ELEIÇÕES NO CEARÁ: INCERTEZAS E REALINHAMENTOS EM 2026
- NEPOL UFJF

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Clayton M. Cunha Filho¹
Os números da mais recente pesquisa O Povo/Datafolha apontam que o ex-governador e pré-candidato de oposição nas eleições estaduais do Ceará, Ciro Gomes (PSDB), lidera as intenções de voto com 47%, contra 32% do atual governador, Elmano de Freitas (PT).
Em um dos cenários analisados (ver Quadro 1), confirma-se a percepção que já se anunciava: de que o pleito de 2026 seria um dos mais disputados no estado desde 2014, quando o ex-governador Camilo Santana (PT) derrotou Eunício Oliveira (MDB) por 53,35% contra 46,65% no segundo turno, após virtual empate no primeiro (47,81% x 46,41%, respectivamente).
Desde a redemocratização, vale destacar que apenas em 2002 e 2014 houve segundo turno nas eleições estaduais, sendo todas as demais disputas, desde 1986, decididas em turno único. Ainda assim, o cenário atual é marcado sobretudo pela incerteza: a maioria dos candidatos aos cargos majoritários ainda não foi definida e, além disso, há dúvidas até mesmo se os dois líderes da pesquisa de fato estarão nas urnas eletrônicas em outubro.
Quadro 1: Pesquisa Estimulada O Povo/Datafolha, Cenário A
Pergunta: Se a eleição para governador do estado do Ceará fosse hoje e os possíveis candidatos fossem estes, em quem você votaria? | |
Ciro Gomes (PSDB) | 47% |
Elmano de Freitas (PT) | 32% |
Eduardo Girão (NOVO) | 5% |
Professor Jarir Pereira (PSOL) | 2% |
Zé Batista (PSTU) | 2% |
Em Branco/ Nulo / Nenhum | 10% |
Não Sabe | 2% |
Fonte: Reproduzido de O Povo, 23/03/2026. Acesso em 06/04/2026.
As eleições de 2026 e os ecos do passado recente

As próximas eleições no Ceará se apresentam, em muitos sentidos, como uma reverberação de realinhamentos de atores e alianças locais iniciados em 2022 e intensificados a partir de desdobramentos do segundo turno da eleição à prefeitura de Fortaleza em 2024. Até 2022 o estado era governado pelo atual ministro da Educação, Camilo Santana (PT), em forte aliança com o “Grupo Ferreira Gomes”, liderado pelo clã familiar de Sobral cujos principais nomes eram o senador Cid Gomes e o ex-governador e várias vezes candidato presidencial, Ciro Gomes. Essa aliança, iniciada em 2006, levou Cid ao governo do estado por dois mandatos e, posteriormente, viabilizou a eleição de Camilo Santana em 2014.
Durante seu primeiro mandato (2015–2018), Camilo Santana foi frequentemente apontado como politicamente dependente do grupo Ferreira Gomes, apesar de filiado ao PT. Ao longo de seu segundo mandato (2019–2022), no entanto, passou a construir uma base própria de poder, tanto dentro do partido quanto no sistema político estadual, articulando redes de prefeitos e deputados em diferentes legendas da base governista, como PSD, MDB, Republicanos e PP.
Quando renunciou ao governo, em abril de 2022, para disputar o Senado, Santana deixou como governadora Izolda Cela, então no PDT como o restante do grupo Ferreira Gomes, que reunia condições para disputar a reeleição. A disputa pela sucessão, no entanto, expôs fissuras na aliança: enquanto Santana sinalizava apoio à continuidade de Izolda, o grupo mais alinhado a Ciro Gomes defendia a candidatura do ex-prefeito Roberto Cláudio. O impasse resultou na vitória da ala cirista, com a oficialização de Roberto Cláudio, levando o PT a romper a aliança e lançar Elmano de Freitas.
A vitória de Elmano no primeiro turno, com 54,02% dos votos, não apenas consolidou o racha, como também reposicionou os principais atores do sistema político estadual, colocando em lados opostos Cid e Ciro Gomes. Esse distanciamento se aprofundou em 2024, quando o PT lançou Evandro Leitão à prefeitura de Fortaleza, em detrimento da reeleição de José Sarto (PDT). Após um início competitivo, o então prefeito perdeu fôlego e ficou fora do segundo turno, disputado entre André Fernandes (PL) e Leitão (PT). Este último venceu por margem mínima (50,38% a 49,62%), mas o dado mais relevante foi o apoio explícito de lideranças do grupo Ferreira Gomes - como Roberto Cláudio, Ciro Gomes e outros membros notáveis - ao candidato do PL. Esse movimento abriu caminho, já em 2025, para uma aproximação entre Fernandes e Ciro, baseada em um acordo político que prevê apoio mútuo: de um lado, o respaldo a uma eventual candidatura de Ciro ao governo; de outro, o apoio à candidatura de Alcides Fernandes (PL) ao Senado. Ainda não formalizada, essa aliança vem se consolidando como a principal aposta da oposição estadual e apresenta viabilidade eleitoral nas pesquisas.
Habemus candidati? O fator incerteza na definição das chapas
Apesar disso, o cenário pré-eleitoral no Ceará segue marcado pela incerteza. Embora uma disputa entre Ciro Gomes e Elmano de Freitas seja hoje vista como provável e ambos venham se portando como pré-candidatos, nenhum dos dois confirmou oficialmente a candidatura. No campo governista, a possível saída de Camilo Santana do Ministério da Educação - a princípio para coordenar as campanhas de Lula e Elmano no estado - alimenta especulações de que, caso o governador não apresente melhora em suas intenções de voto, pode ser substituído como candidato pelo ex-ocupante do Palácio da Abolição.
Na oposição, a aproximação entre Ciro e o PL enfrentou a resistência pública de Michele Bolsonaro, que chegou a dizer que Ciro não seria verdadeiramente de direita durante participação no lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão (NOVO) ao governo do estado em novembro de 2025. Embora André Fernandes tenha inicialmente defendido a aliança, houve recuo formal, ainda que, na prática, os sinais indiquem sua continuidade.
Além do PL, outro ponto relevante de indefinição passa pela posição da recém-oficializada federação União Brasil–PP. Enquanto o União Brasil se localizava majoritariamente na oposição ao governo, o PP e suas principais lideranças no estado encontram-se firmemente ancorados na base de apoio de Elmano. Essa ambiguidade torna a posição da federação decisiva para o equilíbrio da disputa.
Ocorre que o PSDB, onde novamente se encontra filiado Ciro Gomes, outrora hegemônico no estado quando este fora governador (1991-1994), hoje é pouco mais que um partido nanico e com uma estrutura e peso muito aquém do necessário para uma disputa majoritária, apesar do reforço através da filiação de parlamentares na última janela partidária. Nesse sentido, a pré-candidatura depende muito da aliança com outras forças, como o PL e a federação UB-PP, hoje o maior agrupamento partidário e, consequentemente, o principal detentor de recursos como tempo de televisão e orçamento eleitoral no país.
Uma das estratégias do governismo para desarticular o campo opositor tem sido justamente tentar, se não atrair diretamente a federação para sua coligação, ao menos inviabilizar sua presença no campo adversário. Com esse objetivo, por exemplo, foram realizadas reuniões com lideranças do PP - como o secretário estadual de Cidades, Zezinho Albuquerque e seu filho, o deputado federal AJ Albuquerque - nas quais se chegou a anunciar a possibilidade de apoio da federação ao governismo. Paralelamente, a vice-governadora Jade Romero deixou o MDB e anunciou que se filiaria a um dos partidos da federação. Entretanto, a indicação de Capitão Wagner para presidir a nova estrutura, após sua confirmação pelo TSE, passou a sinalizar um movimento em sentido oposto. Tanto assim que, no último dia da janela partidária, a vice-governadora confirmou sua filiação ao PT, e não mais ao PP ou ao União Brasil, como havia sido previamente anunciado.
As pesquisas recentes certamente injetaram elementos de tensão no campo governista e de entusiasmo na oposição. Ainda assim, é preciso cautela na leitura desses dados. Além da própria indefinição de candidatos e apoios, os números mais comentados derivam de cenários estimulados, nos quais os entrevistados escolhem entre opções previamente definidas. Já na sondagem espontânea (ver Quadro 2), em que o eleitor indica livremente sua preferência, a maioria (54%) afirma não saber em quem votar. Esse percentual, somado aos 7% que declaram não votar em ninguém, supera com folga a soma das intenções atribuídas aos principais nomes, como Ciro Gomes (15%), Elmano de Freitas (13%) e Camilo Santana (3%). Isso sugere que ainda há amplo espaço para mudanças ao longo da campanha.
Esse quadro se torna ainda mais relevante quando se consideram os efeitos das lideranças nacionais sobre o eleitorado (ver Quadro 3). Enquanto Lula apresenta maior capacidade de transferência de votos (41%), Bolsonaro concentra os maiores índices de rejeição, levando 61% dos entrevistados a afirmarem que não votariam de forma alguma em um candidato por ele apoiado. Diante disso, delineiam-se estratégias distintas: o governismo tende a federalizar a campanha para capitalizar o apoio de Lula, enquanto Ciro enfrenta o desafio de estadualizar a disputa para reduzir o custo de uma eventual associação ao bolsonarismo. Ao mesmo tempo, precisa calibrar essa estratégia, evitando tanto uma aproximação excessiva quanto um distanciamento exagerado, sob pena de alienar um eleitorado que, embora hoje o apoie nas pesquisas, até recentemente o via com desconfiança.
Quadro 2: Pesquisa Espontânea O Povo/Datafolha
Pergunta: Em quem você pretende votar para governador? | |
Ciro Gomes (PSDB) | 15% |
Elmano de Freitas (PT) | 13% |
Camilo Santana (PT) | 3% |
No atual governador | 1% |
PT/Candidato do PT | 1% |
Outras respostas | 6% |
Em Branco/ Nulo / Nenhum | 7% |
Não Sabe | 54% |
Fonte: Reproduzido de O Povo, 23/03/2026. Acesso em 06/04/2026.
Quadro 3: Pesquisa O Povo/Datafolha, Impacto dos Apoios
“O apoio do ____ a um candidato a governador do Ceará nas eleições deste ano: levaria você a votar nesse candidato com certeza, talvez faça você votar nesse candidato OU você não votaria de jeito nenhum nesse candidato?” |

Fonte: Reproduzido de O Povo, 23/03/2026. Acesso em 06/04/2026.
A batalha pelo Senado
A definição das chapas ao Senado constitui outro eixo importante de incerteza no cenário eleitoral cearense. O quadro parece mais complexo no campo governista, onde o senador Cid Gomes (PSB) tem afirmado que não pretende concorrer à reeleição, ao mesmo tempo em que insiste na indicação do controverso deputado federal Junior Mano (PSB), originalmente eleito pelo PL em 2022. Paralelamente, outros nomes também se movimentam dentro da base governista, como os deputados federais José Guimarães (PT) e Eunício Oliveira (MDB), o líder local do Republicanos e ex-senador Chiquinho Feitosa e, em uma tentativa de atrair a federação União Brasil–PP, uma das vagas chegou a ser oferecida a Moses Rodrigues (União Brasil).
No campo oposicionista, embora o acordo entre Ciro Gomes e o PL preveja apoio a Alcides Fernandes (PL) para o Senado, a segunda vaga da chapa permanece em aberto, devendo, em princípio, ser destinada a um nome da federação União Brasil–PP - possivelmente Roberto Cláudio (União Brasil). Esse arranjo, no entanto, enfrenta ruídos internos, já que Michelle Bolsonaro tem apoiado publicamente a pré-candidatura da vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL), o que pode tensionar uma aliança que ainda não foi formalizada.
Cabe ainda mencionar a saída da ex-prefeita de Fortaleza (2004–2012) e liderança histórica do PT, Luizianne Lins, que se filiou à REDE e também se apresenta como pré-candidata ao Senado. Luizianne comandou por décadas o diretório municipal do partido na capital, mas vinha perdendo espaço para o grupo liderado por Camilo Santana, com quem mantém um histórico de divergências públicas. Após ser preterida nas eleições municipais de 2024 e perder o controle do diretório partidário em 2025, optou por migrar recentemente de legenda. Esse movimento adiciona um novo elemento de incerteza ao cenário, ao potencialmente fragmentar a base eleitoral do governismo na disputa pelo Senado, especialmente caso se confirmem candidaturas de nomes vinculados a partidos de centro-direita da própria base, como MDB e Republicanos, ou mesmo Junior Mano.
Considerações finais
O cenário eleitoral cearense para 2026 se organiza a partir de realinhamentos recentes, disputas internas entre blocos e um elevado grau de incerteza quanto às candidaturas e alianças. A ruptura entre o grupo Ferreira Gomes e o campo governista, consolidada em 2022 e aprofundada em 2024, reconfigurou o sistema político estadual e abriu espaço para uma disputa mais competitiva do que a observada nos últimos ciclos eleitorais. Ao mesmo tempo, a indefinição em torno das chapas majoritárias, tanto ao governo quanto ao Senado, indica que esse processo ainda está em construção meses antes do período eleitoral, com margens relevantes para mudanças ao longo da campanha.
Nesse contexto, o desfecho da eleição dependerá da capacidade dos atores de transformar suas estratégias em coordenação política efetiva. De um lado, o governismo tende a apostar na força de suas redes institucionais e na associação com o Governo Federal; de outro, a oposição busca explorar fissuras e construir alianças capazes de viabilizar uma alternativa competitiva. Por fim, a questão a ser respondida é se essas estratégias conseguirão se traduzir em apoio eleitoral em um cenário ainda aberto e em constante transformação.
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As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.
¹ Clayton M. Cunha Filho é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC) e dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia da UFC e em Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Contato: cunhafilho@ufc.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6780031638251473.


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