ELEIÇÕES DE 2026 NA PARAÍBA: UM MUSEU DE GRANDES NOVIDADES
- NEPOL UFJF

- 10 de jul.
- 9 min de leitura
José Henrique Artigas de Godoy¹
O cenário para as próximas eleições na Paraíba indica pelo menos três aspectos distintivos em relação aos últimos pleitos no estado. Eles chamam a atenção por representarem uma mudança estrutural em relação ao padrão das disputas políticas das últimas décadas.
O primeiro fator relevante é a ausência de qualquer pré-candidatura competitiva do campo progressista após quatro sucessivas gestões de governos estaduais comandados pelo PSB.
O segundo aspecto diz respeito a uma reconfiguração da dinâmica partidária, que indica a decadência total do PSDB, legenda mais poderosa do estado na década de 2000, e a retração do PSB, partido hegemônico na década seguinte. Em contraponto, após movimentos centrífugos verificados nas grandes legendas do estado, partidos identificados com o centrão - particularmente PP e Republicanos e, ainda, embora em menor grau, o PL, vinculado ao bolsonarismo - passaram a ganhar expressão, especialmente a partir de 2016, quando ocorreu uma intensa fragmentação partidária no estado.
O terceiro e mais relevante resultado esperado para as próximas eleições será o retorno ao padrão clânico e oligárquico prevalecente na história política do estado.
Nesse cenário, quatro pré-candidatos devem disputar o governo estadual da Paraíba, três deles competitivos: o ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB), o ex vice governador e hoje governador Lucas Ribeiro (PP), e o senador Efraim FIlho (PL). Olímpio Rocha (PSOL) também pretende se candidatar, mas sem qualquer chance concreta de disputa.
Para o Senado há, até o momento, quatro pré-candidatos competitivos, entre eles, o ex-governador João Azevedo (PSB), o ex-prefeito de Patos, Nabor Wanderley (Republicanos), o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB), e o ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro, Marcelo Queiroga (PL).
A involução do campo progressista
O padrão familístico de domínio do governo estadual da Paraíba foi interrompido em 2010, com a eleição de Ricardo Coutinho (PT), à época filiado ao PSB, para o governo estadual. Reeleito, Coutinho emplacou seu sucessor, João Azevedo (PSB), que também se reelegeu e tentará agora uma cadeira no Senado.
O PSB era uma agremiação marginal na política paraibana até a filiação de Coutinho, que, nos anos seguintes, elegeu-se duas vezes prefeito de João Pessoa, elegeu seu sucessor, tornou-se governador, reelegeu-se e ainda foi o fiador da vitória de seu pupilo, João Azevedo, para o Palácio da Redenção, sede do Executivo estadual.
Com a chegada de Ricardo Coutinho ao PSB, o partido começou a galgar mais expressão eleitoral e a disputar a liderança política no estado com o PMDB, que se encontrava em longa, lenta e continuada regressão; e com o PSDB, que até então vinha afirmando-se como maior legenda do estado.
Em 2010, a eleição de Ricardo Coutinho para o governo estadual rompeu o padrão costumeiro de revezamento de representantes das famílias tradicionais à frente da política estadual. Na presidência do PSB local e no controle do governo estadual por dois mandatos, Coutinho ampliou gradualmente o poder do partido, especialmente no interior do estado. Sua reeleição, em 2014, consolidou o PSB como partido dominante na Paraíba.
Em meio a denúncias de corrupção investigadas pelo Ministério Público Estadual no contexto da Operação Calvário, o ex-governador Ricardo Coutinho se desentendeu com João Azevedo, produzindo uma cisão no PSB com consequências de longo prazo, que ainda hoje se refletem na política estadual. Coutinho rompeu com seu sucessor ainda no início da gestão de Azevedo. Desde então, padrinho e afilhado político não se falam e tornaram-se inimigos políticos inconciliáveis. Foi o início do fim da curta hegemonia do PSB na Paraíba.
Sob a liderança de João Azevedo, o PSB paraibano vem vivenciando uma situação aparentemente paradoxal: um forte crescimento no número de prefeituras conquistadas na última eleição e, paralelamente, forte recuo nos legislativos estadual e federal.
Após oito anos de governo, Azevedo saiu do cargo com altas taxas de aprovação e é considerado franco favorito para as próximas eleições senatoriais. Na montagem da chapa majoritária governista, Azevedo privilegiou os acordos com aliados do campo conservador, com o qual já havia se aproximado desde o primeiro governo.
Já na montagem de sua chapa à reeleição, em 2022, Azevedo firmou aliança com o PP. Além do apoio do clã dos Ribeiro, com ampla base eleitoral na região de Campina Grande, segundo maior colégio eleitoral do estado, o PP tinha em suas fileiras o então prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, o que proporcionou à chapa governista um manancial de votos considerável, contribuindo para a vitória em primeiro turno.
As faturas dessas alianças foram cobradas nas articulações para a montagem da chapa majoritária do governo para as próximas eleições, com o apoio à reeleição de Lucas Ribeiro (PP) para o governo e de Nabor Wanderley (Republicanos) para o Senado. Entretanto, a escolha de Azevedo pela aliança com grupos conservadores alinhados ao centrão e às famílias tradicionais no estado, pavimentando sua eleição ao Senado, causou novas reações internas ao PSB e um movimento centrífugo de deputados, que migraram para outras legendas.
Infografia 1 – Estrutura dos grupos políticos na Paraíba em 2026

Após quatro governos liderados pelo partido, a abdicação do lançamento de candidatura própria ao Palácio da Redenção produziu uma hecatombe entre deputados do partido, preteridos nas articulações para a montagem da chapa governista. A consequência foi um esvaziamento do partido. O PSB chegou a ter oito deputados estaduais e três dos 12 deputados federais da Paraíba; contudo, após a última janela de migração partidária, o partido perdeu cinco das seis cadeiras que detinha no Legislativo estadual e também seu único deputado federal.
Neste cenário, sem capacidade política de encampar candidaturas majoritárias competitivas, o PSB, o PT e o PCdoB apoiarão a reeleição de Lucas Ribeiro (PP). Após décadas, a Paraíba não terá candidatura competitiva do campo progressista ao governo estadual. O PSOL lançará Olímpio Rocha, mas sem viabilidade competitiva.
O ocaso do PMDB e do PSDB
O PMDB foi hegemônico na Paraíba desde a redemocratização até a década de 2000. O partido tornou-se um grande guarda-chuva, agrupando várias lideranças de clãs políticos com larga tradição no estado, como os Mariz, os Braga, os Maranhão, os Cunha Lima, os Vital do Rêgo, os Santiago, os Lucena, os Carneiro e os Motta. Em seguida, em face de rachas internos que antagonizaram o grupo de José Maranhão e o de Ronaldo Cunha Lima, o PMDB vivenciou uma dissidência que, liderada pelos Cunha Lima, também levaria os Lucena e os Carneiro para o PSDB, que cresceu nos anos seguintes, dividindo com o PMDB o controle da maioria das prefeituras do interior do estado e também das bancadas parlamentares, estadual e federal.
Entre 2000 e 2010, o PSDB tornou-se a principal legenda no estado. Sob a batuta dos Cunha Lima, o partido agrupou uma parentela com lideranças de importantes famílias políticas no estado, com destaque para Cícero Lucena, Rui Carneiro e Rômulo Gouveia.
Após 2010, o PMDB e o PSDB entraram em franco descenso. O PMDB, que já havia conquistado 12 cadeiras na Assembleia Legislativa, um terço do total, três das 12 vagas na Câmara dos Deputados e ainda duas das três no Senado, chegou a ficar sem representação parlamentar. Processo semelhante verificou-se no PSDB, especialmente após 2016. Desde então, a legenda passou a amargar derrotas expressivas em eleições para cargos executivos e a diminuição constante de suas bancadas parlamentares. Na última janela de migração partidária, o PSDB perdeu suas últimas cadeiras parlamentares no estado.
O colapso do PMDB e do PSDB, somado à retração do PSB, marcou uma reconfiguração do quadro partidário na Paraíba, que passou a ter como legendas principais o Republicanos, o PP, o MDB, que voltou a ganhar musculatura depois de uma década de ostracismo, e ainda o PL, que, alinhado ao bolsonarismo, vem se fortalecendo como alternativa competitiva (Gráfico 1).
Em 2018, o Republicanos fez apenas um deputado federal e um estadual. Em 2022, conquistou três cadeiras na Câmara e oito na Assembleia Legislativa. Após a janela de migração partidária, o partido ficou com dez deputados estaduais, enquanto o PP saltou de quatro para 11 deputados, e o MDB, de dois para seis, conformando, juntos, 27 representantes de um total de 36 na Assembleia.
Gráfico 1 – Número de deputados estaduais por partido e por ano na Paraíba

Fonte: elaboração própria
Gráfico 2 – Número de deputados federais por partido e por ano na Paraíba

Fonte: elaboração própria
O Republicanos é comandado pelos Motta Wanderley, que dominam politicamente a região de Patos, no sertão do estado, desde o início do século XX. O partido tem como principal liderança o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. A aliança de Motta com João Azevedo e os Ribeiro para a composição da chapa majoritária governista resultou na imposição do nome de seu pai, Nabor Wanderley, como candidato ao Senado.
Com a imposição, pelo PP, da candidatura de Lucas Ribeiro a governador, Cícero Lucena não teve outra alternativa para garantir sua candidatura senão migrar para outro partido. Foi para o MDB, controlado pelo senador Veneziano Vital, também integrante de um clã político secular da região de Campina Grande.
Os três pré-candidatos competitivos ao governo da Paraíba representam clãs políticos tradicionais. Cícero Lucena provém de uma família política com raízes seculares no estado, que remontam ao Império. Com a morte precoce de seu pai, seu tio, o deputado e senador Humberto Lucena, introduziu Cícero na carreira política. Seu filho, Mersinho Lucena, é deputado federal.
Pré-candidato à reeleição, Lucas Ribeiro, de apenas 36 anos, representa o clã dos Ribeiro, também com raízes seculares na região de Campina Grande. Hoje, o clã é comandado pelo ex-ministro e ex-líder do PP, o deputado federal Aguinaldo Ribeiro, irmão da senadora Daniela Ribeiro e tio do governador.
Também candidato ao Palácio da Redenção, Efraim Morais Filho representa o tradicional clã dos Morais, com secular relação de dominação política na região de Santa Luzia, no sertão do estado. Efraim Filho foi conduzido à vida política pelas mãos de seu pai, Efraim Morais, que foi deputado estadual, federal e senador, e chegou a presidir a Câmara dos Deputados.
Ao lado do ex-governador João Azevedo (PSB), de Nabor Wanderley (Republicanos) e de Veneziano Vital (MDB), Marcelo Queiroga (PL) também vem constando entre os nomes mais competitivos na pré-campanha para o Senado na Paraíba. Ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, Queiroga surpreendeu nas últimas eleições, chegou ao segundo turno da eleição à prefeitura de João Pessoa e foi derrotado por pequena margem de votos por Cícero Lucena. A expectativa para as próximas eleições senatoriais na Paraíba é de disputa acirrada, especialmente entre Veneziano Vital (MDB) e Queiroga (PL), considerando que Azevedo lidera a corrida eleitoral com folga.
João Pessoa e Campina Grande são os maiores colégios eleitorais do estado da Paraíba, reunindo, respectivamente, 560 mil e 295 mil eleitores. Santa Rita e Bayeux, na região metropolitana da capital, seguem como maiores colégios eleitorais, com 100 mil e 73 mil eleitores, respectivamente. Patos é o quinto maior colégio eleitoral do estado, com 66 mil eleitores. Cícero Lucena, João Azevedo e Marcelo Queiroga concentram votos na capital e região metropolitana, Lucas Ribeiro e Veneziano Vital em Campina Grande, e Nabor Wanderley em Patos. Os cinco maiores colégios eleitorais são decisivos para as campanhas majoritárias por concentrarem cerca de um terço dos 3,2 milhões de votos dos 223 municípios do estado.
Os temas que aparecem com mais intensidade nas plataformas da pré-campanha são eminentemente provincianos, havendo um grande descolamento das pautas nacionais. Não muito diferente de outros estados, a segurança pública e o combate ao crime organizado aparece em primeiro plano como tema central da pré-campanha, seguido pelo da saúde e do meio-ambiente. Entre os discursos dos principais pré-candidatos também é de destaque o debate administrativo, envolvendo propostas de continuidade e ruptura com o modelo de gestão estadual.
O voto lulista como ativo eleitoral
O voto lulista na Paraíba será disputado pela maioria dos candidatos no estado. Em 2022, Lula venceu em todos os municípios da Paraíba e, em todas as pesquisas de intenção de voto, aparece muito à frente dos demais pré-candidatos no estado. Por isso, é um cabo eleitoral disputado por vários grupos políticos paraibanos. Cícero Lucena (MDB) e Lucas Ribeiro (PP), pré-candidatos ao governo, assim como Nabor Wanderley (Republicanos) e Veneziano Vital (MDB), pré-candidatos ao Senado, apoiam a reeleição de Lula.
Apesar de endossar a candidatura de Lucas, a direção do PT vem declarando publicamente que não apoiará Nabor, mas Veneziano Vital. Nabor Wanderley sempre teve posições claramente alinhadas à direita e se aproximou recentemente do bolsonarismo, daí a rejeição da militância petista em aceitar sua candidatura para o Senado. Já Veneziano, nos últimos oito anos, como vice-presidente do Senado, foi um fiel escudeiro do governo Lula, apoiando o governo em todas as votações.
Um museu de grandes novidades
As próximas eleições tenderão a reproduzir novamente o poder das famílias tradicionais no estado. Contudo, isso não significa que não ocorram renovações. Hoje, entre as mais importantes lideranças políticas do estado, estão jovens representantes de famílias tradicionais, a exemplo de Hugo Motta, o mais jovem presidente da Câmara dos Deputados da história; Efraim Filho, o mais jovem senador da história; além de Lucas Ribeiro, Veneziano Vital, Mersinho Lucena, Wilson Filho, Pedro Cunha Lima, Léo Bezerra, entre outros. O que fica claro no cenário político atual é que os clãs voltaram a ditar a política na Paraíba, agora renovados, com lideranças jovens, dinâmicas, adaptadas às novas demandas digitais e prontas para manter o poder das oligarquias, parentelas e clãs políticos tradicionais por ainda muito tempo.
José Henrique Artigas de Godoy é professor associado do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais. Contato: jhartigasgodoy@gmail.com. Lattes: https://lattes.cnpq.br/8355897544338705.
As análises e opiniões apresentadas neste texto são de responsabilidade exclusiva de seu(s) autor(es). O Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL/UFJF) reafirma seu compromisso institucional com a pluralidade de perspectivas e com a diversidade teórica e metodológica que orienta a produção científica na Ciência Política brasileira.



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