CÁ COMO LÁ: O PANORAMA DA ELEIÇÃO DE 2026 NO RIO GRANDE DO SUL
- NEPOL UFJF

- há 16 horas
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Alvaro Augusto de Borba Barreto¹
O cenário atual da eleição de 2026 no Rio Grande do Sul é o de repetição, em âmbito estadual, da disputa nacional. As principais forças estão divididas em dois blocos, capitaneados pelas candidaturas a governador. De um lado, uma frente de esquerda apresenta Juliana Brizola (PDT), tendo como vice Edegar Pretto (PT), com apoio de PSOL, PSB, PV, PCdoB e Rede, e que será o palanque de Lula no estado. Do outro lado, representando o bloco de sustentação do bolsonarismo, aparece Luciano Zucco (PL), tendo Silvana Covatti (PP) como vice, e o apoio de outros partidos de direita, como Novo, Podemos e Republicanos.
A nacionalização da disputa produziu efeitos na definição das chapas. O PT gaúcho e Edegar Pretto – que foi candidato a governador em 2022 e era o pré-candidato com boas perspectivas de sucesso – foram convencidos (ou forçados) pelo Diretório Nacional do partido e por Lula a abrir mão da candidatura, apoiar Juliana Brizola e, com isto, consolidar o apoio do PDT à reeleição do presidente. Essa aliança traz uma novidade relevante para o cenário eleitoral: é a primeira vez que o PT deixa de ter candidato próprio ao governo do estado desde a sua estreia, em 1982, sendo que, nas 11 eleições até então disputadas, conquistou o Palácio Piratini em duas oportunidades (1998, com Olívio Dutra, e 2010, com Tarso Genro).
A cabeça de chapa Juliana Brizola, para além do mítico sobrenome e o fato de ser neta de Leonel Brizola, possui uma carreira de âmbito estadual: elegeu-se vereadora em 2008 e depois se tornou deputada estadual por três mandatos (2010, 2014, 2018). Em 2022, ficou como suplente de deputada federal, além de ter tentado, sem sucesso, ser prefeita de Porto Alegre, em 2020 e em 2024, ocasiões em que não alcançou o 2º turno. Ela também concorreu à vice-prefeita, em 2016, na chapa liderada pelo atual prefeito da capital, Sebastião Melo (MDB), que foi derrotada no 2º turno. Contudo, o PDT tem relevante trajetória no estado, elegeu por exemplo Alceu Collares como governador em 1990, o que o coloca como uma das quatro forças políticas tradicionais desde a reforma partidária de 1980, ao lado de MDB, PT e PP.
À direita do espectro político, Zucco se aventura pela primeira vez a concorrer a um cargo do Poder Executivo. Ele tem carreira política curta, mas exitosa: foi eleito deputado estadual em 2018 e, na eleição seguinte, tornou-se deputado federal, consagrando-se, nas duas oportunidades, como o candidato mais votado do estado. Filho de militar do exército e ele próprio tenente-coronel, nome de urna que adotou nas campanhas até aqui, constitui-se como da tropa de choque do bolsonarismo, apresentando-se como candidato conservador e de posições extremadas. Na atual pré-campanha, acompanhando os passos do candidato a presidente do seu partido, Flávio Bolsonaro, tem procurado amenizar o seu discurso e se apresentar como mais moderado do que até aqui sempre foi e fez questão de querer ser.
A sua vice é Silvana Covatti, filiada ao PP, partido com larga trajetória no estado, herdeiro direto da Arena do período ditatorial e principal porta-voz do agronegócio estadual. Ela é casada com o ex-deputado federal e estadual Vilson Covatti, mãe do atual deputado federal em segundo mandato Covatti Filho. Está em seu quinto mandato consecutivo como deputada estadual, cuja trajetória iniciou em 2006.
Pesquisa da Quaest, divulgada em 30 de abril, indica que essas duas candidaturas dominam as intenções de voto no momento, repetindo a tendência que o mesmo instituto observou para presidente no Rio Grande do Sul, mas com posições invertidas. No 1º turno, Juliana Brizola lidera com 24%, seguida por Zucco, com 21%. Na corrida pela presidência da República, quem lidera é Flávio Bolsonaro (31%), seguido por Lula (29%). Porém, o dado mais destacado da pesquisa para governador é o índice de indecisos: 34% no 1º turno, o que aponta que o cenário da disputa está em aberto e que qualquer tendência deve ser tomada com precaução.
É esta perspectiva que impulsiona o candidato em terceiro lugar na pesquisa, com 6% de intenção de votos, Gabriel Souza (MDB). Atual vice-governador e deputado estadual por dois mandatos (2014, 2018), ele está vinculado a um partido forte no âmbito estadual, que já elegeu o governador em quatro oportunidades (1986, com Pedro Simon; 1994, com Antônio Britto; 2002, com Germano Rigotto; 2014, com José Ivo Sartori). Apesar da carreira política de mais de 10 anos, ele é relativamente desconhecido do eleitorado, o que é, ao mesmo tempo, sua fragilidade e sua fortaleza. A fragilidade é que, além de ter de se apresentar como a continuidade do governo Leite, que tem 51% de aprovação e um saldo positivo de 12 pontos percentuais entre aprovação e desaprovação, ele larga bastante atrás dos principais candidatos, seja na intenção de votos, seja no reconhecimento popular. A fortaleza é que, por ser um candidato de posições comedidas e fala tranquila, ele pode cativar uma parte do eleitorado que não o conhece, especialmente se a temperatura da disputa entre Brizola e Zucco alcançar níveis muito elevados, o que pode desagradar uma parte do eleitorado, apesar do clima geral de divisão. Precedente existe: na eleição de 2002, quando Tarso Genro (PT) e Antônio Britto (PPS) acirraram a disputa, Germano Rigotto (PMDB) conseguiu se apresentar como opção apaziguadora e venceu a eleição, apesar de começar a disputa com cerca de 3% nas intenções de voto. Com 34% de indecisos em 2026, há espaço para que outras alternativas cresçam, resta saber se Gabriel Souza conseguirá cativar esse eleitorado ainda não convencido a apoiar os atuais líderes na preferência.

Há quatro anos, essas mesmas forças protagonizaram a eleição para governador, com outras lideranças, em contexto diferente, mas que, em grande medida, reproduz o agora vivenciado. O PL tinha Onyx Lorenzoni como o candidato bolsonarista, que liderou com folga o 1º turno, mas foi derrotado no 2º. Quem o venceu foi Eduardo Leite (PSDB), então tecnicamente candidato à reeleição, ainda que tenha renunciado em abril de 2022 para tentar, sem sucesso, ser o candidato dos tucanos à Presidência da República. Porém, Leite só conseguiu essa vitória por causa do apoio que recebeu dos eleitores do PT e de Pretto, que ficara em 3º lugar no 1º turno, a menos de 3 mil votos dele, o que só mostra a força do eleitorado petista. A votação de 2022 deixa isso claro: Onyx praticamente não ampliou a sua votação entre o 1º e o 2º turno (cresceu 400 mil votos), enquanto Leite mais do que a dobrou, tendo passado de 1,7 milhões para 3,6 milhões. Logo, o PL perdeu a eleição para governador, mas Leite a venceu não por causa de seus apoiadores, e sim com os votos recebidos do PT.
Há outras pré-candidaturas ao governo do estado, mas, salvo alguma surpresa, vão apenas figurar na disputa. Uma delas é Marcelo Maranata, ex-prefeito de Guaíba, município da região metropolitana de Porto Alegre, que é candidato do PSDB, partido que já foi grande no estado, elegeu o governador em três oportunidades (2006, com Yeda Crusius; 2018 e 2022, com Leite), mas que agora tenta apenas se manter vivo, a exemplo do que acontece no país. O PSTU vai novamente marcar presença, desta vez com Rejane Oliveira, ex-presidente do CPERS, o sindicato dos professores estaduais.
A disputa ao Senado

A nacionalização se repete para o Senado, cuja disputa se mostra ainda mais imprevisível. Cada bloco procurou reunir alguns nomes de peso, seja pela trajetória histórica, seja pela relevância recente.
Na frente de esquerda, os nomes são: Manuela d’Ávila (PSOL), que retoma a carreira após um hiato de seis anos, e possui no currículo ter sido deputada estadual (2014), federal (2006-2010), candidata não eleita a vice-presidente da República em 2018 e três vezes a prefeita de Porto Alegre (2008, 2012, 2020); e Paulo Pimenta (PT), seis mandatos consecutivos como deputado federal (2002-2022), ex-ministro no governo Lula, além de vereador e vice-prefeito em Santa Maria e deputado estadual.
Os currículos robustos dos candidatos a senador da esquerda contrastam com o noviciado dos nomes da direita, cuja principal credencial é serem fiéis quadros do bolsonarismo no estado: Marcel van Hattem (Novo), deputado federal em segundo mandato, ex-deputado estadual (2014) e ex-vereador em Dois Irmãos (2004); e Ubiratan Sanderson (PL), deputado federal em segundo mandato.
O MDB também traz um candidato com carreira política destacada, o ex-governador Rigotto (2002), que acumula os cargos de vereador (1976), deputado estadual (1982, 1986), deputado federal (1990, 1994, 1998), e agora retoma a carreira depois de vários insucessos (reeleição a governador em 2006, senador em 2010, vice-presidente da república em 2018) e de um hiato de oito anos sem disputar cargo eletivo. Ao lado dele, está Frederico Antunes (PSD), um quadro de expressão estadual, que exerce o sétimo mandato consecutivo na Assembleia Legislativa (1998-2022).
A pesquisa Quaest divulgada no final de abril apontou a liderança de Manuela (14%) e de Rigotto (12%), seguidos de perto por Van Hattem e Pimenta (ambos com 9%), Sanderson (7%) e com Antunes mais distante (2%). A exemplo da pesquisa para governador, há um elevado contingente de indecisos (28%). Portanto, o cenário é incerto e sujeito a alterações radicais. Quando a campanha começar, o eleitor conhecerá melhor os nomes na disputa. Como há duas vagas disponíveis e dois votos a serem atribuídos, há dúvidas também sobre como o eleitor vai se comportar, se fará escolhas convergentes com a candidatura a governador, se efetivamente vai utilizar os dois votos e, em caso positivo, como o fará.
Do lado da esquerda, a estratégia parece clara: buscar as duas cadeiras e, por isso, a indicação de nomes já conhecidos. A direita parece apostar no voto conservador, independentemente da robustez dos candidatos, enquanto aquela que se pretende terceira via – a chapa MDB-PSD – se credencia a disputar apenas uma das vagas, pois não apresentou dois nomes competitivos.
Os pleitos proporcionais: o que esperar da eleição para deputados federais e estaduais
Nas disputas para deputado estadual e federal, a tendência é se repetir o panorama multipartidário que tem caracterizado o estado. Em 2022, 13 partidos ou federações conquistaram ao menos uma das 31 cadeiras de deputado federal, com destaque para PT-PCdoB-PV (7) e PL (4), as mesmas forças que disputaram a Presidência da República em 2022 e o farão novamente em 2026 e que estão presentes nas até então mais competitivas candidaturas a governador.
Na Assembleia Legislativa, em que há 55 vagas disponíveis, o cenário em 2022 foi ainda mais dividido, com 14 partidos ou federações formando bancada. As mais destacadas, foram: PT-PCdoB-PV (12), PL (5), mas também se manifestou a força das tradições políticas estaduais, com PP obtendo 7 cadeiras e MDB, 6. Para dimensionar este destaque, a federação PSDB-Cidadania, que elegeu o governador, obteve apenas 3 deputados federais e 5 estaduais.
Obviamente, as forças partidárias querem ampliar a quantidade de deputados que conseguirão eleger e, seguramente, haverá mudanças em relação à distribuição das bancadas de quatro anos atrás. Ao mesmo tempo, as lideranças partidárias sabem que, isoladamente, nenhuma delas conseguirá controlar as bancadas federais e estaduais, e que, por isso, precisarão de acordos pós-eleitorais para formar maioria e assim controlar cargos, o plenário e ter os apoios necessários para os futuros governos estadual e federal, assim como, se for o caso, fortalecerem-se como a ou as oposições. Elas também reconhecem que o protagonismo na disputa para o governo do estado é ativo relevante na disputa parlamentar, ajuda a fortalecer a quantidade de deputados que conseguirão eleger, mas não é garantia de formar bancadas expressivas, como demonstra a situação do governador Eduardo Leite em 2022.
É que as regras de nosso sistema eleitoral fazem com quem lideranças locais ou regionais, tradições partidárias e, mais recentemente, desconhecidos com engajamento nas redes sociais e grupos focados em determinadas causas, sejam capazes de alcançar a densidade de votos necessária para conquistar uma ou mais cadeiras, o que produz, no conjunto, a fragmentação das bancadas. Essa tendência se manifesta desde a reforma partidária do início dos anos 1980 e nada indica que vá sofrer alteração radical, ainda que o número de partidos com representação venha se reduzindo desde a implantação da cláusula de desempenho, em 2018.
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As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.
¹ Alvaro Augusto de Borba Barreto é professor Titular do Instituto de Filosofia, Sociologia e Política da Universidade Federal de Pelotas (IFISP/UFPel). Contato: albarret.sul@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5864253978025307.


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