ELEIÇÕES DE 2026 EM ALAGOAS: FORÇA DO INTERIOR, CENTRALIDADE DA CAPITAL E O PAPEL DAS ELITES POLÍTICAS LOCAIS
- NEPOL UFJF

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Luciana Santana
Alagoas chega às eleições de 2026 combinando três movimentos simultâneos e estruturantes: a persistente força eleitoral do interior, a crescente centralidade política da capital, Maceió, e um processo de reorganização estratégica das elites políticas locais. Essa tríade organiza tanto a disputa pelo governo e pelo Senado quanto a forma pela qual o estado se insere no cenário de disputa presidencial, marcado pela polarização política. Mais do que um simples reflexo do embate entre lulismo e bolsonarismo, o cenário alagoano revela dinâmicas territoriais e organizacionais próprias, que demandam análise à luz da literatura sobre federalismo e presidencialismo de coalizão em nível subnacional.
Para contextualizar, os resultados presidenciais em Alagoas nos dois últimos pleitos indicam estabilidade no padrão de votação. No segundo turno de 2018, Fernando Haddad (PT) obteve 59,92% dos votos válidos no estado, enquanto Jair Bolsonaro (PSL) alcançou 40,08%. Em 2022, a distribuição foi muito semelhante: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu com 58,68% dos votos válidos, frente a 41,32% de Bolsonaro (PL). A diferença entre os dois ciclos eleitorais foi inferior a dois pontos percentuais, sugerindo manutenção do padrão majoritário favorável ao PT no plano estadual e ausência de deslocamento estrutural do eleitorado alagoano em direção à direita.
Esse quadro, entretanto, revela dinâmica distinta quando observado sob a perspectiva territorial. Na capital, Maceió, o comportamento eleitoral diverge do restante do estado. No segundo turno de 2018, Bolsonaro venceu com 61,63% dos votos válidos, contra 38,37% de Haddad. Em 2022, o candidato do PL manteve a liderança na capital, ainda que com margem reduzida: 57,18% contra 42,82% de Lula.
Os dados indicam que, enquanto o estado como um todo preserva maioria pró-PT, a capital apresenta predominância consistente do voto conservador. O contraste entre Maceió e os demais municípios evidencia uma clivagem territorial estável, que diferencia o comportamento eleitoral da capital do padrão predominante no interior. Essa divisão espacial tende a estruturar a disputa estadual de 2026, especialmente na capacidade dos candidatos de articular alianças que atravessem essa fronteira político-territorial.
.Força do interior e alinhamento ao governo federal
A força do interior está associada à capilaridade municipal de líderes partidários, às alianças locais e à articulação de atores políticos com atuação legislativa. Nesse campo, destaca-se Renan Filho (MDB), ex-governador (2015–2022) e atual ministro dos Transportes no governo Lula. Sua trajetória está vinculada ao grupo político liderado por seu pai, Renan Calheiros (MDB), senador da República e figura central da política estadual nas últimas décadas. O MDB mantém presença robusta no interior, com prefeitos, vereadores e lideranças locais que estruturam sua base eleitoral.
O papel dos governadores também conta. Em Alagoas, explica também a força do partido MDB no interior do estado. Como sabemos, para exercerem suas funções com estabilidade, os governadores dependem da construção de maioria na Assembleia Legislativa e da negociação permanente com partidos e lideranças regionais. Sem essa base, tornam-se frágeis tanto a aprovação de projetos quanto a implementação de políticas públicas. A Assembleia Legislativa de Alagoas historicamente opera com maioria alinhada ao Executivo, o que fortalece grupos já consolidados na estrutura institucional do estado. O MDB do atual governador Paulo Dantas exemplifica esse padrão ao manter forte articulação simultaneamente no Legislativo e nos municípios do interior. Essa combinação — apoio legislativo e capilaridade municipal — cria uma base organizada que favorece candidaturas associadas à continuidade política e administrativa.
Além disso, a popularidade presidencial pode influenciar a dinâmica estadual. No Nordeste, onde Lula mantém níveis relativamente confortáveis de aprovação de seu governo, o alinhamento ao governo federal tende a beneficiar candidaturas situadas no campo governista. Contudo, tal apoio não se converte automaticamente em votos. A transformação de capital político nacional em vantagem eleitoral concreta depende da existência de redes locais organizadas, capazes de mobilizar eleitores nos municípios. Nesse aspecto, a força política do interior alagoano assume papel decisivo.
A centralidade da capital e os desafios da expansão territorial
Se o interior representa estabilidade organizacional, a capital simboliza dinamismo competitivo e capacidade de renovação. João Henrique Caldas (JHC), prefeito reeleito de Maceió em 2024 pelo PL, emerge como liderança estratégica. Embora filiado a uma legenda associada nacionalmente ao bolsonarismo, JHC adota postura pragmática no plano estadual. Sua estratégia enfatiza gestão e eficiência administrativa, evitando confrontação ideológica direta com o governo federal e mantendo canais abertos com o presidente Lula.
O principal desafio para JHC reside em converter sua hegemonia e avaliação positiva de gestão na capital na capital em competitividade em todo o estado. A expansão para o interior exige a construção de alianças municipais e coordenação com outras elites políticas, especialmente diante da presença consolidada do MDB fora da capital. O capital político concentrado em Maceió pode ser condição necessária, mas não suficiente, para alcançar maioria estadual.
Elites estaduais em reorganização
O terceiro eixo estruturante da disputa refere-se à reorganização das elites políticas. Na corrida ao Senado, duas vagas estarão em disputa e três nomes concentram protagonismo: Renan Calheiros (MDB), Arthur Lira (PP) e Alfredo Gaspar (União Brasil).
No campo governista, Renan Calheiros lidera um grupo com forte presença no interior e influência institucional consolidada. O campo da centro-direita, por sua vez, apresenta fragmentação entre PL, PP e União Brasil. Embora o eleitorado de direita tenha se estabilizado em torno de 40% no estado, essa base não se traduz automaticamente em coordenação eleitoral.
Arthur Lira representa liderança com projeção nacional e capacidade de interlocução tanto com o campo conservador quanto com o governo federal. Alfredo Gaspar ocupa espaço da direita mais ideologicamente definida, com discurso anticorrupção e alinhamento explícito ao ex-presidente Jair Bolsonaro. JHC consolida-se como liderança executiva competitiva, mas com identidade ideológica mais fluida. A coordenação — ou ausência dela — entre essas lideranças será determinante para evitar dispersão de votos e maximizar desempenho nas disputas majoritárias.
A fragmentação pode produzir efeitos ambíguos: de um lado, enfraquecer o campo conservador na disputa senatorial; de outro, abrir espaço para negociações estratégicas na formação das chapas majoritárias. A engenharia eleitoral dependerá da capacidade de acomodar interesses divergentes sem comprometer a coesão mínima necessária à competição.
Coalizão subnacional e clivagem territorial
A reeleição de JHC em 2024 reforçou a centralidade da capital, mas não eliminou o peso do interior. Em estados com forte interiorização política, o controle de alianças municipais permanece determinante. A eleição de 2026 dependerá da capacidade de integrar capital e interior sob coalizões estáveis.
No plano programático, a campanha tende a refletir a clivagem territorial. No interior, desenvolvimento regional, infraestrutura rodoviária e políticas sociais vinculadas ao governo federal devem ocupar posição central. Na capital, mobilidade, segurança pública e gestão urbana tendem a dominar o debate. As elites partidárias buscarão construir narrativas que transcendam essa divisão, articulando propostas capazes de dialogar com públicos distintos.
O conceito de presidencialismo de coalizão contribui para compreender como governadores constroem maiorias por meio da negociação com partidos e lideranças locais. No plano estadual, essa lógica assume contornos específicos: a coordenação entre Executivo, Assembleia Legislativa e redes municipais torna-se elemento central não apenas da governabilidade, mas também da disputa eleitoral. Em Alagoas, essa coordenação opera sobre base territorial desigual: interior estruturado e capital competitiva.
Considerações finais
As eleições alagoanas de 2026 não serão definidas exclusivamente pela polarização nacional. O resultado do pleito dependerá da capacidade das candidaturas de atravessar a clivagem entre capital e interior, de coordenar elites políticas em um ambiente competitivo e, ao mesmo tempo, de mobilizar o eleitorado em torno de agendas que apontem para mudanças no padrão atual de desenvolvimento do estado. Nesse contexto, ganha centralidade o desafio de apresentar propostas capazes de impulsionar ou ampliar o desenvolvimento local em suas múltiplas dimensões — econômica, social, institucional e territorial —, respondendo às demandas por crescimento, redução de desigualdades e melhoria das condições de vida.
Entre continuidade e renovação, interior e capital, a disputa tende a ser definida por quem conseguir articular coalizões políticas eficazes, apresentar um horizonte de desenvolvimento crível e mobilizar apoios territoriais sob a lógica do presidencialismo de coalizão em nível subnacional.
A tríade interior–capital–elites oferece, assim, uma chave interpretativa consistente para compreender o processo eleitoral. O resultado dependerá da capacidade de cada campo político de converter força territorial em maioria estadual e coordenação partidária em estabilidade governativa. Em um estado marcado por forte interiorização política e crescente protagonismo da capital, a eleição de 2026 será menos um plebiscito ideológico e mais um teste de engenharia coalizional e articulação territorial das elites políticas locais.
As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.
Luciana Santana é professora associada de Ciência Política na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e docente dos programas de pós-graduação em Ciência Política da UFAL (PPGCP) e da Universidade Federal do Piauí (PPGC/UFPI). Contato: luciana.santana@ufal.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/7338438190459190. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0203-1594.



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