos atores de transformar estratégias políticas em coordenação efetiva, em um ambiente marcado por fragmentação, competição intra-bloco e alianças instáveis. Esse desafio é ainda mais complexo em um estado como o Espírito Santo, onde a dispersão territorial do eleitorado e a força das dinâmicas locais dificultam a construção de maiorias amplas e estáveis. Como os objetivos em disputa são, em grande medida, mutuamente excludentes, o desfecho tende a permanecer aberto, condicionado à habilidade dos diferentes grupos em construir convergências, ainda que provisórias, em um tabuleiro político em constante reconfiguração.



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As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.



André Ricardo Valle Vasco Pereira é professor no Departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Contato: andre.r.pereira@ufes.br. Lattes: https://lattes.cnpq.br/2814186365798017.

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