PERNAMBUCO EM 2026: JOÃO CAMPOS LIDERA, RAQUEL LYRA REAGE E AS PESQUISAS PEDEM CAUTELA
- NEPOL UFJF
- há 23 horas
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Juliano Domingues¹
A eleição para o governo de Pernambuco em 2026 começa a se estruturar como uma disputa entre dois tipos de capital político-administrativo. De um lado, João Campos busca transformar a experiência acumulada na Prefeitura do Recife em credencial para governar o estado. De outro, Raquel Lyra tenta converter a aprovação crescente de seu governo em força eleitoral para a reeleição.
Este artigo analisa esse cenário a partir de pesquisas eleitorais recentes, cujos dados foram sistematizados pelo professor e pesquisador Maurício Romão, com base em levantamentos divulgados por diferentes institutos. O objetivo não é tomar uma pesquisa isolada como retrato definitivo da conjuntura, mas observar o que o conjunto dos dados permite dizer sobre a disputa: João Campos segue em posição média mais favorável, enquanto Raquel Lyra reduziu a distância entre fevereiro e abril e chega ao período pré-eleitoral com aprovação governamental em crescimento.
Ao mesmo tempo, os dados revelam um aspecto metodológico relevante para o debate público: os resultados variam de forma expressiva entre os institutos. Em abril, pesquisas realizadas por Simplex, Real Time Big Data, Datafolha, Opinião, Numen Data e Quaest produziram leituras distintas sobre a mesma disputa. Algumas indicam vantagem confortável de João; outras apontam empate técnico ou liderança de Raquel. Essa dispersão recomenda cautela na interpretação dos números e reforça a importância de considerar o período de campo, a amostra, margem de erro, a modalidade de coleta e o desenho do questionário.
A disputa também deve ser compreendida sob a perspectiva de um processo de reorganização das forças políticas locais. João chega ao ciclo de 2026 com o principal ativo de ter sido reeleito prefeito do Recife ainda no primeiro turno, resultado que consolidou sua liderança na capital e reforçou a capacidade do PSB de projetá-lo para uma disputa estadual. Além da força eleitoral no Recife, ele carrega o peso simbólico de uma linhagem política associada a Eduardo Campos e Miguel Arraes, dois nomes centrais da história política pernambucana. Sua candidatura, portanto, tende a partir de uma base fortemente metropolitana (apesar da força do nome de Arraes até hoje no interior), com o desafio de estadualizar uma liderança construída sobretudo a partir da gestão municipal e da capital.
Raquel, por sua vez, dispõe dos recursos típicos de uma governadora em exercício: presença administrativa no território, capacidade de realizar entregas, articulação com prefeitos e recomposição de base parlamentar. Ao mesmo tempo, enfrenta o desafio inverso ao de João: transformar capilaridade estadual e aprovação de governo em intenção de voto. Assim, a clivagem capital-interior pode ser relevante. João tende a buscar larga vantagem no Recife e na Região Metropolitana; Raquel, a compensar essa força com presença no interior, redes locais e apoio de lideranças municipais.
João segue à frente, mas Raquel reduz a distância

Governadora Raquel Lyra enfrenta o prefeito do Recife, João Campos, na disputa em Pernambuco. Foto: Hesíodo Goes/Governo do Estado de Pernambuco. Reprodução: Folha de S. Paulo.
A análise das pesquisas eleitorais em Pernambuco exige dois movimentos simultâneos. O primeiro é observar a tendência geral indicada pelo conjunto dos levantamentos: até aqui, João Campos aparece em posição mais favorável na disputa pelo governo do estado, mas Raquel Lyra reduziu a distância entre fevereiro e abril. O segundo é examinar as diferenças entre os próprios institutos, pois os resultados variam de forma expressiva conforme o levantamento considerado.
O Quadro 1 resume a evolução das médias de intenção de voto entre fevereiro e abril, considerando cenários de primeiro e segundo turnos.
Quadro 1 - Médias agregadas da disputa pelo governo de Pernambuco

Fonte: Sistematização de Maurício Romão/MCR, com base em pesquisas eleitorais divulgadas por Simplex, Real Time Big Data, Datafolha, Opinião, Numen Data e Quaest.
Observa-se que João Campos segue à frente nas médias, tanto no primeiro quanto no segundo turno. No entanto, sua vantagem diminuiu. No primeiro turno, a distância média entre João e Raquel caiu de 14,5 pontos percentuais em fevereiro para 6,8 pontos em abril. No segundo turno, a redução foi ainda mais expressiva: a vantagem média de João passou de 14,5 para 3,5 pontos.
Esse movimento decorre mais do crescimento de Raquel do que de uma queda acentuada de João. No primeiro turno, João recua 2,1 pontos entre fevereiro e abril, enquanto Raquel avança 5,6 pontos. No segundo turno, João cai 4,8 pontos, ao passo que Raquel cresce 6,2 pontos. A governadora, portanto, melhora sua posição relativa, especialmente no confronto direto.
Quando os institutos contam histórias diferentes
Essa aproximação, entretanto, precisa ser interpretada levando-se em conta a diversidade dos levantamentos. A sistematização realizada pelo professor Maurício Romão reúne pesquisas de seis institutos no primeiro turno realizadas em abril: Simplex, Real Time Big Data, Datafolha, Opinião, Numen Data e Quaest. Como mostra o Quadro 2, os resultados são bastante distintos.
Quadro 2 - Pesquisas de abril: primeiro turno, por instituto

Fonte: Sistematização de Maurício Romão/MCR, com base nas pesquisas dos respectivos institutos.
A variação é substantiva. No primeiro turno, há pesquisas que indicam vantagem confortável de João, como Real Time Big Data, Opinião e Datafolha. A Datafolha, por exemplo, ouviu 1.022 eleitores entre 13 e 15 de abril, em entrevistas presenciais, com margem de erro de três pontos percentuais, e registrou João com 50% e Raquel com 38%. Já a Quaest, realizada presencialmente entre 22 e 26 de abril, com 900 entrevistados e margem de três pontos, apontou João com 42% e Raquel com 34%.
Por outro lado, Simplex e Numen Data produzem leituras distintas. A Simplex mostra empate técnico, com Raquel numericamente 0,3 ponto à frente. A Numen Data é o levantamento mais favorável à governadora, com vantagem de 8 pontos sobre João. Assim, a depender do instituto tomado como referência, a narrativa da conjuntura pode mudar de forma relevante: de uma vantagem relativamente confortável de João a um cenário de empate ou liderança de Raquel.
No segundo turno, a dispersão também é elevada, conforme mostra o Quadro 3.
Quadro 3 - Pesquisas de abril: segundo turno por instituto

Fonte: Sistematização de Maurício Romão/MCR, com base nas pesquisas dos respectivos institutos.
No confronto direto, a média de abril indica João 3,5 pontos à frente. Mas os levantamentos individuais vão de João 12 pontos à frente, na Real Time Big Data, a Raquel 10,5 pontos à frente, na Numen Data. A Datafolha registrou João com 52% e Raquel com 42% no segundo turno, enquanto a Quaest apontou João com 46% e Raquel com 38%.
Essa amplitude não deve ser tratada como detalhe técnico secundário. Ela é parte da própria conjuntura. Pesquisas eleitorais são fotografias de momento, produzidas a partir de amostras, questionários, procedimentos de coleta e critérios de ponderação. Quando levantamentos realizados em períodos próximos chegam a resultados tão diferentes, deve-se evitar ainda mais conclusões baseadas em um único dado.
Há pelo menos quatro fatores que recomendam prudência. O primeiro é a modalidade de coleta. Algumas pesquisas foram feitas por telefone, outras presencialmente. Isso pode alterar o perfil dos entrevistados alcançados, a disposição para responder e até a forma como as preferências são declaradas. O segundo é o tamanho e o desenho da amostra. Amostras maiores não eliminam vieses possíveis, mas reduzem incertezas estatísticas quando bem desenhadas. O terceiro é a margem de erro, que deve ser considerada especialmente quando as diferenças entre candidatos são pequenas. O quarto é o questionário, incluindo a ordem de apresentação dos nomes, os cenários testados e a forma de tratamento de brancos, nulos e indecisos.
Por isso, a média das pesquisas é útil como instrumento de leitura agregada, mas não deve ser confundida com uma pesquisa única, nem com uma estimativa definitiva do resultado eleitoral. Ela organiza sinais dispersos e permite observar tendências, mas não elimina as diferenças metodológicas entre os institutos.
Aprovação em alta e disputa pela imagem de gestão
A avaliação do governo estadual acrescenta outra dimensão à análise. Como mostra a Tabela 4, a aprovação média do governo Raquel Lyra cresceu entre dezembro, fevereiro e abril.
Tabela 4 - Aprovação do governo Raquel Lyra

Fonte: Sistematização de Maurício Romão/MCR, com base em pesquisas de avaliação do governo estadual.
O dado revela uma melhora consistente da avaliação do governo estadual. A aprovação média sobe de 49,1% em dezembro para 58,1% em abril. A desaprovação, por sua vez, cai de 44,7% para 38,4%. O saldo positivo, que era de apenas 4,4 pontos em dezembro, chega a 19,7 pontos em abril. Também aqui há diferenças entre institutos, como mostra a Tabela 5.
Tabela 5 - Aprovação do governo Raquel Lyra em abril, por instituto

Fonte: Sistematização de Maurício Romão/MCR, com base nas pesquisas Real Time Big Data, Datafolha e Quaest.
A Real Time Big Data mostra aprovação de 51% e saldo positivo de 6 pontos. Datafolha e Quaest, por sua vez, indicam aprovação acima de 60% e saldos superiores a 26 pontos. A Quaest registrou 62% de aprovação e 35% de desaprovação do governo estadual, em levantamento presencial contratado pela Genial Investimentos, com 900 entrevistas e registro no TSE sob o número PE-08904/2026.
Uma hipótese que pode ser levantada é que a melhora da aprovação de Raquel Lyra esteja associada, ao menos em parte, à maior visibilidade dos investimentos anunciados pelo governo estadual em segurança pública. Essa suposição ganha força quando se observa a agenda de preocupações do eleitorado. Segundo pesquisa Quaest, a violência aparece como o segundo principal problema de Pernambuco, atrás apenas da saúde. Nesse contexto, ações como a construção de novas delegacias, a entrega de equipamentos, viaturas, armamentos e drones, além da recomposição dos efetivos das forças de segurança, podem contribuir para a percepção de que o governo está se movimentando em uma área considerada prioritária pela população.
Isso não significa afirmar uma relação causal direta entre investimentos em segurança e crescimento da aprovação. Os dados disponíveis não permitem tal conclusão. Mas a associação é plausível como hipótese de conjuntura: quando um tema ocupa posição central na agenda pública, medidas governamentais visíveis nessa área tendem a produzir efeitos sobre a avaliação da gestão. Ao mesmo tempo, o fato de a violência seguir entre os principais problemas percebidos mostra que o desafio do governo não é apenas anunciar investimentos, mas convertê-los em sensação de segurança e resultado percebido pela população.
Essa chave interpretativa também ajuda a compreender a estratégia de João Campos. Se Raquel procura associar sua recuperação administrativa à segurança pública, João encerrou sua passagem pela Prefeitura do Recife com uma entrega de grande visibilidade justamente na área apontada pela Quaest como principal problema do estado: a saúde. A inauguração do Hospital da Criança do Recife, com atendimento especializado, leitos pediátricos, centro de diagnóstico, estrutura para acolher casos de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e operação pelo SUS, funciona como ativo político relevante para quem busca transformar a experiência municipal em credencial estadual.
A clivagem nacional também importa

Fonte: elaboração do NEPOL.
Há, ainda, um aspecto nacional importante. A pesquisa Quaest também perguntou que tipo de alinhamento os eleitores desejariam para o próximo governador: 47% responderam que gostariam de um aliado de Lula, 30% preferiram um nome independente e 17% indicaram preferência por um aliado de Bolsonaro. O recorte por posicionamento político mostra forte polarização entre lulistas e bolsonaristas, mas também revela o peso daqueles que se classificam como independentes.
Esse dado ajuda a contextualizar, em alguma medida, a vantagem de João Campos, cuja imagem aparece mais diretamente associada ao campo lulista, e a margem de movimentação de Raquel Lyra, que tende a buscar votos entre eleitores independentes, de centro-direita e bolsonaristas. Assim, a disputa combina duas dimensões: de um lado, a competição por competência administrativa em saúde e segurança; de outro, o modo como cada candidatura será posicionada diante da clivagem nacional entre Lula e Bolsonaro.
Essa avaliação positiva produz uma tensão importante na conjuntura pernambucana: João Campos lidera as médias de intenção de voto, mas Raquel Lyra governa com aprovação crescente. A governadora ainda não converteu integralmente essa aprovação em intenção de voto. Em abril, sua média de primeiro turno é de 38,1%, cerca de 20 pontos abaixo da aprovação média de seu governo. Isso sugere a existência de um contingente de eleitores que aprova a administração estadual, mas não declara voto em Raquel.
Essa diferença entre aprovação e voto é central para compreender a disputa. Para Raquel, ela pode representar uma reserva potencial de crescimento, caso a campanha consiga transformar a avaliação administrativa positiva em preferência eleitoral. Para João, indica que sua vantagem não decorre apenas da rejeição à governadora. Ele preserva capital eleitoral próprio, associado à sua trajetória política, à gestão do Recife e à força acumulada pelo PSB na capital.
Conclusão
Os dados apontam, portanto, quatro movimentos simultâneos. Primeiro, João Campos segue em posição média mais favorável. Segundo, Raquel Lyra reduziu a distância, sobretudo no cenário de segundo turno, e chega ao período pré-eleitoral com aprovação governamental em alta. Terceiro, as pesquisas apresentam forte dispersão entre institutos, o que torna inadequadas leituras baseadas em um único levantamento. Quarto, a disputa se organiza em torno de duas camadas sobrepostas: a competição por competência administrativa em áreas sensíveis, como saúde e segurança, e a disputa pelo posicionamento diante da clivagem nacional Lula-Bolsonaro.
A eleição pernambucana de 2026, portanto, começa com vantagem média de João, mas em ambiente de recuperação política da governadora e de elevada sensibilidade aos métodos de pesquisa. Mais do que indicar um resultado provável, o conjunto dos levantamentos sugere uma disputa ainda em formação, na qual desempenho eleitoral, aprovação de governo, agendas públicas prioritárias, alinhamentos nacionais e diferenças metodológicas entre institutos precisam ser considerados conjuntamente.
Juliano Domingues é professor da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) e da Universidade de Pernambuco (UPE). Contatos: juliano.domingues@unicap.br / juliano.domingues@upe.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1436485623951645.
As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.