ELEIÇÕES DE 2026 EM SANTA CATARINA: O CONFLITO LOCAL-NACIONAL NA DIREITA BRASILEIRA
- NEPOL UFJF
- há 5 dias
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Luís Felipe G. da Graça
Por qualquer métrica que se escolha utilizar, Santa Catarina pode ser indicada nos últimos anos como um reduto eleitoral da direita brasileira. As eleições de 2022 colocaram o PL no papel de principal força política do estado, consolidando a onda bolsonarista da eleição de 2018. Em 2022 o ex-presidente Bolsonaro obteve 69,3% dos votos válidos no segundo turno, aproximando-se dos 75,9% dos votos válidos que obteve no segundo turno de 2018. Nas duas ocasiões, os candidatos de seu partido para governador do estado obtiveram êxito. Em 2018, o até então pouco conhecido Comandante Moisés (PSL) recebeu 71,1% dos votos válidos no segundo turno em disputa com a então maior força partidária do estado, o PSD. A onda bolsonarista fez do PSL o segundo maior partido no legislativo estadual com 6 das 40 cadeiras. Em 2022, Jorginho Mello (PL) obteve 70,7% dos votos contra o candidato do PT, Décio Lima. Nesse mesmo ano o PL elegeu 6 dos 16 deputados federais do estado (37,5%) e 11 dos 40 deputados estaduais da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) (27,5%). Esses resultados não apenas indicam preferência eleitoral pontual, mas sugerem a consolidação de um eleitorado estruturalmente alinhado à direita, capaz de se reproduzir em diferentes níveis da disputa.
As pesquisas recentes mostram que as chances de reeleição do governador Jorginho Mello são muito altas. A aprovação de cerca de 75% dos eleitores e pesquisas de intenção de voto em que ele aparece próximo dos 50%, evidenciam que a direita continua como a principal força do estado e o antipetismo como estratégia eleitoral lucrativa. O governador, que foi um dos maiores apoiadores do governo Bolsonaro enquanto era senador, manteve uma posição clara de antagonismo em relação ao governo federal comandado pelo PT nos últimos quatro anos. Mesmo em situações solenes, como reuniões com os governadores ou inauguração de obras federais no Estado, Jorginho Mello escolheu, na maioria das vezes, não comparecer ou ser representado por sua vice-governadora.
Nas eleições de 2026, é improvável que o estado deixe de registrar mais uma vez grandes votações para uma candidatura de direita ao governo. A esquerda, e principalmente o PT, apresentam objetivos eleitorais mais modestos como a manutenção ou um pequeno aumento de eleitos para deputado federal ou estadual. O lançamento de um candidato próprio ao governo do estado pode servir para dar palanque à campanha do presidente Lula, mas possivelmente seria um “perdedor de condorcet”: um candidato que perderia nos confrontos diretos do voto majoritário para qualquer uma das outras opções. A questão no PT passa a ser se o partido encara uma campanha de baixas chances de sucesso, garantindo para si o papel de principal antagonista do governo estadual, ou se, ao custo do protagonismo, cede apoio formal ou informal a uma chapa de outro partido com chances maiores. Essa decisão não tem implicações apenas estaduais, mas afeta diretamente a capacidade de construção de palanques competitivos para a eleição presidencial no estado.
Justamente por operar a partir de uma posição eleitoral confortável, os conflitos internos da direita passam a ter maior peso relativo no desenho da disputa de 2026. Os noticiários políticos recentes demonstram como há conflitos e dificuldade de coordenação entre movimentações na arena federal e estadual. Esses processos tornam mais complexa uma eleição que parecia fácil, criando obstáculos à realização das estratégias previamente colocadas.
Para o atual governador o cenário mais favorável é enfrentar o PT nas urnas e nacionalizar a eleição em um plebiscito antipetista. O histórico do governador Jorginho Mello na Alesc como deputado estadual e a sua boa relação com o Poder Legislativo como governador o permitiram atrair o apoio para sua candidatura de outras forças partidárias de centro e direita do estado como o PP, o PSD e o MDB. A composição da chapa nas posições de vice-governador e das duas vagas de senador seriam o melhor caminho para pavimentar essa grande rede de apoio, isolar o PT como antagonista e garantir o cenário que repetiria o segundo turno de 2022, quando Jorginho Mello obteve 70% dos votos. O governador Jorginho Mello buscou concretizar este cenário durante o ano de 2025, oferecendo a posição de vice-governador para o MDB e abrindo espaço para Esperidião Amin (PP) buscar a reeleição ao Senado.
Este quadro, no entanto, foi implodido por exigências do PL e pelas estratégias do partido em nível nacional. Com o agravamento da situação jurídica do ex-presidente Bolsonaro e a tentativa do partido de aumentar sua bancada no Senado, o PL decidiu destinar uma das vagas em disputa em Santa Catarina para Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente e atual vereador pela cidade do Rio de Janeiro. A importação de um candidato sem trajetória política no estado gerou um movimento de reação dentro do próprio partido, colidindo diretamente com a ambição de quadros da direita do estado que ganharam espaço nos últimos anos e esperavam ver seus nomes considerados ao Senado. Entre eles destacam-se Esperidião Amin do PP e a deputada federal Carol De Toni (PL), a mais votada no estado em 2022. Pressionada a renunciar à disputa pelo Senado, De Toni demonstrou disposição de deixar o partido, caso fosse necessário, para disputar o cargo.
Com o lançamento de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência e a disputa interna em seu partido pelas posições para o Senado, o governador Jorginho Mello escolheu por uma composição mais ideológica da chapa majoritária, convidando o prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), para ser seu vice-governador. A possibilidade de uma chapa para o Senado apenas com candidatos do PL – Carol De Toni e Carlos Bolsonaro – foi considerada, mas vetada pelo PL nacional que buscou garantir o apoio da federação UNIÃO-PP e impôs o nome de Esperidião Amin. O conflito em torno da chapa ao Senado evidencia o desencontro entre a lógica eleitoral estadual, que privilegia lideranças enraizadas localmente, e a lógica do partido em nível nacional, orientada por dinâmicas da família Bolsonaro e estratégicas próprias.
Essas movimentações abriram espaço para a construção de uma candidatura competitiva de centro no estado, com o MDB e o PSD, bem como pulverizaram as candidaturas da direita ao Senado, tornando o cenário mais incerto. A movimentação levou o MDB a romper com o governador e abandonar a gestão estadual. O prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), o único entre os prefeitos das maiores cidades do estado que buscava construir sua candidatura ao governo dentro do seu partido, passou a ter mais chances de estar na disputa e de ter apoio de partidos mais relevantes no estado. Para ele, não será interessante ter apoio formal do PT, mas sua entrada na disputa possibilita um cenário em que o resultado se torna menos previsível. Uma chapa para governador que reunisse PSD e MDB teria viabilidade tanto pela história desses partidos no estado quanto por sua capilaridade política, uma vez que ocupam um número significativo de prefeituras.
O principal impacto da formação da chapa do atual governador passa a ser sobre a disputa ao Senado. Caso Carol De Toni realmente busque outra legenda para disputar o cargo, a direita teria três candidatos competitivos para duas vagas. Uma chapa de centro e outra de esquerda também poderiam disputar o pleito, apesar de que não há ainda nomes pré-definidos nesses campos para a disputa ao Senado. Qualquer que seja o derrotado dentre os três fortes candidatos da direita haverá repercussões importantes. Caso Carol de Toni perca, ficará claro que o PL atribui baixo valor às lideranças locais formadas em seu interior e que os objetivos do clã Bolsonaro e do PL nacional se sobrepõem. Caso Esperidião Amin seja derrotado, a lição será a inexistência de compromissos partidários seguros com o PL e a incapacidade de se coordenarem e coordenarem seus eleitores. Caso Carlos Bolsonaro perca, o recado será que a influência da família sobre a direita declina a ponto de uma derrota eleitoral atingir um dos filhos do ex-presidente em seu maior reduto eleitoral. No entanto, é difícil antecipar até que ponto a divisão de votos e a dificuldade de coordenação possa ser relevante ao ponto de uma candidatura de centro – ou mesmo de esquerda – ser capaz de conquistar uma das duas vagas.
Mesmo com o aumento da incerteza quanto aos resultados, o estado de Santa Catarina ainda deve sair das urnas em 2026 com forte representação da direita na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. Resta saber se os partidos de centro serão capazes de recuperar parte dos cargos que a direita lhes vem subtraindo desde 2018.
Em termos de temas, como a maior parte das disputas por reeleição, as obras e políticas do governo estadual devem fazer parte do centro do debate. Contra o governador pesam denúncias de fraude em um dos seus programas vitrine, o “Universidade Gratuita” que financia bolsas em instituições de ensino superior privadas. Mais recentemente, o debate sobre cotas raciais em universidades pode ganhar destaque, já que a Alesc aprovou uma lei que impede a adoção destas em instituições do estado e impõe sanções financeiras àquelas que as mantiverem. O questionamento dessa lei no Supremo Tribunal Federal (STF) deve facilitar o discurso de antagonismo do governador com o governo federal, independentemente do resultado efetivo da lei. Esses temas oferecem ao governador oportunidades de confronto com o governo federal em chave simbólica e institucional, reforçando clivagens que extrapolam a política estadual e tendem a moldar também o comportamento do eleitorado catarinense na eleição presidencial.
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As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.
Luís Felipe G. da Graça é professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Contato: lfggraca@gmail.com.