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As eleições 2026 no DF e a centralidade da direita

Joscimar Souza Silva¹

Ramon de Oliveira Gomes²


O Distrito Federal não tem eleições municipais. Por isso, a eleição geral de 2026 é antecipada no debate político local. As articulações para a sucessão do governador Ibaneis Rocha (MDB) começaram há pelo menos dois anos. A disputa principal ocorre entre grupos de direita que buscam o apoio do eleitorado de Jair Bolsonaro,  enquanto a esquerda tenta reorganizar suas frentes de oposição.


Com isso, os cálculos de sobrevivência e aliança partidária passam a ser balizados pelo espólio eleitoral de Jair Bolsonaro e pela força da máquina administrativa local. O tabuleiro político atual é marcado pela hegemonia da centro-direita bolsonarista, sustentada por uma coalizão entre o governador Ibaneis Rocha (MDB), e a vice-governadora Celina Leão (PP), com uma aprovação significativa do governo em 62%, segundo pesquisa do Real Time Big Data. No campo da esquerda, o PT, embora no controle do Governo Federal, tem pouca força política entre o eleitorado do Distrito Federal, não conseguindo emplacar um candidato próprio para as eleições. A tendência é que a legenda integre a chapa da maior força da esquerda local, liderada por Ricardo Capelli (PSB), ao indicar Leandro Grass (PT) como candidato a vice-governador, em um palanque que pode contar com o apoio do presidente Lula.


A nacionalização da disputa no Distrito Federal é um efeito natural de sua condição de centro do poder político, onde as fronteiras entre os debates locais e as pautas federais costumam se confundir. Por mais óbvio que pareça o impacto dessa proximidade, a dinâmica do Executivo Federal sob o governo Lula 3 atua menos como um motor de popularidade local e mais como um contraponto ideológico que galvaniza o eleitorado conservador da capital. A presença do governo petista na Esplanada não se traduz automaticamente em influência eleitoral no DF; ao contrário, a máquina administrativa federal muitas vezes serve de escada para que lideranças da direita local reforcem discursos de oposição direta ao Palácio do Planalto, o que tem consolidado a capital como um dos principais redutos do bolsonarismo. Dessa forma, a comunicação entre as esferas ocorre por via da polarização, pois enquanto o Executivo Federal foca em pautas nacionais, a direita local utiliza a resistência a essas políticas para manter sua hegemonia. Resta ao PT e seus aliados o desafio de furar a bolha de rejeição local através de nomes com perfil executivo, como o de Ricardo Cappelli.


A articulação de Ibaneis e a candidatura de Arruda


O governador Ibaneis Rocha apoia sua vice, Celina Leão (PP), para a sucessão. O PL, partido de Bolsonaro, também indicou apoio à Celina. O objetivo é unificar a base de direita e dar a Ibaneis a possibilidade de concorrer ao Senado. Este grupo, no entanto, enfrenta a concorrência de José Roberto Arruda, que se filiou ao PSD para disputar o governo. Celina Leão (PP) lidera em intenções de voto com 40%, seguido por José Roberto Arruda (PSD), com 21%. Em terceiro lugar está Leandro Grass (PT) com 13% e, em quarto, Ricardo Capelli (PSB), com 6%, segundo a pesquisa Real Time Big Data.

 

Arruda acumula condenações no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o que o torna inelegível pela Lei da Ficha Limpa. A situação foi agravada após o Conselho da Magistratura do TJDFT manter a suspensão de seus direitos políticos por 12 anos e a aplicação de uma multa milionária que dificulta sua tentativa de retorno à cena eleitoral. O ex-governador aposta na Lei Complementar nº 219/2025 para sustentar que a punição se encerra em 2026, mas a tese encontra forte resistência institucional. A Procuradoria-Geral da República questiona a legalidade da norma e aponta conflito em relação ao entendimento do STF, reacendendo o debate sobre moralidade administrativa.

 

No plano político, Arruda e Ibaneis mantêm uma relação ambígua, marcada por encontros e tensões. Em 2025, os dois chegaram a almoçar juntos, mas logo depois surgiram conflitos em torno de alguns temas, como a redução de verbas de publicidade para rádios ligadas ao grupo de Arruda. A disputa entre os dois pela preferência do eleitorado de direita é direta. Figuras políticas ligadas a Arruda e ao ex-governador Joaquim Roriz continuam com postos no governo. José Humberto Pires, atual secretário de Governo de Ibaneis, é um exemplo. Ele já ocupou cargos em gestões anteriores, inclusive na de Arruda.


Foto: Ibaneis da Rocha e José Roberto Arruda se abraçam durante almoço. Reprodução: Metrópoles.
Foto: Ibaneis da Rocha e José Roberto Arruda se abraçam durante almoço. Reprodução: Metrópoles.

A disputa por duas vagas no Senado


Em 2026, duas vagas para o Senado estarão em disputa. Pelo menos três nomes da direita podem concorrer. São eles: a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), o governador Ibaneis Rocha (MDB) e a deputada federal Bia Kicis (PL). A candidatura de múltiplos nomes do mesmo campo político pode dividir os votos. Uma candidatura de oposição pode se beneficiar dessa divisão, como Erika Kokay (PT) ou Leila do Vôlei (PDT).


Na última pesquisa de opinião realizada em dezembro de 2025 pelo do Instituto Opinião, publicada pela revista Veja, Michelle Bolsonaro registra 36% das intenções de votos. Ela é seguida pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), com 27%. Na sequência, aparece a deputada Erika Kokay (PT), com 23%,a senadora Leila do Vôlei (PDT), com 23%, e a deputada Bia Kicis (PL), com 12%. O ex-senador Reguffe (União) tem 11%.


A crescente popularidade de lideranças femininas no campo conservador tem ganhado peso nos últimos anos, sobretudo com a força do movimento PL Mulher, liderado por Michelle Bolsonaro. Esse processo tem sido apontado como uma “feminização” da direita e uma forma de engajamento do movimento antifeminista. Michelle Bolsonaro (PL), Damares Alves (Republicanos), Bia Kicis (PL) e Celina Leão (PP) formam um quarteto que atua de maneira articulada para dialogar com o eleitorado bolsonarista, especialmente entre as mulheres. Enquanto Michelle, Bia e Damares concentram popularidade e legitimidade ideológica junto à base, Celina se apresenta como o rosto da gestão e da experiência administrativa neste mesmo campo de força, inclusive com o apoio da família Bolsonaro.



Fonte: Elaborado pelos autores, com fotos publicadas nas redes sociais das lideranças.
Fonte: Elaborado pelos autores, com fotos publicadas nas redes sociais das lideranças.

O apoio de Damares e Celina à candidatura de Cristiane Britto (Republicanos) sinaliza esse esforço de viabilizar mais mulheres na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Vale destacar que, além de usufruírem das cotas e verbas destinadas às candidaturas de mulheres, esse processo combina representação, identidade e tentativa de controle institucional em território candango.


O caso BRB-Master


A imagem do atual governo enfrenta o desgaste das investigações da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal investiga os prejuízos ao Banco de Brasília (BRB). A apuração envolve a compra de carteiras de crédito do Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central em 2025. O caso gerou pedidos de impeachment contra Ibaneis na Câmara Legislativa do DF e uma investigação no STJ. O desgaste atinge a imagem do governador e, por consequência, a de sua possível sucessora, Celina Leão. 


Diante desse escândalo, o PL oficializou o rompimento com o governador Ibaneis Rocha ao protocolar na Câmara Legislativa um pedido de CPI para investigar as relações entre o BRB e o Banco Master. A decisão, respaldada por lideranças como Bia Kicis e Michelle Bolsonaro, foi impulsionada pela revelação de um contrato de R$38 milhões entre o escritório de advocacia de Ibaneis e um fundo ligado à Reag Investimentos, também sob investigação. O movimento parece isolar politicamente o governador Ibaneis e indica uma retirada do apoio da ala bolsonarista para as eleições de 2026, enquanto a defesa de Ibaneis nega irregularidades e reitera seu afastamento das atividades advocatícias desde 2018. Contudo, os vínculos próximos destes atores não garantem que essa seja exatamente uma ruptura.


A esquerda e a janela partidária


A esquerda também se organiza para 2026. O PSB, do ex-governador Rodrigo Rollemberg, lançou o nome de Ricardo Cappelli. Ele foi interventor federal na segurança pública do DF. O PT tem como pré-candidato Leandro Grass, atual presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A janela partidária, período em que os deputados podem trocar de sigla, ocorre entre 5 de março e 4 de abril. As mudanças na composição das bancadas na Câmara Legislativa e no Congresso podem alterar as alianças para a eleição.


Segurança Pública e os ecos do 8 de Janeiro


A segurança pública do Distrito Federal segue sob constante vigilância desde os episódios de 8 de janeiro de 2023. O tema representa um campo minado para as forças conservadoras, que precisam reafirmar um compromisso rigoroso com a ordem pública sem alienar sua base histórica: as corporações policiais. O setor, majoritariamente alinhado à direita bolsonarista, ainda lida com as sequelas institucionais e jurídicas das intervenções federais e dos processos que se sucederam aos atos. Nesse cenário, a candidatura Ricardo Cappelli, cuja imagem de interventor federal confronta diretamente a gestão local, busca atrair setores preocupados com a estabilidade democrática.


Reprodução: Agência Senado
Reprodução: Agência Senado

O papel do Entorno


O crescimento demográfico acelerado das Regiões Administrativas (RAs) - unidades que integram o DF, onde não há municípios - e a simbiose econômica com os municípios goianos que circundam a capital colocam o Entorno do DF como um dos pontos de atenção para 2026. A dependência mútua entre essas regiões e o Plano Piloto em setores vitais, como trabalho, saúde e transporte, deve ditar o tom das promessas de campanha. 


As eleições municipais nesses municípios funcionam como um termômetro e uma base de apoio essencial para o governo distrital. Com mais de 539 mil eleitores aptos nas seis maiores regiões do Entorno, esse contingente populacional atrai o interesse direto de líderes da capital que buscam consolidar aliados regionais. Políticos como o governador Ibaneis Rocha, o senador Izalci Lucas e o ex-governador José Arruda monitoram essas movimentações, cientes de que o apoio de um prefeito local pode significar a transferência de milhares de votos para o Senado ou para o governo em 2026. 


No Entorno do DF, as eleições municipais de 2024 consolidaram a hegemonia da direita e do centro, marcadas por uma onda de reeleições em sete dos onze municípios da Região Metropolitana. O União Brasil emergiu como a principal força política ao eleger cinco prefeitos, incluindo os reeleitos Dr. Lucas (Águas Lindas), Alessandro Barcelos (Cocalzinho), Diego Sorgatto (Luziânia) e Joseleide Lázaro (Padre Bernardo), além de Jéssica do Premium (Santo Antônio do Descoberto). O Partido Liberal garantiu três prefeituras com a reeleição de Carlinhos do Mangão (Novo Gama) e as vitórias de Dr. Luis Otávio (Cristalina) e Simone Ribeiro (Formosa), enquanto o PP manteve o comando de Cidade Ocidental e Planaltina de Goiás com os reeleitos Lulinha e Delegado Cristiomário, respectivamente. Sem vitórias da esquerda na região, o MDB assegurou a prefeitura de Valparaíso de Goiás com Marcus Vinicius, ratificando uma base aliada estratégica para as pretensões eleitorais de 2026.


Conclusão


A eleição de 2026 no Distrito Federal está indefinida, embora tenda à direita. A direita está dividida entre o grupo de Ibaneis Rocha e o de José Roberto Arruda, que são parte do mesmo grupo político que levou Ibaneis ao Palácio do Buriti. A esquerda tenta se unificar com nomes como Ricardo Cappelli e Leandro Grass. O voto à direita no Distrito Federal e o crescimento das candidaturas femininas de direita com possibilidade de voto já apresentam as mais competitivas para o Senado. O resultado da investigação do caso BRB-Master e as movimentações da janela partidária são fatores que vão influenciar a disputa.



As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.



¹ Joscimar Souza Silva é professor adjunto de Ciência Política na Universidade de Brasília (IPOL/UnB). Contato: joscimar.silva@unb.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6828567723216663.


² Ramon de Oliveira Gomes é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL/UnB) e professor de sociologia na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Contato: ramonesunb@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/4563930443424939.




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