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RUPTURAS E INDEFINIÇÕES NA CORRIDA PELO GOVERNO DO MARANHÃO

Hesaú Rômulo¹


Em abril de 2026, o cenário político maranhense segue indefinido e os descaminhos da disputa pelo Palácio dos Leões ainda prometem novidades. No entanto, há um quadro momentâneo interessante de se analisar. Despontam como candidatos competitivos, Eduardo Braide (PSD), ex-prefeito de São Luís que capitaliza um sentimento anti-familiar; Orleans Brandão (MDB), sobrinho do governador Carlos Brandão e herdeiro de um projeto doméstico que tensiona coalizões partidárias tradicionais; Felipe Camarão (PT), vice-governador, rompido com Brandão, e que tenta gravitar a coalizão PT-PSB-PCdoB com base progressista; e o outsider Lahesio Bonfim (Novo), que busca agregar o bolsonarismo no estado.


Orleans Brandão, Felipe Camarão, Carlos Braide e Lahesio Bonfim. Os principais nomes, até aqui, na disputa pelo governo do estado. Fonte: elaboração do NEPOL com imagens da internet.
Orleans Brandão, Felipe Camarão, Carlos Braide e Lahesio Bonfim. Os principais nomes, até aqui, na disputa pelo governo do estado. Fonte: elaboração do NEPOL com imagens da internet.

A pesquisa Quaest, divulgada em 18 de março de 2026 e realizada entre 12 e 16 de março testou quatro cenários de primeiro turno e três de segundo. No cenário 1, Braide lidera com 35%, seguido por Orleans Brandão (24%), Lahesio Bonfim (11%) e Felipe Camarão (7%), com 8% indecisos e 15% branco/nulo/não vai votar. No cenário 2, Braide sobe para 37%, Orleans para 26%, Bonfim para 13%, 7% indecisos e 17% rejeição. Cenário 3: Braide em 39%, Orleans em 26%, Camarão em 9%, 7% indecisos e 19% rejeição. No cenário 4, sem Braide, Orleans atinge 31%, Bonfim 19%, Camarão 16%, 8% indecisos e 26% rejeição.


Em segundos turnos, Braide domina: contra Orleans, 46% a 33% (5% indecisos, 16% rejeição); contra Bonfim, 52% a 23% (indecisos não especificados, 19% rejeição); e Orleans contra Bonfim, 42% a 27% (8% indecisos, 23% rejeição). Esses números, apontam uma correlação de forças onde Braide captura indecisos e bolsonaristas no sul do estado, enquanto o clã Brandão-Orleans oscila com rejeição alta.


Eu vejo essa conjuntura como uma totalidade complexa em tempo político curto, com rupturas na máquina estadual e verticalização lulista esmagando cenários locais. A indicação de Orleans pelo tio governador evoca uma racionalidade familiar que eclipsa a lógica de coalizões mínimas vencedoras, invertendo premissas de estabilidade multipartidária em prol de laços sanguíneos. Há uma disputa pela preferência do eleitorado lulista (e seu palanque) e a desarticulação de adversários a partir da sanha cartorial das legendas partidárias.

 

Como analisei em textos anteriores, trata-se de um suspense cinematográfico: Carlos Brando, eleito por coalizão ampla PT-PSB, renunciou ao Senado para emplacar o sobrinho filiado tardiamente ao MDB, tensionando o pacto progressista e priorizando projetos dinásticos sobre critérios de militância e ideologia. Temos uma distorção de alianças para ação governamental comum, agora subordinadas a uma escolha top-down que ignora densidade partidária.


Camarão, com base coesa, mas limitada, enfrenta dilemas táticos: apoio a Braide para união anti-familiar (elevando PSD a 39% em alguns cenários) ou eventual fragmentação política, ecoando incongruências multiníveis entre PT nacional e estruturas locais. Outsiders como Bonfim embaralham a corrida, mas o vácuo anti-sarneísta impulsiona Braide como polo de centro-direita.


No espaço relacional dominado por São Luís, onde Braide dobra capital, um apoio global de Lula poderia triplicar o PT, pondo em xeque Orleans nos próximos meses. Essa indefinição de chapas (PT-PSD, por exemplo) não é exclusividade do caso maranhense.  Projeções indicam alta probabilidade de Braide no primeiro turno, se a ala progressista optar por vitória ampla contra o clã Brandão, redefinindo governabilidade subnacional em tempos de incerteza.


De outro lado, Braide sinaliza nas primeiras semanas de sua pré-candidatura uma clara falta de interesse em projetar coalizões para a campanha. Em vez disso, tem priorizado agendas no continente e feito acenos a um eleitorado mais conservador. Parece ser uma estratégia bem executada, mas tem um prazo de validade se olharmos para as convenções partidárias que estão na esquina.


A sucessão no Palácio dos Leões emerge como o eixo central dessa trama, com forças em rota de colisão que expõem os descaminhos da política maranhense: de um lado, o clã Brando impõe uma herança familiar que recusa a lógica partidária compartilhada, esticando a coalizão progressista até o limite e gerando fissuras judiciais potenciais; do outro, Camarão e sua base PT-PSB-PCdoB debatem se mantêm lealdade a um arranjo rachado ou migram para táticas de união ampla, enquanto Braide paira como incógnita, com magnitude em São Luís, mas ainda envolto em incertezas sobre alianças bolsonaristas ou negociações com partidos do centrão nacional.


Esses descaminhos revelam uma política maranhense marcada por incongruências multiníveis, onde o subnacional vira laboratório de elasticidade partidária, mas ao custo de governabilidade futura: Orleans, com 24-31% nos cenários Quaest, depende da máquina estadual, mas sua rejeição alta sinaliza o desgaste de uma racionalidade familiar experimental demais para durar, especialmente com verticalizações nacionais punindo desvios locais.


A incerteza sobre os movimentos de Braide amplifica o suspense, pois o ex-prefeito, líder em todos os primeiros turnos testados, ainda não definiu se priorizará o vácuo anti-sarneíssta com PSD puro ou buscará ampliação via apoios fragmentados de outsiders como Bonfim, cujos 11-19% indicam um eleitorado volátil no sul do estado. Eu antevejo que sua decisão - entre isolamento centro-direita ou coalizões táticas - definirá se o Palácio dos Leões escapará do clã ou perpetuará o ciclo dinástico, em um tempo de prazos curtos que acelera colisões inevitáveis.


No espaço relacional dominado por São Luís (Infográfico 1), um eventual apoio lulista a Braide poderia triplicar forças progressistas, pondo Orleans em xeque definitivo, mas os descaminhos atuais sugerem que o Maranhão navega entre tradição clientelista e aspirações anti-familiares, com Braide como pivô de uma redefinição subnacional ainda incerta.


Infográfico 1 - Principais competidores na disputa pelo governo do estado do Maranhão


Fonte: elaboração do NEPOL.
Fonte: elaboração do NEPOL.

De outro lado, Braide sinaliza nas primeiras semanas de sua pré-candidatura uma clara falta de interesse em projetar coalizões para a campanha. Em vez disso, tem priorizado agendas no continente e feito acenos a um eleitorado mais conservador. Parece ser uma estratégia bem executada, mas tem um prazo de validade se olharmos para as convenções partidárias que estão na esquina.


A sucessão no Palácio dos Leões emerge como o eixo central dessa trama, com forças em rota de colisão que expõem os descaminhos da política maranhense: de um lado, o clã Brando impõe uma herança familiar que recusa a lógica partidária compartilhada, esticando a coalizão progressista até o limite e gerando fissuras judiciais potenciais; do outro, Camarão e sua base PT-PSB-PCdoB debatem se mantêm lealdade a um arranjo rachado ou migram para táticas de união ampla, enquanto Braide paira como incógnita, com magnitude em São Luís, mas ainda envolto em incertezas sobre alianças bolsonaristas ou negociações com partidos do centrão nacional.


Esses descaminhos revelam uma política maranhense marcada por incongruências multiníveis, onde o subnacional vira laboratório de elasticidade partidária, mas ao custo de governabilidade futura: Orleans, com 24-31% nos cenários Quaest, depende da máquina estadual, mas sua rejeição alta sinaliza o desgaste de uma racionalidade familiar experimental demais para durar, especialmente com verticalizações nacionais punindo desvios locais.


A incerteza sobre os movimentos de Braide amplifica o suspense, pois o ex-prefeito, líder em todos os primeiros turnos testados, ainda não definiu se priorizará o vácuo anti-sarneíssta com PSD puro ou buscará ampliação via apoios fragmentados de outsiders como Bonfim, cujos 11-19% indicam um eleitorado volátil no sul do estado. Eu antevejo que sua decisão — entre isolamento centro-direita ou coalizões táticas — definirá se o Palácio dos Leões escapará do clã ou perpetuará o ciclo dinástico, em um tempo de prazos curtos que acelera colisões inevitáveis.


No espaço relacional dominado por São Luís, um eventual apoio lulista a Braide poderia triplicar forças progressistas, pondo Orleans em xeque definitivo, mas os descaminhos atuais sugerem que o Maranhão navega entre tradição clientelista e aspirações anti-familiares, com Braide como pivô de uma redefinição subnacional ainda incerta.

 

Os descaminhos da sucessão também se manifestam na tensão bicameral que o Brasil impõe ao jogo subnacional, onde senadores maranhenses, sensíveis às dinâmicas locais, enfrentam o dilema de endossar o projeto Brandão ou arriscar desgaste com o governador. Como observo em análises prévias sobre federalismo e câmaras altas, essa configuração multiplica vetos e complica coalizões, transformando o Palácio dos Leões em arena de negociações que transcendem o estadual para ecoar em Brasília.


Enquanto isso, as forças em rota de colisão geram um vácuo que outsiders exploram: Lahesio Bonfim, com sua ascensão nos cenários sem Braide, representa frações em crise atraindo eleitores polarizados e anti-establishment no interior. Eu percebo aqui um paralelo com os ciclos clientelistas históricos do Maranhão, onde o clã familiar resiste, mas o eleitorado, fatigado por promessas dinásticas, busca rupturas que Braide ainda hesita em liderar plenamente, reencenando um quadro parecido com o da eleição de Dino em 2014, por exemplo.


A rotação de forças acelera com os prazos de abril, e a incógnita de Braide — prefeito com bagagem executiva mas sem clareza sobre seu eixo ideológico final — mantém o tabuleiro em aberto, como um vórtice político onde projeções obsessivas colidem com realidades mutáveis. Se ele optar por uma frente ampla anti-Orleans, os números da Quaest sugerem vitória esmagadora; caso contrário, o clã pode recompor sua máquina, prolongando os descaminhos em um segundo turno imprevisível.


Essa incerteza sobre Braide reflete os limites da política maranhense contemporânea, presa entre heranças sarneístas e aspirações modernas, com Camarão como possível articulador de uma terceira via progressista, em busca frenética por articular nacionalmente um apoio do PT, que oxigenaria sua campanha em busca de uma ascenção tardia, mas competitiva. Camarão tenta se desvencilhar  tanto do familismo quanto  da narrativa anti-establishsment de Braide e Bonfim. No papel é um bom plano, mas deveria ter sido colocado em prática pelo menos dez meses atrás. Agora que ele foi  oficializado como preferido pelo PT, eu aponto que apenas uma correlação de forças renovada, ancorada em governabilidade compartilhada, romperá o ciclo de choques partidários, pavimentando uma sucessão que priorize a disputa eleitoral para além de questões familiares.


¹ Hesaú Rômulo é professor do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT). Contato: hesauromulo@ufnt.edu.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3453200000314353


*****


As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.


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