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O QUE ESPERAR DAS ELEIÇÕES PARAENSES DE 2026 NO PERÍODO PÓS-HELDER BARBALHO?

Atualizado: há 3 dias

Gustavo César M. Ribeiro

Fernando Carneiro


As eleições de 2026 serão marcadas pelo encerramento dos anos de governo de Helder Barbalho no estado do Pará. Suas duas gestões no comando do Executivo estadual (2019 – 2022 e 2023 – 2026) foram caracterizadas pela construção de uma hegemonia local sem precedentes – constatação que pode ser feita mesmo em comparação a ex-governadores referenciais na história política do estado, como o seu próprio pai, Jader Barbalho, ou adversários de seu grupo, como Almir Gabriel. Politicamente, Helder foi muito além – e há várias evidências nesse sentido.


Em sua primeira eleição vitoriosa ao governo do Pará, Helder Barbalho contava com o apoio de partidos que elegeram 33 dos 41 deputados na Assembleia Legislativa (ALEPA). Logo em seguida, sua base de apoio naquela casa legislativa aumentou rapidamente com a incorporação do PT e de uma parcela importante do PSDB – seus antigos adversários políticos. Tal base foi mais do que suficiente para a implementação de uma agenda própria de políticas e ações, com programas sociais importantes (como as Usinas da Paz – centros de referência social nos bairros e distritos menos assistidos das principais cidades do estado) e visibilidade nacional, com as articulações que resultaram na realização da COP-30, em Belém.


Assim, os governos de Helder Barbalho seguiram em um movimento consistente de consolidação, mesmo com contradições e percalços. Destacam-se, nesse contexto, os desafios ocasionados pela pandemia de Covid-19, pelas denúncias de corrupção e por questões de clara valência negativa, materializadas, sobretudo, na eleição de sua esposa ao Tribunal de Contas do Estado do Pará (TCE-PA) e na implementação, em 2025, de uma problemática reforma educacional, contestada por povos indígenas e trabalhadores do setor.


Aprovação e capital eleitoral


Todavia, a despeito de quaisquer críticas que possam ser feitas às gestões de Helder, em termos de avaliação popular, elas foram amplamente referendadas – fato apurado, dentre outras fontes, pela última pesquisa disponível do Instituto Doxa, na qual 65,7% dos paraenses disseram aprovar sua administração. Isto também pode ser observado em seus êxitos eleitorais ao longo dos anos - tanto enquanto candidato quanto no papel de “cabo eleitoral”.


Em sua reeleição, o representante da dinastia Barbalho obteve 70,41% de votos válidos no primeiro turno, maior percentual alcançado por um incumbente candidato à reeleição estadual no pleito de 2022. Nesse mesmo ano, seu apoio foi disputado por vários candidatos ao Senado Federal e se tornou importante para a eleição de Beto Faro (PT). 


Em 2024, nas eleições locais, a influência de Helder enquanto líder político se acentuou. Seu partido, o MDB, elegeu 85 prefeitos entre os 144 municípios. Ademais, por força de alianças formais ou informais, o governador obteve o apoio de cerca de 125 chefes de Executivo municipais. Em Belém, capital do estado, ele foi o “principal eleitor” de seu ex-secretário de Estado de Articulação da Cidadania, Igor Normando – que vem a ser, não por coincidência, seu primo. Como resultado, Normando foi capaz de derrotar o então prefeito Edmilson Rodrigues (PSOL) e, no segundo turno, um forte candidato de extrema-direita, o deputado federal Éder Mauro (PL).


Agora, o legado de Helder está em jogo. Devido à impossibilidade de reeleição, ele apoiará Hanna Ghassan (sua companheira de MDB, ex-vice e atual governadora do Pará) como candidata ao governo, enquanto concorrerá ao Senado ao lado do deputado estadual Chicão Melo (UNIÃO), atual presidente da ALEPA. A despeito de todo o capital político acumulado, Barbalho e seus aliados precisarão enfrentar uma conjuntura eleitoral marcada por três elementos decisivos. Em primeiro lugar, o fraco desempenho obtido, até agora, pela candidata do grupo governista em pesquisas de intenção de voto. Em segundo, a ascensão política de ex-aliados e desafetos, especialmente de Doutor Daniel (PODEMOS) – prefeito de Ananindeua, segunda maior cidade do estado e berço político do próprio Helder. Por fim, destaca-se a desafiadora reconfiguração do sistema partidário estadual, realizada em contexto de fortalecimento da extrema direita bolsonarista e enfraquecimento da esquerda.


Os desafios de 2026


Foto: Helder Barbalho apoiará Hanna Ghassan na disputa pelo Palácio Lauro Sodré, em 2026, no Pará. Repodução: Agência Pará.
Foto: Helder Barbalho apoiará Hanna Ghassan na disputa pelo Palácio Lauro Sodré, em 2026, no Pará. Repodução: Agência Pará.

Hanna Ghassan foi projetada por Helder como sua sucessora a partir de 2025. Desde então, passou a figurar ao seu lado nos principais eventos de governo. Mesmo assim, a atual governadora tem apresentado dificuldades em crescer nas pesquisas. Em um levantamento do Paraná Pesquisas, realizado em março, Hanna obteve 30,4% das intenções de voto, contra 39,1% registrados por Daniel. No cenário de segundo turno, o desafiante venceria por 48,7% a 36,2%. Mesmo com esses números, é preciso considerar pelo menos dois fatores capazes de modificar substancialmente esse quadro - a influência das alianças municipais e do peso do aparato governamental, de um lado; e o aumento da identificação, no eleitorado, da governadora com o seu principal correligionário, de outro.


Certamente, a tarefa de transferência de votos não será tão fácil quanto a que ocorreu com Igor Normando, em Belém, no pleito de 2024. Nesse caso, o apoio do principal líder do MDB local acrescentava dividendos políticos à trajetória de um ex-deputado estadual que esteve à frente de uma secretaria de governo com projetos bastante exitosos — credenciais que, agora, faltam a Hanna Ghassan. Mesmo assim, há de se esperar que ela angarie percentuais de intenção de voto mais robustos na medida em que se torna “a candidata de Helder” – restando saber se esse crescimento garantirá 50% + 1 dos votos válidos em quaisquer dos turnos.


Na oposição ao grupo liderado por Helder Barbalho, Doutor Daniel se apresenta, até o momento, como o candidato mais forte. Ele tem a vantagem de possuir bom recall na região metropolitana de Belém, onde estão os maiores colégios eleitorais do estado. Ademais, o prefeito de Ananindeua busca se colocar como o “anti-Barbalho”, já que Helder, apesar dos elevados índices de aprovação, não consegue evitar uma oposição crescente.


Mas, em se tratando de lidar com os oposicionistas, a principal estratégia de Helder Barbalho tem sido a de interferir e influenciar os movimentos de partidos e grupos políticos, operando em todo o tabuleiro eleitoral. Em 2020, nas eleições à Prefeitura de Belém, agiu para que o PSD, partido ao qual estava filiado Éder Mauro (seu aliado, à época), apontasse o deputado estadual Gustavo Sefer como candidato. Assim, escolheu aliados e adversários, além de limpar o terreno para a candidatura emedebista de então, liderada pelo deputado federal José Priante. Agora, em 2026, Helder busca repetir a jogada.


Além de influenciar grupos locais de mídia contrários a Doutor Daniel, Helder trabalhou para brecar uma movimentação importante de seu principal adversário. Para concorrer ao governo, o prefeito de Ananindeua saiu do PSB, visto como partido de esquerda, e se filiou ao PODEMOS. Com esse gesto, buscou se aproximar de eleitorados de centro e de direita, abrindo espaço para uma possível aliança com expoentes locais do PL, como o próprio Éder Mauro. Ao perceber a estratégia, Helder, via articulação em Brasília, impediu a entrada de aliados de Daniel em seu antigo partido, o que tornaria o PSB uma agremiação mais influente, no conjunto das opositoras. Como resultado, os socialistas foram esvaziados no Pará.


Mesmo ao se valer de tais artifícios, as influências do ex-governador sobre o sistema partidário local não impedem movimentos estruturais de mudança, como aquele proporcionado pela ascensão de forças políticas de extrema-direita. Embora essa seja uma tendência nacional, há particularidades paraenses importantes. Belém, por exemplo, foi uma cidade que, durante longo tempo - principalmente entre as décadas de 1990 e 2010 - dividiu-se entre candidaturas de esquerda e centro-direita nas disputas à Prefeitura. Nos últimos pleitos, porém, a extrema direita se impôs como uma força decisiva, chegando ao segundo turno em 2020 (com o Delegado Eguchi, PRTB) e, como antes citado, em 2024 (liderada por Éder Mauro, PL). A capital é, portanto, o marco das tendências de mudança do modelo político local, passando dos embates entre elites democráticas à esquerda e à direita para a inclusão do campo autoritário da extrema-direita como um agente eleitoralmente competitivo.


Além de se tornar o catalisador dos sentimentos “antissistema” do eleitorado belenense, o campo político da extrema direita, em paralelo, também se inseriu em importantes polos econômicos paraenses. Em regiões com forte presença do agronegócio e da mineração, lideranças agrupadas no PL ganharam espaço estratégico em municípios importantes como Marabá (governada por Toni Cunha) e Santarém (na qual o candidato JK do Povão se mostrou extremamente competitivo, chegando ao segundo turno). Esses movimentos concorrem para reconfigurar o cenário político e eleitoral estadual e projetar os principais representantes da extrema direita. Mudanças essas que acabam por sacramentar o deslocamento do campo direitista paraense do centro (representado pelo antes poderoso, e atualmente enfraquecido, PSDB) para as extremidades do espectro ideológico - com o PL e os grupos bolsonaristas.


Do lado contrário, as tendências de reorganização do sistema partidário se dão em um momento de enfraquecimento da esquerda no Pará. Certo é que o presidente Lula foi mais votado do que Jair Bolsonaro, em 2022, no estado, bem como que o PT local obteve uma importante vitória ao Senado Federal, com Beto Faro. Porém, não é bom indício de força política, para um partido que já teve uma governadora (Ana Júlia, entre 2007 e 2010), administrar, atualmente, apenas quatro municípios de pequeno porte. Outra constatação que pode ser feita nesse campo é a de que a realização da COP-30 em Belém, e o empenho do governo Lula em garantir o evento, não parece se materializar em acréscimos às bases eleitorais do líder petista no estado. Embora não se deva subestimar a força do atual presidente no estado, nem o uso da COP-30 como arma de propaganda eleitoral, alguns sinais amarelos já começam a aparecer, vide os dados das intenções de voto. Isto foi evidenciado no último levantamento realizado pelo instituto Paraná Pesquisas. Lula obteve 38,3% de intenção de votos entre os paraenses, contra 41% de seu principal opositor, Flávio Bolsonaro. 


Para além dos petistas, outra marca do atual momento crítico da esquerda paraense pode ser achada na derrota de Edmilson Rodrigues em sua tentativa de reeleição a prefeito de Belém, em 2024. Com uma gestão mal avaliada, o psolista acabou com apenas 9,78% dos votos válidos naquele pleito e sequer conseguiu chegar ao segundo turno. 


E o eleitorado paraense?


Ao fim e ao cabo, a conjuntura eleitoral de 2026 no Pará funcionará como um teste à hegemonia construída por Helder Barbalho ao longo de seus dois mandatos. Mais do que uma simples disputa sucessória, o pleito colocará em jogo a capacidade de reprodução de um projeto político altamente centralizado diante de um ambiente mais competitivo, marcado pela presença de opositores com chances reais de êxito eleitoral. Ademais, a disputa revelará as dimensões das mudanças no sistema partidário estadual, bem como das reconfigurações de partidos à esquerda e à direita. Nesse contexto, a questão central, a ser respondida quando os votos forem contados, é a seguinte - um Pará “pós-Helder”, governado por atores de fora de seu grupo político, não está nos planos do ex-governador. Porém, estará nas escolhas do eleitorado paraense em 2026?



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As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.



Gustavo César M. Ribeiro é professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política. Líder do Grupo de Pesquisa Comportamento Político e Sociedade (CPOLS). Pesquisador do INCT Representação Política e Legitimidade Democrática (INCT-REDEM). Contatos: gcmribeiro@ufpa.br. Instagram.com/cpols_ufpa. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8785742397681355


Fernando Carneiro é mestrando em Ciência Política (PPGCP-UFPA). Contato: fcarneirobelem@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6528832723784317 

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