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AS ELEIÇÕES DE 2026 NO AMAPÁ: REORDENAMENTO ELEITORAL E CONVERSÃO À DIREITA

Ivan Henrique de Mattos e Silva¹


As eleições de 2026 no Amapá serão definidas em um cenário marcado, ao mesmo tempo, pela polarização entre lulismo e bolsonarismo, do ponto de vista do voto para a Presidência da República, pelo ocaso das principais famílias políticas do estado - processo que se arrasta desde, pelo menos, as eleições municipais de 2020 -, e pela coroação de uma trajetória acentuada de conversão à direita do padrão de voto amapaense.


Território federal até 1988, o Amapá havia produzido um padrão eleitoral em grande medida hegemonizado por partidos vinculados à esquerda do espectro político desde sua constituição como estado, no final da década de 1990. Nas eleições de 2006, por exemplo, 96,2% dos votos para o Governo do Amapá no primeiro turno foram dados a partidos desse campo ideológico. No entanto, as duas candidaturas que, hoje, lideram com bastante folga as intenções de voto para o Palácio do Setentrião - e que, somadas, congregam mais de 90% das intenções de voto no estado - situam-se em partidos de direita.


A crise do capital político da esquerda amapaense convive, ainda, com outro elemento central: as principais famílias políticas - que, aqui, serão consideradas a partir do conceito de dinastias políticas, de Bourdieu (1996), ou seja, como grupos políticos nos quais a transmissão do capital político se dá a partir do vínculo familiar -, que centralizaram as disputas pelo Executivo amapaense - e, em grande medida, também as disputas pela prefeitura de Macapá - durante quase três décadas. Em 2026, contudo, elas também estão fora do palco central da disputa.


Quando considerada a última pesquisa do Instituto Veritá, publicada no dia 7 de julho, o cenário da disputa pela Presidência da República no Amapá apresenta um padrão de polarização que replica o contexto de 2022: o presidente Lula (PT) aparece com 44,5% das intenções de voto no primeiro turno contra 42,6% do senador Flávio Bolsonaro (PL). No segundo turno, Lula chega a 50,6% e Flávio Bolsonaro, a 49,4%, configurando empate técnico, com diferença de apenas 1,2 ponto percentual.


No caso da disputa pelo Governo do Amapá, o cenário também é de polarização entre duas candidaturas. O governador Clécio Luís (União) aparece com 32,7% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto o ex-prefeito de Macapá Antônio Furlan (PSD) chega a 67,3%, com amplo favoritismo. O instituto optou por desconsiderar os 2,3% de pessoas que indicaram votos em outras candidaturas. 


Para o Senado, o favoritismo de Furlan se verifica novamente. Quando considerada a primeira opção de voto, Rayssa Furlan (Podemos), esposa de Antônio Furlan, aparece com 31,3% das intenções de voto; o senador Randolfe Rodrigues (PT), com 26,3% enquanto o senador Lucas Barreto (PSD), que também fará parte da chapa de Antônio Furlan, têm 20,5%. No caso do segundo voto, Lucas Barreto fica com 25,9% das intenções, Rayssa Furlan com 25,5%, e Randolfe Rodrigues com 14,8%.


Guinada à direita e crise das dinastias políticas amapaenses


A trajetória de conversão à direita dos padrões de voto não é uma exclusividade do Amapá. Para além da ascensão e do enraizamento social das novas direitas em todo o Brasil, essa conversão tem sido uma característica da Amazônia em sentido amplo - com exceção dos estados do Pará e do Maranhão. No caso específico do Amapá, ela se verifica tanto no pleito para a Presidência da República quanto nas disputas pelo Governo do Amapá e pelo Senado.


Gráfico 1: Votos no primeiro turno para a Presidência da República no Amapá (2002-2022) 


Gráfico de linhas mostra votos de esquerda, centro e direita em 2002-2022; esquerda cai, direita sobe após 2014.

Fonte: elaboração própria, com o uso da ferramenta de IA generativa ChatGPT, a partir dos dados do LEGAL.


Quando considerada a disputa pela Presidência da República, a distribuição ideológica dos votos no Amapá saiu de uma proporção de 91,2% dos votos destinados a candidaturas de esquerda, em 2002, para um padrão bastante polarizado em 2018 e 2022, com direita e esquerda concentrando, cada uma, praticamente metade do eleitorado amapaense.


Gráfico 2: Proporção de votos para o governo por espectro político (esquerda, centro e direita) no Amapá (2002-2022)

Gráfico de linhas mostra votos de esquerda, centro e direita de 2002 a 2022; esquerda cai, direita sobe, centro oscila.

Fonte: elaboração própria, com o uso da ferramenta de IA generativa ChatGPT, a partir dos dados do LEGAL.


No caso dos votos para o governo do Amapá, o mesmo padrão de conversão à direita se verifica. Também merece destaque, contudo, o vertiginoso crescimento dos votos nos partidos de centro em 2022, favorecidos pela ida de Clécio Luís - eleito no primeiro turno - da Rede Sustentabilidade para o Solidariedade. Outro aspecto que merece destaque em 2022 (e que é, aqui, complementar ao crescimento dos votos em partidos de centro) é a abrupta queda da esquerda, e isso se explica, em linhas gerais, por dois motivos: em primeiro lugar, porque a esquerda amapaense foi tradicionalmente hegemonizada pelo PSB, concentrado nas candidaturas da família Capiberibe - cujo capital político sofreu forte desgaste, como será discutido mais adiante, e sequer postula uma candidatura ao governo do Amapá nesse ano; e, em segundo lugar, porque o principal nome da nova esquerda no Amapá é o próprio governador Clécio, que começou sua trajetória política, ainda nos anos 1990, no Partido dos Trabalhadores, foi eleito prefeito de Macapá em 2012 pelo PSOL e reeleito em 2016 pela Rede, mas - na esteira de uma aproximação cada vez maior com o senador Davi Alcolumbre - trocou novamente de partido para as eleições de 2022, migrando para o Solidariedade.


Gráfico 3: Proporção de votos para o Senado por espectro político (esquerda, centro e direita) no Amapá (2002-2022)


Gráfico de linhas com Esquerda, Centro e Direita (%) de 2002 a 2022, em vermelho, laranja e azul, com tabela de valores abaixo.

Fonte: elaboração própria, com o uso da ferramenta de IA generativa ChatGPT, a partir dos dados do LEGAL.


O Senado, por fim, não foge à regra, e também registra um amplo crescimento da competitividade eleitoral dos partidos de direita, que saem de um patamar de pouco mais de 0% dos votos totais, entre 2006 e 2010 - auge da popularidade do lulismo em todo o Brasil -, para 51% dos votos totais em 2022.


Ao longo das últimas décadas, dois partidos hegemonizaram, em grande medida, as disputas pelo Governo do Amapá, vinculados a duas tradicionais dinastias políticas amapaenses: o PSB, vinculado à família Capiberibe, e o PDT, vinculado à família Góes. O atual ministro da Integração e Desenvolvimento Regional, Waldez Góes (PDT), foi governador por quatro vezes. João Capiberibe - principal liderança do PSB - foi governador por duas vezes, e seu filho, Camilo Capiberibe - atualmente deputado federal pelo PT, após deixar o PSB após décadas no partido -, por uma vez. 


Em 2022, pela primeira vez, desde 2002, nenhum dos principais concorrentes ao governo do Amapá era filiado a um desses partidos - que, aliás, sequer figuraram como cabeças de chapa.


Há alguns elementos que ajudam a explicar a paulatina corrosão do capital político dessas famílias, abrindo espaço para novas figuras na política amapaense, mas dois merecem destaque: em primeiro lugar, a força social e eleitoral do bolsonarismo, verificada a partir de 2018; e, em segundo lugar, o desgaste dessas principais lideranças em virtude do saldo social, humano e econômico da pandemia, paralelamente ao drama provocado pelo apagão que durou 21 dias no Amapá, em 2020, em plena campanha eleitoral para a Prefeitura de Macapá.


Macapá e o peso eleitoral da capital no voto amapaense


A capital do Amapá concentra 54,4% do total de votos do estado, além de possuir - junto com o município de Santana, vizinho e parte da Região Metropolitana de Macapá - enorme peso econômico, social e institucional, dada a sua centralidade estratégica. Não à toa, as principais figuras políticas da eleição deste ano no Amapá estão profundamente vinculadas à dinâmica macapaense.


Os dois principais candidatos ao Governo do Amapá são ex-prefeitos de Macapá. Clécio Luís foi eleito em 2012 e em 2016, primeiro pelo PSOL, tornando-se o primeiro candidato do partido eleito para a prefeitura de uma capital, e, depois, pela Rede Sustentabilidade. A alta aprovação de sua gestão na capital o catapultou à condição de principal candidato ao governo estadual em 2022. Ele venceu a disputa ainda no primeiro turno, numa aliança - ainda que tímida - com a candidatura vitoriosa do presidente Lula. 


Antônio Furlan, por sua vez, também foi eleito prefeito de Macapá por duas vezes. Na primeira vez, em 2020, figurou inicialmente, como azarão, em terceiro lugar, e, ao final, superou tanto João Capiberibe (que sequer foi ao segundo turno) quanto Josiel Alcolumbre (União Brasil), irmão do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil). A segunda eleição aconteceu em 2024. Neste pleito, Furlan não apenas venceu no primeiro turno, como também foi o prefeito de capital eleito com a maior margem eleitoral desde a redemocratização, com 85%.


A alta avaliação de sua gestão à frente da Prefeitura de Macapá também parece fornecer ao candidato do PSD uma enorme vantagem comparativa: Furlan aparece com 67,3% das intenções de voto contra apenas 32,7% de Clécio Luís, atual governador do estado e candidato à reeleição.


A disputa pelas duas vagas do Senado também tende a reproduzir o peso da capital: a candidata que registrou maior número nas intenção de votos é Rayssa Furlan, esposa de Antônio Furlan, que compõe a chapa junto com Lucas Barreto, candidato à reeleição.


O terceiro nome entre os mais cotados para uma vaga no Senado é o atual senador Randolfe Rodrigues. Recentemente, ele deixou a Rede e retornou ao Partido dos Trabalhadores, onde começou sua trajetória política ainda na década de 1990. Randolfe também é líder do governo Lula no Congresso Nacional, o que reforça o peso do Amapá na dinâmica política nacional, a despeito de seu pequeno tamanho e de seu reduzido peso eleitoral. É, ainda, um aliado histórico de Clécio Luís, com quem compartilhou boa parte de sua trajetória política no PT, no PSOL e na Rede.


Embora vá disputar seu terceiro mandato no Senado e tenha uma importante base eleitoral no Amapá, Randolfe deve enfrentar dificuldades no pleito deste ano, ainda que conte com o apoio tanto do governador do Amapá quanto do próprio presidente Lula. O forte cenário de polarização no estado, aliado aos altos índices de rejeição de Clécio e à crescente presença do voto conservador, tende a criar um desafio adicional ao petista.


Reordenamento eleitoral e consolidação conservadora


Infográfico político do Amapá com linha do tempo, mapas, candidatos e resultados eleitorais; tons verde, azul e vermelho.

O cenário da disputa de 2026 no Amapá parece confirmar, por ora, duas tendências políticas que marcaram as últimas eleições no estado. Por um lado, as dinastias políticas amapaenses enfrentarão um cenário difícil, que tende a coroar seu ocaso político. A família Alcolumbre constitui uma exceção parcial. Embora tenha ficado de fora da hegemonia exercida pelas famílias Góes e Capiberibe no comando do Palácio do Setentrião, construiu forte apoio político e eleitoral não apenas na capital, mas, sobretudo, nos municípios do interior, cujos prefeitos são, em sua maioria, parte de sua base eleitoral.


Ainda assim, o apoio do atual presidente do Congresso Nacional parece insuficiente para impulsionar a candidatura de Clécio Luís à reeleição, mesmo que o governador conte com o comando da máquina estadual e com o apoio do próprio presidente da República.


Por outro lado, caso a tendência atual se confirme, a eleição de 2026 poderá consolidar, também, a trajetória de conversão conservadora dos padrões de voto no Amapá. Tanto em 2018 quanto em 2022 - embora, neste último caso, de modo menos ostensivo -, o ex-prefeito Antônio Furlan buscou vincular-se ativamente ao diapasão bolsonarista, emulando, inclusive discursivamente, elementos centrais da ideologia das novas direitas e apresentando-se como representante da novidade e da renovação política, desvinculado das lideranças tradicionais do estado.


Essa imagem, contudo, contrasta com sua trajetória anterior. Durante sua passagem pela Assembleia Legislativa do Amapá, Furlan foi líder do governo de Waldez Góes, antes de romper com o grupo e se reposicionar como outsider.


A trajetória recente da política amapaense parece, de fato, confirmar duas tendências: o ocaso das principais dinastias políticas estaduais e a conversão à direita do padrão eleitoral no Amapá. Ademais, esse reordenamento político adiciona outro elemento de contexto: a crescente dificuldade, para as novas lideranças políticas, de consolidar seu capital político no longo prazo. A despeito do sucesso eleitoral do governador Clécio tanto em suas disputas para a prefeitura de Macapá quanto em sua primeira disputa pelo Palácio do Setentrião, todas as pesquisas indicam que seu principal oponente - o ex-prefeito Furlan - seria o vencedor com ampla margem. Resta saber se Furlan confirmará o resultado dos levantamentos.



¹ Ivan Henrique de Mattos e Silva é professor adjunto de Ciência Política no curso de Ciências Sociais e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Fronteira da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), além de vice-coordenador geral do Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal (LEGAL).



As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.




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