top of page

A DISPUTA EM DOIS TEMPOS: CERTEZAS E INCERTEZAS DAS ELEIÇÕES DE 2026 NO RIO DE JANEIRO


Mayra Goulart¹

Victor E. David²



Dois lugares-comuns atravessam a crônica política fluminense e ganham densidade específica no cenário eleitoral de 2026. O primeiro, de que “não existem certezas na política”, funciona como meia-verdade: desde as eleições municipais de 2024 na capital, observa-se a construção da candidatura do prefeito reeleito Eduardo Paes ao governo do estado, assim como a sinalização reiterada de que Cláudio Castro pretende se desincompatibilizar para disputar uma vaga no Senado. O segundo, de que “a política é dinâmica”, adquire no Rio de Janeiro um ritmo próprio, marcado por reconfigurações abruptas de cenários, implosões de lideranças emergentes e rearranjos conjunturais de alianças que raramente se convertem em coordenação estadual estável.

O peso político do Rio de Janeiro, tanto do ponto de vista eleitoral quanto simbólico, exige um tratamento próprio da disputa de 2026. Com um dos maiores colégios eleitorais do país, o estado é o berço do bolsonarismo, mantém-se como epicentro da crise institucional que se arrasta desde a queda do grupo de Sérgio Cabral e ocupa posição central na nacionalização da pauta da segurança pública. É nesse contexto que se desenha um processo eleitoral aberto, marcado por fragmentação da direita, pela ausência de uma liderança hegemônica capaz de articular um projeto estadual consistente e por uma disputa antecipada em torno do controle do Executivo.

A megaoperação policial no Complexo do Alemão e da Penha, em outubro de 2025, reposicionou Cláudio Castro no jogo político fluminense e nacionalizou, mais uma vez, a pauta da segurança pública. A operação resultou em forte elevação de sua aprovação, especialmente na Região Metropolitana, recolocando o governador como ator relevante na disputa de 2026. Ao mesmo tempo, o episódio acentuou a simbiose entre discurso punitivista, arranjos políticos na ALERJ e reconfiguração das alianças à direita, num estado historicamente sensível ao tema da violência urbana.

Esse reposicionamento, contudo, ocorre em um contexto estruturalmente distinto daquele de 2022. A base territorial que garantiu a reeleição de Cláudio Castro em 91 dos 92 municípios não foi produto de uma liderança estadual orgânica nem de um projeto político coeso, mas da combinação entre controle da máquina estadual, redistribuição extraordinária de recursos e mediação com elites territoriais fisiológicas. O principal instrumento dessa engenharia política foi a privatização da CEDAE, que funcionou como mecanismo de irrigação financeira de municípios, consolidação de alianças com prefeitos e estruturação de uma rede de brokers territoriais. Esse ciclo, que deu folga fiscal ao estado e sustentou politicamente a coalizão de 2022, se encerra em 2025. A receita extraordinária acaba, o estado permanece sob restrições fiscais e renegociações da dívida, e a pressão sobre as contas públicas retorna ao centro do debate político.

Diferentemente do que ocorreu em 2022, a disputa de 2026 se dará sob um cenário de restrição fiscal, fragilidade institucional da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) e fragmentação da direita. A implosão do projeto de candidatura do deputado estadual e presidente da ALERJ Rodrigo Bacellar à sucessão de Castro — que combinava controle da Assembleia, mediação orçamentária e proximidade com o governo — revelou um limite estrutural: o poder territorial acumulado por elites locais não se converte automaticamente em coordenação estadual. O Rio de Janeiro continua sem uma elite dirigente capaz de produzir estabilidade institucional, operando por substituições conjunturais de operadores políticos que emergem rapidamente e são descartados com a mesma velocidade quando o sistema entra em crise.

É nesse contexto que a eleição de 2026 começa, de fato, antes de outubro. A sinalização de que Cláudio Castro renunciará para disputar o Senado aciona um dispositivo institucional decisivo: a realização de uma eleição indireta pela ALERJ para completar o mandato. Essa eleição não se reduz a um rito constitucional; ela funciona politicamente como ensaio geral da coalizão de 2026. Define quem controla o Executivo interinamente, quem distribui cargos, quem coordena a base parlamentar e quem entra na disputa majoritária com vantagem estrutural.

O nome preferido de Castro para esse mandato-tampão é o de Nicola Miccione, secretário da Casa Civil e operador técnico-político do governo, além de outras possíveis indicações ligadas ao seu secretariado. A tendência é que Castro e Eduardo Paes estejam do mesmo lado nessa eleição indireta, apoiando o candidato oficial. Em contrapartida, o PT fluminense tende a apoiar André Ceciliano, produzindo uma fratura objetiva entre Paes e o campo progressista. Paes fez declarações críticas recentes a Ceciliano, sinalizando desconforto com a tentativa do PT de ocupar o governo interino e impor um nome próprio. Essa tensão antecipa, no plano institucional, um conflito que tende a se projetar na disputa majoritária de outubro.

Dessa forma, a eleição indireta se torna o primeiro round real da disputa de 2026. Ela reorganiza alianças, explicita fissuras no campo progressista, redefine o papel de Cláudio Castro como fiador conjuntural e testa a capacidade de coordenação do campo articulador liderado por Eduardo Paes.

A SEGURANÇA PÚBLICA, A CRISE FISCAL E A NACIONALIZAÇÃO DO TABULEIRO FLUMINENSE

A segurança pública continua sendo o eixo estruturante da política fluminense e o principal vetor de nacionalização da disputa estadual. A megaoperação no Complexo do Alemão e da Penha, em outubro de 2025, recolocou o tema no centro da agenda pública, produziu repercussões nacionais e alterou qualitativamente o status de Cláudio Castro dentro do jogo político. A aprovação da operação por ampla maioria da opinião pública, inclusive fora do Rio de Janeiro, tensionou a relação do governador com o governo federal e reforçou a centralidade do discurso punitivista como ativo eleitoral à direita.

Esse movimento ocorre em um ambiente marcado pela crise da ALERJ e pela fragilidade institucional do estado. A prisão de Rodrigo Bacellar e os desdobramentos dos casos Ceperj e TH Joias não representam escândalos isolados, mas sintomas de um padrão estrutural: a reprodução de operadores políticos que articulam redes territoriais fisiológicas, circuitos paralelos de recursos e controle da engrenagem legislativa. A ascensão de Guilherme Delaroli à presidência interina da Casa não produziu ruptura. Ela sinaliza a continuidade e a reconstituição dos arranjos que sustentaram o ciclo anterior, agora sob a liderança de outro clã territorial.

A própria votação que relaxou a prisão de Bacellar oferece uma medida empírica do peso real da esquerda na ALERJ: com 21 votos contrários à soltura, concentrados basicamente em PT e PSOL, frente a 42 favoráveis, o episódio evidencia a assimetria estrutural entre o campo progressista e a maioria governista-corporativa recomposta. O comportamento do PSD, partido de Eduardo Paes, reforça essa leitura. A bancada não atuou de forma coesa, com deputados votando em sentidos distintos e sem fechamento de questão pela direção partidária, revelando a fragilidade da capacidade de coordenação do campo articulador no plano legislativo.

A relação entre Bacellar, TH Joias e outros operadores políticos com o crime organizado esvazia o próprio discurso punitivista das elites que se apresentam como fiadoras da ordem e da repressão ao crime. As investigações apontam para um arranjo no qual operadores estatais, parlamentares e lideranças vinculadas a facções atuavam de forma integrada, vazando informações, protegendo estruturas criminosas e convertendo controle territorial em capital político. Esse vínculo entre elites políticas e circuitos criminais compromete a credibilidade do enquadramento punitivista mobilizado pela direita fluminense, revelando a dissonância entre retórica de combate ao crime e práticas de cooptação e simbiose com organizações criminosas.

A nacionalização da pauta da segurança pública também reorganiza o campo da direita fluminense. O bolsonarismo permanece forte ideologicamente, mas frágil organizacionalmente. A partir da megaoperação, a extrema direita já sinalizou a reivindicação da candidatura de Felipe Curi, chefe da Polícia Civil, como balão de ensaio simbólico da pauta punitivista. Curi funciona como operador técnico-midiático e instrumento discursivo de nacionalização do tema da segurança, sem densidade territorial nem estrutura partidária consolidada.

Esse reposicionamento ocorre simultaneamente ao esgotamento do ciclo fiscal da CEDAE. Em 2022, o estado operou com margem conjuntural ampliada por receitas extraordinárias associadas à privatização da companhia. Esse colchão financeiro permitiu sustentar politicamente a coalizão governista, irrigar municípios e amortecer conflitos distributivos. Esse ciclo se encerra em 2025. O retorno da pressão fiscal recoloca na agenda temas que haviam sido neutralizados conjunturalmente, como equilíbrio das contas públicas, renegociação da dívida e limites da política de redistribuição territorial de recursos.

A combinação entre crise fiscal, fragilidade institucional da ALERJ e nacionalização da pauta da segurança pública redefine o papel de Cláudio Castro. Ele não é organicamente ligado às elites territoriais; sua relação com elas é pendular, mediada por recursos, cargos e conveniências conjunturais. Ele depende mais dessas elites do que as controla. Seu capital político deriva do controle da máquina estadual, da pauta da segurança, da rede construída a partir da CEDAE e da capacidade de operar transições institucionais. O colapso de Bacellar reduziu sua capacidade de transferir votos de forma coordenada e de produzir uma sucessão organizada.

Nesse contexto, a eleição indireta para o mandato-tampão se torna o último instrumento de poder real de Castro. Ela permite reorganizar a base, redistribuir posições e tentar manter influência sobre a coalizão que entrará na disputa de outubro. Ao mesmo tempo, ela antecipa a fratura entre Eduardo Paes e o PT fluminense, explicitando que o campo progressista não entra coeso na disputa de 2026.

ATORES, ARTICULAÇÕES E CONFLITOS

A disputa pelo governo do Rio de Janeiro em 2026 se organiza em torno de três campos que se sobrepõem, tensionam-se e se reconfiguram em ritmo acelerado: a direita governista pendular, estruturada em torno de Cláudio Castro e da rede construída a partir da CEDAE; o bolsonarismo ideológico, que busca nacionalizar o tabuleiro fluminense a partir da pauta da segurança pública; e o campo articulador liderado por Eduardo Paes, que tenta organizar uma coalizão majoritária sem dispor, hoje, de controle institucional efetivo sobre a ALERJ. Esses campos não operam como blocos estanques. Eles se interpenetram por meio de alianças táticas, mediações territoriais e disputas por posições-chave no Executivo e no Legislativo.

Cláudio Castro entra em 2026 como fiador conjuntural, não como liderança hegemônica. Existe, portanto, a dependência do resultado da eleição indireta para o mandato-tampão para manter seu principal instrumento de poder remanescente: o controle da máquina pública. Ao apoiar seu secretário para completar o mandato, Castro tenta preservar influência sobre o Executivo e reorganizar a base parlamentar antes da disputa majoritária. Esse movimento o coloca em convergência tática com Eduardo Paes, ao mesmo tempo em que aprofunda a fratura entre Paes e o PT fluminense, que tende a apoiar André Ceciliano.

A disputa ao Senado expõe os limites da hegemonia de Castro à direita. Márcio Canella, prefeito de Belford Roxo, já sinalizou que concorrerá em nome da federação UP/União, que reúne as maiores forças do estado em número de prefeitos. Trata-se de um polo territorial-institucional real, com capilaridade municipal concreta, que disputa diretamente a vaga com Castro. Em paralelo, o bolsonarismo e a extrema direita já acenaram com o nome de Felipe Curi como alternativa simbólica da pauta da segurança pública, ainda que sem confirmação formal e sem estrutura eleitoral consolidada. Mesmo que Flávio Bolsonaro não venha a ser candidato, a simples sinalização de um nome próprio fragiliza a coordenação da direita governista e nacionaliza a disputa fluminense.

Felipe Curi opera como balão de ensaio discursivo. Ele encarna o enquadramento punitivista, dialoga com a base ideológica do bolsonarismo e funciona como operador técnico-midiático da pauta da segurança pública. Ao mesmo tempo, sua ausência de partido, de rede territorial e de estrutura eleitoral impede que se apresente, neste momento, como alternativa organizada ao Senado ou ao governo. Ainda assim, sua presença no tabuleiro cumpre uma função estratégica: pressionar Castro, deslocar o eixo da disputa para o campo ideológico e reabrir espaço para a interferência nacional no processo eleitoral fluminense.

Do outro lado do espectro, Eduardo Paes emerge como o único ator com densidade eleitoral e capacidade administrativa para organizar uma coalizão majoritária. Seu ciclo à frente da Prefeitura do Rio foi marcado pela reconstrução institucional após o colapso do governo Crivella, por políticas urbanas de alta visibilidade e por uma estratégia de reposicionamento simbólico da cidade no cenário internacional, com eventos de grande escala e impacto midiático. Esse ciclo lhe conferiu vantagem competitiva nas pesquisas e o transformou em polo de atração para o centro político.

Ao mesmo tempo, a relação de Paes com o campo progressista entrou em fase de esgarçamento. Sua convergência tática com Castro na eleição indireta e suas declarações críticas a André Ceciliano sinalizam uma reacomodação em curso. O PT fluminense mantém o apoio formal a Paes ao governo, mas disputa espaço institucional e tenta preservar protagonismo com a candidatura de Ceciliano ao mandato-tampão. Essa tensão antecipa um conflito que tende a se projetar na campanha majoritária.

O comportamento do PSD na ALERJ reforça essa leitura. Partido de Paes, o PSD atuou de forma pendular nas duas votações decisivas que reconfiguraram o Legislativo fluminense: a que relaxou a prisão de Bacellar e a que derrubou o veto à gratificação faroeste. Em ambos os episódios, a bancada não se posicionou como bloco coeso, com deputados votando em sentidos distintos e sem fechamento de questão pela direção partidária. Esse padrão revela a fragilidade da capacidade de coordenação do campo articulador no plano institucional e sinaliza que Paes não dispõe, hoje, de uma base disciplinada no Legislativo estadual.

A esquerda fluminense, por sua vez, entra na disputa em posição estruturalmente minoritária na ALERJ, com cerca de 20 a 22 deputados concentrados em PT e PSOL. Essa assimetria institucional limita sua capacidade de bloquear a recomposição da maioria governista-corporativa e de impor uma agenda própria no Legislativo. Ao mesmo tempo, abre espaço para uma estratégia eleitoral de marcação de posição. O PSOL tende a lançar um nome próprio ao governo no primeiro turno, não com expectativa de vitória, mas como forma de tornar essa candidatura mais conhecida e construir densidade eleitoral futura. No segundo turno, a tendência é de apoio a Paes.

No plano territorial, as máquinas políticas fluminenses operam de forma pragmática e adaptativa. Elas respondem a incentivos distributivos, acesso a recursos e mediação com o Executivo, mais do que a alinhamentos ideológicos orgânicos. São permeáveis ao bolsonarismo quando ele distribui recursos, garante proteção institucional ou oferece enquadramento discursivo conveniente, sobretudo na pauta da segurança pública. Ao mesmo tempo, mantêm portas abertas com o campo articulador de Paes, preservando margem de manobra diante de um cenário ainda indefinido.

Nesse contexto, figuras como Wladimir Garotinho e Fabiano Horta ocupam posições estratégicas como aliados potenciais, mais do que como cabeças de chapa. Wladimir, prefeito reeleito de Campos, construiu trajetória distinta da de seu pai e se consolidou como ator territorial relevante, sendo um nome cobiçado no campo articulador de Paes. Fabiano Horta, forte localmente em Maricá e vinculado a Quaquá, não deve esgarçar a aliança com Paes para lançar candidatura própria, operando como mediador dentro do campo progressista ampliado.

Anthony Garotinho, por sua vez, preserva influência residual e capacidade de produzir ruído midiático, mas não dispõe de viabilidade eleitoral consistente. Witzel, após o colapso de seu governo, não recompôs capital político organizado e enfrenta alto custo reputacional, o que limita sua capacidade de reinserção competitiva no tabuleiro fluminense.

O desenho que emerge é o de um sistema político fragmentado, sem liderança hegemônica, no qual a coordenação eleitoral depende de arranjos conjunturais, mediações territoriais e da capacidade de controlar transições institucionais. A eleição indireta para o mandato-tampão aparece como ponto de inflexão decisivo: ela testa a força relativa dos campos em disputa, explicita fissuras no campo progressista, fragiliza a hegemonia de Castro à direita e antecipa os conflitos reais da campanha de 2026.

NÚMEROS, MÁQUINAS E TERRITÓRIO

A disputa pelo governo do Rio de Janeiro em 2026 se organiza a partir da correlação de forças territoriais, do controle de máquinas partidárias municipais e da ocupação de posições estratégicas no Executivo e no Legislativo. Os dados eleitorais recentes revelam um descompasso entre densidade eleitoral urbana, capilaridade municipal e força institucional no plano estadual, produzindo um tabuleiro fragmentado e sem liderança hegemônica.

A federação UP/União emerge como um dos polos mais robustos desse sistema. Em termos proporcionais, o Partido Progressista (PP) detém 20% das prefeituras do estado, enquanto o União Brasil concentra 13%, o que, somados, perfazem 33% dos municípios fluminenses. No plano legislativo municipal, essas mesmas legendas também ocupam posições centrais: o PP detém 11% das cadeiras de vereadores e o União Brasil 10,7%, em um universo de 1.208 cadeiras no estado. Esses números colocam a federação como o agrupamento com maior capilaridade municipal organizada no Rio de Janeiro.

A sinalização de Márcio Canella de que pretende concorrer ao Senado em nome da federação transforma esse pólo em ator central da disputa majoritária. Canella, deputado estadual mais votado em 2022 e atual prefeito de Belford Roxo, opera como mediador entre redes municipais, ALERJ e Executivo, e sua entrada formal no jogo reorganiza alianças no interior e pressiona a base governista a se reposicionar.

Dr. Luizinho, deputado federal e presidente estadual do PP, ocupa posição estratégica nesse arranjo, ainda que sua projeção tenha sido momentaneamente interrompida pelo escândalo na área da saúde em 2023, que envolveu contratos sob sua influência na Secretaria de Saúde e a contaminação de órgãos transplantados por falhas laboratoriais vinculadas a empresas com laços familiares. O episódio produziu um recuo tático e reduziu sua centralidade no debate público. Mesmo assim, sua inserção institucional em Brasília e seu trânsito na política estadual preservam seu papel como operador político da UP/União, ainda que com menor capacidade de projeção eleitoral imediata.

Ao lado da federação, o PL constitui o outro grande polo territorial do estado. O partido lidera isoladamente em deputados estaduais, com 17 cadeiras, detém 25% das prefeituras fluminenses e concentra a maior fatia das cadeiras de vereadores, com 14% do total estadual. Esses números revelam uma máquina partidária com capilaridade municipal ampla e presença relevante tanto em regiões bolsonaristas quanto em áreas onde Bolsonaro teve desempenho inferior, indicando pragmatismo eleitoral e capacidade de adaptação territorial.

Sob a coordenação estadual de Altineu Côrtes, o PL opera como polo organizacional autônomo da direita fluminense, com força própria e margem de manobra diante da fragmentação da sucessão estadual. Nome forte do partido, seja para as eleições diretas ou para as eleições de outubro de 2026, o deputado estadual e secretário das cidades de Castro Douglas Ruas consegue capitanear o discurso ideológico do partido ao mesmo tempo que tem o condão de articular forças municipais.

Nesse contexto, junto a isso, a candidatura de Márcio Canella ao Senado e a força territorial do PL reconfiguram a leitura da direita fluminense. Em vez de um bloco homogêneo, o que se observa é uma disputa interna por hegemonia entre um polo federado com capilaridade municipal, uma máquina partidária pragmática e um governo em fim de ciclo.

Do lado do campo articulador, Eduardo Paes concentra densidade eleitoral urbana e vantagem nas pesquisas, mas opera com fragilidade territorial e institucional. O PSD não aparece entre os partidos com maior número de prefeitos no estado e não figura entre os partidos com maior proporção de vereadores no agregado estadual. Sua presença relevante é regionalmente concentrada na capital, onde o partido se destaca como efeito direto do sucesso eleitoral de Paes.

Na ALERJ, o PSD integra o grupo que, junto ao União Brasil, soma 14 cadeiras, contra 17 do PL. Esse dado reforça que o campo articulador liderado por Paes carece de uma base municipal e legislativa disciplinada, limitando sua capacidade de coordenação eleitoral fora da capital.

A esquerda fluminense entra na disputa em posição estruturalmente minoritária. PT e PSOL somam 13 cadeiras na ALERJ. No plano municipal, não aparecem entre os partidos com maior número de prefeitos e não figuram no ranking estadual de vereadores, o que revela um descompasso entre visibilidade política e capilaridade territorial.

Nesse cenário, Anthony Garotinho reaparece como operador discursivo e disruptivo, mobilizando memórias políticas e redes locais no Norte Fluminense. Sua viabilidade eleitoral é limitada, mas sua capacidade de interferir no debate público e tensionar alianças permanece relevante em um tabuleiro fragmentado.

O desenho que emerge é o de um sistema político estruturado em torno de polos territoriais concorrentes. A federação UP/União, com Canella e Dr. Luizinho, concentra 33% das prefeituras do estado e 21,7% das cadeiras de vereadores. O PL de Ruas opera como a máquina partidária mais ampla, com 25% das prefeituras, 14% dos vereadores e 17 deputados estaduais. O campo articulador de Paes reúne densidade eleitoral urbana, sem base territorial equivalente. A esquerda preserva visibilidade política, sem capilaridade institucional.

A sucessão estadual se define, assim, menos por projetos programáticos e mais pela capacidade de transformar controle territorial, posições institucionais e máquinas partidárias em coordenação eleitoral efetiva.

Concentração na capital, fragilidades institucionais e limites da coordenação de Eduardo Paes

A correlação de forças que se consolida em 2026 no Rio de Janeiro expõe um quadro em que capilaridade territorial, densidade eleitoral urbana e organização partidária não convergem em um projeto hegemônico. Os dados eleitorais revelam que as maiores máquinas partidárias estão fora do PSD e da esquerda. O PSD não figura entre os partidos com maior número de prefeitos nem domina o ranking de vereadores, enquanto PT e PSOL também permanecem minoritários em termos municipais e legislativos. Essa fragilidade territorial restringe a capacidade dessas forças de coordenar uma eleição majoritária competitiva fora do eixo da capital.

Por outro lado, o PL e a federação UP/União consolidam sua presença territorial. O PL lidera em número de deputados estaduais (17 cadeiras), concentra 25% das prefeituras fluminenses e detém 14% das cadeiras de vereadores. A federação UP/União, com União Brasil (13% das prefeituras) e PP (20%), perfaz 33% dos municípios do estado e concentra 21,7% das cadeiras de vereadores.

A trajetória recente de Dr. Luizinho ilustra os limites e as repercussões políticas desse tipo de articulação. Sua influência sobre a pasta da Saúde e o escândalo que o atingiu em 2023 reduziram momentaneamente sua projeção e complicaram sua emergência como liderança competitiva no estado. Isso enfraqueceu uma possível articulação verticalizada do PP no interior fluminense e limitou a capacidade de transformar influência institucional em força eleitoral ampla.

No plano institucional, a fragilidade legislativa do PSD e da esquerda foi ilustrada pelas votações decisivas na ALERJ, em que as bancadas atuaram de forma pendular ou minoritária. A ausência de um bloco disciplinado limita a coordenação de uma coalizão estável fora da capital. A eleição indireta para o mandato-tampão expressa essa correlação de forças: testa alianças, revela fissuras e antecipa conflitos que serão centrais na disputa ampla de outubro.

Nesse cenário, Eduardo Paes conserva vantagem competitiva na capital e nas áreas urbanas, mas enfrenta desafios de interiorização de sua base. Sua vantagem nas pesquisas é fortemente concentrada na Região Metropolitana e na capital, refletindo políticas urbanas visíveis e operação administrativa consolidada. A ausência de um projeto eleitoral que traduzisse essa vantagem em capilaridade territorial mais ampla limita sua capacidade de competir em pé de igualdade com máquinas partidárias robustas no interior.

A sucessão estadual se define, portanto, menos por hegemonia programática e mais pela capacidade de cada polo de converter capilaridade territorial, controle municipal e coerência institucional em coordenação eleitoral efetiva, em um campo no qual a federação UP/União, o PL de Ruas, os atores urbanos e uma esquerda territorialmente frágil competem por posições centrais.


As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.



¹Mayra Goulart é professora do Departamento de Ciência Política, do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (PPGCS). Coordenadora do Laboratório de Partidos Eleições e Política Comparada (LAPPCOM). Contato: mayragoulart@gmail.com.


²Victor E. David é doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Mestre em Sociologia Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Pesquisador do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM). Contato: escobardvictor@ufrrj.br.

Comentários


Logomarca do NEPOL

Campus da Universidade Federal de Juiz de Fora
Rua José Lourenço Kelmer, S/Nº – São Pedro
Juiz de Fora – MG, 36036-900, Brasil

Mapa do site

Atendimento

+55 (32) 2102-3101
contato@nepol.blog.br

  • Instagram
  • Youtube
bottom of page